OPINIÃO
05/02/2016 17:16 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Uma tarefa que nenhum país pode ignorar

ASSOCIATED PRESS
In this picture taken Monday, Jan. 4, 2016, a Syrian refugee woman carries her baby on her back as she walks in mud from the heavy rain, at a refugee camp in the town of Hosh Hareem, in the Bekaa valley, east Lebanon. A snowstorm engulfed Lebanon on the first day of the new year, cutting off mountain roads, isolating villages and worsening living conditions for tens of thousands of Syrian refugees. (AP Photo/Hassan Ammar)

Brasileiros vivem, em média, nove anos a mais do que há 20 anos. Uma grande conquista do país. Mas imagine se hoje você vivesse 20 anos a menos, em média, do que em 2011?

Seria uma calamidade nacional.

Esse cenário não é ficção. Hoje, essa é a realidade na Síria. Estima-se que mais de 200 mil pessoas tenham morrido e que mais de um milhão tenham sido feridas. Além disso, com necessidade de assistência, quase 12 milhões de sírios foram forçados a deixar suas casas - sendo que desses, cerca de quatro milhões fugiram para o exterior. Histórias de mortes por fome, de crianças obrigadas a comer grama e folhas e a tomar água aromatizada com especiarias na cidade de Madaya, onde o arroz é vendido por gramas (o custo de um quilo pode chegar a 250 dólares!), não param de emergir. A guerra na Síria provocou a maior crise humanitária do mundo desde a 2ª Guerra Mundial.

A Síria costumava ser um país de rendimento médio. Hoje, quatro em cada cinco sírios agora vivem em situação de pobreza, doenças como a pólio voltaram, e quase três milhões de crianças deixaram de ir às aulas. Segundo o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, o país perdeu o equivalente a quatro décadas de desenvolvimento humano desde 2011.

Na última quinta-feira, 04/02, delegações de mais de 60 países, incluindo o Brasil, foram para Londres para prometer 10 bilhões de dólares em ajuda humanitária para a população síria afetada pelo conflito. A comunidade internacional também comprometeu-se a ajudar a matricular milhões de crianças que estão fora da escola, a proteger os sírios que ainda estão no país, e a impulsionar o comércio e o investimento nos países vizinhos à Síria, como forma de estimular oportunidades econômicas e criar empregos para os refugiados.

O Brasil, como o país com a segunda maior comunidade diáspora síria no mundo, tem um papel importante a desempenhar.

Apesar das dificuldades econômicas em casa, o Brasil aceitou mais refugiados sírios que qualquer outra nação da América Latina. O governo brasileiro também atendeu apelos humanitários anteriores e realizou doações de alimentos e kits médicos. Além disso, conforme anunciou o Chanceler Mauro Vieira em Londres, o Brasil vai liberar um aporte de 1,3 milhão de dólares para ajudar os refugiados.

Contudo, todos estes bilhões de dólares não vão resolver os problemas da Síria. Somente uma paz justa pode fazer isso, com uma transição política para um novo governo que atenda às necessidades de toda a população. Ironicamente, no mesmo momento em que diversos países do mundo reuniam-se para apoiar aqueles afetados pelo conflito, o recrudescimento dos ataques do regime sírio em Aleppo empurrava mais refugiados daquela cidade à Turquia.

A responsabilidade pela paz e a criação de cenários de paz deve ser o trabalho de todos os países, ao longo de muitos anos. Como disse o Chanceler Vieira, "os esforços da Conferência de Doadores para a Síria terão um impacto limitado se uma solução política significativa não for atingida em breve". Essa é uma tarefa enorme, e necessária, que nenhum país pode ignorar.

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