OPINIÃO
15/12/2017 19:48 -02 | Atualizado 15/12/2017 19:59 -02

2018: À procura de um pai

Com a crise, ficamos órfãos. Perdemos emprego, a renda caiu, o poder de compra foi para as cucuias, direitos tiveram de ser cortados.

Para 2018, queremos um pai. Um estruturador para por ordem na bagunça.
Montagem/Getty
Para 2018, queremos um pai. Um estruturador para por ordem na bagunça.

A despeito da discussão sobre gênero que vem ocorrendo frequentemente por aí, papéis estereotipados de pai e mãe ainda permeiam a cultura. E para desalento do País, o Brasil órfão/vítima está à procura de um pai para 2018.

Um estudo bastante interessante (que mereceria uma postagem própria), feito no centro-oeste dos Estados Unidos, convocou estudantes universitários a opinarem sobre estereótipos relacionados ao papel de pai. Aos 663 participantes, perguntou-se sobre diversos "tipos" de pais, do divorciado ao pai gay.

De maneira geral, as características foram enquadradas em cinco dimensões. Há uma dimensão que compreende características como o pai provedor ("Isso nem passa pela minha cabeça, eu dei uma boa educação, fui pai presente, não corro este risco"), arrimo de família ("Eu quero saber se o povo está na merda e quero tirar o povo da merda em que ele se encontra"), aquele que trabalha e dá duro ("Durante toda minha vida, vivi em crise. Sou de uma terra que se até cinco anos de idade você não morreu de fome, é um milagre").

Uma segunda dimensão compreende o pai cuidadoso, dedicado, amoroso ("Eu quero voltar a ser o Lulinha paz e amor"), mas também o forte e disciplinador ("O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde").

A terceira dimensão diz respeito ao pai arrogante ("Sou uma curva fora do ponto (sic). Um operário sem diploma que chegou à Presidência", "Deviam estar pedindo bênção para mim, pois nunca ganharam tanto dinheiro"). As outras duas dimensões contêm características como o pai orgulhoso ("Eu tenho consciência de que tivemos o maior programa educacional do mundo naquela época, só perdia para a China") eo pai maduro e bem-intencionado ("Volto a ser candidato porque me sinto ainda mais maduro e preparado, pois aprendi bastante nos últimos anos, muitas vezes com sofrimento e injustiças").

No Brasil, a questão não muda muito. Apesar da concepção do papel do pai estar mudando bastante nos últimos anos, ainda é muito frequente que papéis mais tradicionais sejam solicitados. O pai de hoje está mais próximo do filho, é mais afetivo, está dividindo o papel de provimento financeiro familiar com a mulher. Mas ainda nos encontramos em um momento de transição em que o velho pai ainda é muito evocado, segundo revisão feita por Mauro Luís Vieira e colegas para os Arquivos Brasileiros de Psicologia.

Mas não é preciso de estudos para que venham a nossa mente as qualidades características atreladas à paternidade. E também é perceptível que os dois pré-candidatos que lideram os cenários de pesquisas eleitorais para a disputa pela presidência em 2018 encarnam tais papéis.

O pai lutador, provedor, injustiçado, guerreiro. O pai disciplinador, rígido, austero. As frases em parênteses são meros lembretes pictóricos colhidos do discurso de cada um. Há inúmeros outros exemplos, estão à disposição em textos, vídeos, citações. Estão à disposição na nossa livraria arquetípica interna quando observamos a postura tanto de um quanto de outro.

Com a crise, ficamos órfãos. Perdemos emprego, a renda caiu, o poder de compra foi para as cucuias, direitos tiveram de ser cortados. Vimos o caos e a desordem, econômica e política. Presenciamos o desrespeito às leis e regras com a corrupção em sua apoteose. A bonança do paternalismo, do Estado que tudo dá, se foi, assim como a confiança na classe política. E para isso, em 2018, queremos um pai. Um estruturador para por ordem na bagunça.

Não importa que um seja réu em sete ações, tendo sido condenado em uma delas. Não importa que o outro emita juízos de valor altamente preconceituosos. Fingimos não ver. Como aquele garotinho já a entrar na adolescência que, no fundo, sabe que Papai Noel não existe, mas que se recusa a não acreditar nele. Gostamos de acreditar em mentiras, fechar os olhos para certas coisas. É gostoso viver de ilusões quando não se quer encarar a dura realidade.

O pai morreu, mas ainda somos paternalistas. Não aceitamos o fato, não aceitamos a morte, deixamos o quarto dele sempre arrumado, esperando que volte. Sinceramente esperávamos o novo para 2018, mas o que as pesquisas mostram é que se este novo não aparecer, ele voltará. Ou melhor, ela. A velha política. Ela se perpetuará, e entraremos de novo no antigo ciclo. Infelizmente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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