OPINIÃO
23/12/2017 13:30 -02 | Atualizado 23/12/2017 13:30 -02

Nova política de saúde mental do Brasil é debatida com preconceito

Mudança atabalhoada de modelo hospitalocêntrico para modelo centrado na comunidade gera estigma. As pessoas são simplesmente jogadas para fora do hospital e não acham tratamento ambulatorial.

Nova política de saúde mental não significa volta dos manicômios.
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Nova política de saúde mental não significa volta dos manicômios.

Só quem convive com um familiar com doença mental grave sabe como a situação pode ficar difícil no dia a dia pela falta de opção de tratamento. Só quem convive com um familiar com doença mental grave sabe que às vezes a internação é a única triste solução. E só quem convive com um familiar com doença mental grave e também aqueles que trabalham na saúde mental sabem da escassez crescente de opções de internamento, e do quão péssimas são essas opções.

Uma internação pode salvar o suicida. Uma internação pode salvar a pessoa com distúrbio bipolar que gastou todo o seu dinheiro em um carro esportivo e o dirige em alta velocidade durante uma crise de mania. Uma internação pode salvar a pessoa com depressão grave que não sai da cama e está prestes a ter outras conseqüências de saúde por falta de higiene. São inúmeras as indicações de uma internação psiquiátrica. Às vezes até contra a vontade da pessoa, pois a doença psiquiátrica pode afetar a capacidade de julgamento, turvar a compreensão da realidade.

Leitos psiquiátricos são imprescindíveis. Assim como leitos pediátricos, leitos cirúrgicos, obstétricos etc.

Mas o estigma da doença mental é ardiloso, persistente, e muitas vezes passa por nós despercebido, infiltrando-se sub-repticiamente à nossa volta. Na discussão que vimos na semana passada sobre as novas políticas de saúde mental, vimos muitos discursos inflamados, histéricos. De muitos que nunca puseram um pé em uma enfermaria psiquiátrica. Ou de muitos que transitam no mundo cor-de-rosa do teórico, tendo pouca vivência da realidade. Com isso tudo, pudemos observar como o estigma ainda está presente por aí, infelizmente. De que maneira?

Por meio do estigma estrutural. Este termo se dá ao preconceito vindo de cima, dos governantes. Baixa designação de verbas para a saúde mental, restrição de recursos humanos, diminuição de leitos e de vagas ambulatoriais para os serviços de psiquiatria.

Um movimento antimanicomial global (manicômio também é uma forma de estigma, veja abaixo) conseguiu que, ao longo dos anos, as políticas de saúde mental se direcionassem rumo à extinção de hospitais psiquiátricos "stand-alone". Ou seja, hospitais independentes que contivessem só leitos psiquiátricos (manicômios). Esses leitos deveriam ser fechados e no lugar deveriam se colocar leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Afinal, doença mental é uma doença, para que a discriminação de um hospital separado?

Mas o que aconteceu não foi isso. Simplesmente fecharam os leitos, o acréscimo da rede ambulatorial foi muito escasso, e os leitos psiquiátricos em hospitais gerais quase inexistem no Brasil, conforme mostra este levantamento publicado em um importante periódico internacional.

Assim, a política antimanicomial do nosso País acabou virando uma política antipsiquiátrica. Preconceito e discriminação, ao ignorar as necessidades dos pacientes psiquiátricos. Desassistidos ambulatorialmente, ficarão mais instáveis, e consequentemente poderão precisar mais de internação. O lado perverso é que não há mais tanto lugar para internar... Como ficam?

Hospitais psiquiátricos "stand-alone" também são um reflexo de estigma. Sabemos de alterações inflamatórias, de alterações em neurotransmissores, de alterações na estrutura cerebral, que ocorrem nas doenças mentais. Na depressão, na esquizofrenia, no transtorno bipolar. Daí os tratamentos biológicos, os antidepressivos, os antipsicóticos, para aprumar e corrigir a falha na neurotransmissão. Não é novidade nenhuma.

Mas por que separar aqueles que sofrem de tais patologias daqueles que sofrem de outras patologias? Essa é a idéia preconceituosa do manicômio. Há uma longa história de segregação que acompanha os manicômios (veja a História da Loucura, de Foucault).

Quem já trabalhou em algum manicômio (como eu), sabe o quão incoerente é a existência de tais lugares. Uma pessoa com uma doença às vezes precisa de exames. Acontece que nos hospitais psiquiátricos "stand-alone" não se consegue fazer isso com facilidade, muitas vezes. Pois ele está separado de um hospital tradicional. Como fica?

Mas por outro lado, uma mudança atabalhoada de um modelo hospitalocêntrico para um modelo centrado na comunidade também gera estigma. Pelo que já foi dito acima. As pessoas são simplesmente jogadas para fora do hospital e não acham tratamento ambulatorial. Isso as deixa mais instáveis, elas têm mais crises, e causam com isso uma má impressão da doença mental na sociedade.

Mesmo trabalhando no maior complexo hospitalar da América Latina, muitas vezes faltam remédios básicos para nossos doentes mentais. E na rede, onde estão os leitos psiquiátricos nos hospitais gerais do Brasil? Nossa rede ambulatorial de saúde mental é capenga.

Nos Estados Unidos o fechamento muito rápido de manicômios em determinada região gerou uma reação negativa por parte da população, que aumentou seu nível de preconceito contra o doente mental. Isso ocorreu pelos fatos explicitados acima. A transição tem de ser gradual.

Pois outro reflexo preconceituoso dessa mudança atabalhoada é o padrão de internação de porta giratória. Famílias não querem ficar com seus familiares com doença mental, pois não acham opções ambulatoriais para acolhê-los. O que fazem: trocam as internações de longa permanência por múltiplas internações curtas. No padrão de porta giratória no qual o paciente recebe alta, mas poucos meses depois está de volta ao hospital. Este fenômeno foi verificado na cidade de São Paulo há poucos anos em um hospital público, por exemplo.

Assim, as mudanças nas políticas de saúde mental não visam à volta ao modelo manicomial, asilar. Isso não existe mais na psiquiatria moderna. Visam apenas dar sobrevida aos leitos já existentes, para que se dê tempo de construir uma rede ambulatorial competente para assumir o tratamento do doente mental na comunidade.

Não dá para cortar drasticamente a verba de hospitais psiquiátricos, por mais estigmatizantes que sejam, e não colocar nada no lugar. É a mesma coisa que decidir, no meio de uma viagem, que determinada embarcação não é adequada, acabar com ela e jogar todo mundo no mar.

E não podemos deixar os nossos doentes mentais se afogarem.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.