OPINIÃO
01/06/2018 20:29 -03 | Atualizado 01/06/2018 20:29 -03

A Revolução será via Zap Zap

"Tu não contavas, amigo Marx, era que o mundo (e o Brasil, em particular) fosse tão dialético quanto as frases de para-choque de caminhão."

Stringer . / Reuters

Em meio à primavera dos povos – uma série de levantes que tomaram de assalto a Europa – é publicado em 1848 "O Manifesto do Partido Comunista", de autoria de Marx e Engels. Um dos melhores panfletos políticos já escritos em toda história, texto desses cruciais para entender a passagem da triste raça humana pela face desta bela terra.

Uma das teses fundamentais dos autores é que o capitalismo é marcado pela instabilidade. Não no sentido de crises econômicas (ainda que isso faça parte do pacote), mas no sentido de que tudo está em constante transformação, e numa velocidade jamais vista ao longo da história humana.

Essa instabilidade é causada pela constante revolução dos meios de produção, de transporte, de comunicação. E essa revolução é disparada pelo desejo incontrolável que os capitalistas têm de enriquecer. Os vícios privados geram, na teoria marxista, um resultado socialmente dialético.

Dizem os autores em determinada altura:

"O verdadeiro resultado de suas [dos trabalhadores] lutas não é o êxito imediato, mas a união cada vez mais ampla dos trabalhadores. Esta união é facilitada pelo crescimento dos meios de comunicação criados pela grande indústria e que permitem o contato entre operários de localidades diferentes. [...] E a união que os burgueses da Idade Média levavam século a realizar, com seus caminhos vicinais, os proletários modernos realizam em poucos anos por meio das vias férreas".

Isso que Marx e Engels falaram não só permanece válido, mas são ainda mais relevantes hoje do que o eram em 1848.

Um dos problemas centrais da organização de protestos, passeatas, greves, piquetes é aquilo que em teoria econômica se chama de "problemas da ação coletiva". Quanto maior o grupo de pessoas envolvidas e quanto maior a heterogeneidade entre elas, mais difícil e custoso é organizar um movimento conjunto. Essa dificuldade emerge mesmo quando os resultados potencialmente obteníveis através da ação conjunta, são maiores que o custo individual concreto de participar do movimento.

Nos movimentos políticos esse problema se agrava. Não só a incerteza do resultado é grande – afinal, não basta se organizar e protestar para obter alguma vitória –, como os grupos são geralmente grandes e dispersos.

As esquerdas resolviam esse problema através de partidos políticos, organizações estudantis, grupos sindicais, movimentos sociais. Coisa que os grupos mais à direita, via de regra, não tinham.

As ruas eram, assim, um quase monopólio das esquerdas. Monopólio raramente quebrado, como no exemplo da "Marcha da Família com Deus e pela Liberdade", ou coisas do gênero.

"Mas tudo o que é sólido se desmancha no ar", velho Marx.

O avanço da tecnologia de comunicação tem reduzido os custos e minorados as dificuldades de se organizar essas ações coletivas. Não é possível falar na Primavera Árabe, ou nos protestos que levaram ao impeachment de Dilma e, agora, na greve dos caminhoneiros, sem falar em Facebook, Twitter e Whatsapp.

Essas armas, porém, que Marx cria que seriam usados pelo bem da revolução proletária, no caso do Brasil, até aqui, serviu em verdade para organizar os grupos de direita e extrema-direita em nosso país.

O Brasil ultraconservador, que passava longe das manifestações e que não tinha movimentos populares para chamar de seus, começou a florescer graças a esses avanços.

A direita fanática tem tomado de assalto o Facebook, o Twitter, o Youtube e o Whatsapp.

Os conservadores que se intitulavam como "maioria silenciosa", agora são extremamente barulhentos.

Não só os conservadores encontraram suas "bolhas sociais" nas quais a radicalização é quase que um resultado natural, como abastecem seu fanatismo com notícias falsas (ou "fake news", para utilizar o termo jeca da moda).

Donaldo Trump parece ter sido eleito, em grande medida, graças aos robôs de redes sociais e à disseminação eficiente de notícias falsas.

No Brasil, Bolsonaro caminha no mesmo sentido. E quando Bolsonaro não basta, vê-se a emergência de um movimento organizado pedindo a volta da Ditadura Militar, da Monarquia, da Idade Média, etc.

Marx, portanto, acertou ao prever o impacto dessas transformações nas comunicações no que diz respeito ao aspecto global da luta política. Mas se ele sonhava que isso seria uma arma na mãos dos trabalhadores, dos progressistas, da vanguarda, ou qualquer coisa do gênero, a verdade é que quem tem usado essas ferramentas é o famoso "Tiozão do Zap Zap" (como afirmou há pouco o cartunista Ricardo Coimbra).

Tu não contavas, amigo Marx, era que o mundo (e o Brasil, em particular) fosse tão dialético quanto as frases de para-choque de caminhão.