OPINIÃO
17/02/2018 09:12 -02 | Atualizado 17/02/2018 09:12 -02

A causa dos tiroteios é a doença mental: A hipócrita desculpa chavão de Trump

Nesta semana, um jovem de 19 anos invadiu a escola onde estudava na Flórida e matou 17 pessoas.

Pixabay
Alunos matando colegas em escolas é algo de uma representatividade simbólica intensa. Mas Trump prefere acreditar que a culpa é da doença mental.

Nesta semana, mais um school shooting ocorreu nos Estados Unidos. Desta vez, na Flórida, um ex-aluno de 19 anos, expulso por questões disciplinares, invadiu a escola onde estudava e matou 17 pessoas com um rifle AR-15 comprado legalmente. Em seu primeiro pronunciamento sobre o tema, Donald Trump adota o discurso chavão, colocando a culpa na doença mental.

Pois bem, realizemos um exercício bem rasteiro de matemática.

Se olharmos os noticiários, vemos que no Brasil um aluno matou dois colegas em uma escola em Goiânia em 2017. Em 2011 houve o massacre do Realengo, onde 12 alunos foram mortos por um adolescente. Já nos Estados Unidos de 2000 até 2009 foram 60 tiroteios em escolas, e de 2010 até hoje foram 143 (um aumento significativo sobre a década anterior). Um total de 244 mortos, incluindo os de quarta-feira (14).

Comparando-se a população do Brasil (207 milhões) com a dos Estados Unidos (323 milhões), proporcionalmente deveríamos ter tido 156 vítimas de tiroteios em escolas brasileiras, e não 14. Se usarmos a justificativa de que possa ter havido subnotificação dos tiroteios aqui no Brasil, teríamos que aceitar que há um número muito maior destas ocorrências, mas que 91% delas não seriam relatadas. Difícil para um crime que chama tanta atenção da sociedade. Quase impossível pensar que a mídia deixaria passar despercebidos crimes tão escabrosos.

Mas então, por que há muito mais tiroteios em escolas nos Estados Unidos? Segundo Trump a culpa é da doença mental. Ah, então deve haver muito mais doença mental nos Estados Unidos!

Bom, não. Vamos lá. Segundo levantamentos publicados em periódicos científicos internacionais, estima-se que 46,4% da população americana já teve ao menos uma vez na vida algum diagnóstico psiquiátrico. Comparando estes dados com a cidade onde moro, São Paulo, vemos que a taxa é, por incrível que pareça, bem semelhante: 44,8% das pessoas já atingiram critérios para doença mental em algum momento da vida. Não é isso então.

Seria o tipo de doença mental que diferiria? Errado também. As proporções são bem semelhantes. Em São Paulo, por exemplo, 28% sofrem ou já sofreram de ansiedade, 19% de depressão, 11% por uso de substâncias. Nos Estados Unidos 29% sofrem ou já sofreram de ansiedade, 20% de distúrbios do humor, 15% por uso de substâncias. Chega a impressionar a semelhança.

Ainda se atendo ferrenhamente ao que o guru Trump nos disse: então pode ser que os distúrbios mentais nos Estados Unidos são mais mal tratados do que no Brasil. Errado. Não cabe aqui discorrer sobre o sistema de saúde de ambos os países. Apenas a título de comparação: no Brasil há 3,49 psiquiatras para cada 100.000 pessoas, enquanto que nos Estados Unidos são 12,4 psiquiatras para cada 100.000 pessoas. Fora toda a rede de atenção em saúde mental que é completamente diferente em ambos.

Indo para outros países além do Brasil, onde estão os school shooters da Holanda (41,2% de doença mental passada ou presente)? Onde estão os school shooters da Inglaterra (50%)? Onde estão os school shooters da Austrália (45,5%)?

Pois é, a conta de Trump não bate.

Mas é complicado discutir fatores mais profundos de uma sociedade como formação familiar, competitividade, discriminação e exclusão, individualismo, consumismo, vinculação social (social bond).

Uma epidemia de alunos matando colegas em escolas é algo de uma representatividade simbólica intensa, que pode ter diversas significações. É complicado também falar de outros fatores mais aparentes como a polêmica política de venda de armas de fogo nos Estados Unidos. Para que mexer com a indústria armamentista? Para que botar o dedo na ferida e questionar como estão sendo formados os adolescentes americanos?

Lamentavelmente é mais fácil fechar os olhos para isso tudo e colocar a culpa na doença mental. Um velho algoz, pau para toda obra.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.