OPINIÃO
04/05/2018 20:16 -03 | Atualizado 04/05/2018 20:17 -03

Uma sociedade de monólogos e sem superego

Ao invés de diálogos, o que vemos com frequência hoje em dia entre as pessoas são monólogos frouxamente conectados.

SIphotography via Getty Images
Nossa sociedade está cada vez mais se perdendo em monólogos articulados sem escuta.

Lembro de ter discutido em uma aula de psicanálise um filme muito bom de Almodóvar, Fale com Ela, de 2002. Uma cena que me tocou em particular foi a de um diálogo, em um carro, onde uma das personagens, Lydia, fala a seu parceiro Marco que eles precisam conversar. Como haviam conversado durante todo o trajeto, Marco diz: "Mas nós estávamos conversando agora há um tempo". Ao que ela responde: "Você sim, eu não". Deixam o assunto para mais tarde, mas este nunca acontecerá uma vez que ela sofre um acidente e fica em coma.

Discutimos à época a noção de monólogos articulados. Ao invés de diálogos, o que vemos com frequência hoje em dia entre as pessoas são monólogos frouxamente conectados. Uma simplesmente não escuta, de fato, o que a outra fala. Simplesmente ouve parcamente, e espera a sua vez para falar.

E o debate político não tem sido diferente, como todos sabem, ultimamente.

Não há discussão. Há apenas opiniões emitidas alternadamente em série e discordância. Não há ponderação, reflexão. Ninguém está disposto a mudar de opinião, e sim a impor a sua própria. A tese e antítese para por aí. Não há síntese.

Para Norberto Bobbio (Left & right, the significance of a political distinction), a divisão entre esquerda e direita tem a ver com ideologias que implicam ideias/visões de vida e funcionamentos psicológicos distintos. É só ver o perfil de alguém no Facebook para que o incauto possa emitir um palpite, "com quase certeza", do alinhamento político da pessoa. "Simplesmente pelo que ela escreve..."

Como no debate político não há troca, isolam-se. Os monólogos articulados viram guerra de egos, ataques aos funcionamentos psicológicos de cada um. Uma briga quase existencial. Inflamada, raivosa.

Cenário de solo fértil para a violência.

Não só na internet, como no plano físico também (violência independe de esquerda ou direita, antes que algum leitor apressado tenda a colocar este texto em alguma das caixinhas dicotômicas).

O assassinato de Marielle e a própria difamação da vítima, após sua execução, trazem implícita a subliminar ideia de que se ela tivesse sido eleita pelo Comando Vermelho, talvez merecesse morrer. Ou o absurdo de que talvez sua morte tivesse mais legitimidade. Se ela tivesse sido esposa de um traficante, talvez não fosse tão injusto morrer. Alguém afinal merece ser assassinado? Todas lamentáveis fake news, seguindo o mainstream das redes sociais, para validar a violência.

O mesmo senso de que a violência resolve as coisas é que disparou balas contra a caravana de um ex-presidente. Há uma diferença enorme entre jogar ovos ou desejar que ele esteja atrás das grades (que é meu desejo também) e resolver a coisa no tiro.

O julgamento, a prisão, passam pelas instituições. Reforçam a democracia, a justiça, a ordem, a lei. O tiro é um monólogo articulado. Desarticulado, na verdade. Pois é unilateral, assim como o tiro é unidirecional.

Essa violência é a mesma que leva animais a fazerem ameaças ao ministro Fachin e à sua família. Relator da Lava Jato no SupremoTribunal Federal, mostrou grande preocupação e pediu providências à ministra Cármen Lúcia e à Polícia Federal.

É a mesma que leva Gleisi Hoffman, senadora do PT, a declarar que para Lula ser preso "vai ter que morrer gente".

Essa violência é a mesma que mata policiais. É a mesma que provoca atrocidades nas rebeliões em presídios. É a mesma que faz que professores sejam ameaçados por alunos em salas de aulas do ensino público. Uma indiferença à autoridade, ao superego.

Para Freud o superego, grosso modo, é uma instância psíquica que representa o social. É aquele que nos reprime, nos impede de sairmos por aí fazendo o que nossos impulsos mandam. Não há diálogo, o indivíduo está a sós com seus monólogos, sua raiva, com sua frustração. E não há também superego, já que essa raiva, essa violência, estão vazando, passando para o ato. Não está mais sendo represada, como de costume.

A Lava Jato, a guerra contra a corrupção, devia fortalecer a democracia, as instituições. Reforçar a noção de superego. Mas o que se vê são as pessoas monologando cada vez mais em uma sociedade fragilizada, minando o superego dos indivíduos.

Queria crer que com a perspectiva das eleições as coisas mudariam. Sempre sou otimista, mas sinceramente começo a achar que as coisas só tendem a piorar daqui para frente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.