OPINIÃO
13/02/2016 15:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Um evento feito por brasileiros para brasileiros

Cada país tem algum programa obrigatório para o turista. Em Londres visitar Harrods, por exemplo, ou apoiar Chelsea no futebol. Muitas vezes são coisas que os próprios locais não tem o menor interesse em fazer. A minha esposa portuguesa nunca viu, e nem quer ver, uma tourada. Quando fui a uma, perto de Lisboa, ela ficou em um café com a minha mãe.

ASSOCIATED PRESS
A woman smiles for a photo at the 'Carnaval na Central' carnival block parade, in central station, during pre-Carnival celebrations in Rio de Janeiro, Brazil, Saturday, Feb. 2, 2013. (AP Photo/Felipe Dana)

Cada país tem algum programa obrigatório para o turista. Em Londres visitar Harrods, por exemplo, ou apoiar Chelsea no futebol. Muitas vezes são coisas que os próprios locais não tem o menor interesse em fazer. A minha esposa portuguesa nunca viu, e nem quer ver, uma tourada. Quando fui a uma, perto de Lisboa, ela ficou em um café com a minha mãe.

Uma das ações obrigatórias do Brasil é, com certeza, o Carnaval no Rio.

Nesta semana, eu e dezenas de colegas da Embaixada e Consulados Britânicos desfilamos na Marquês de Sapucaí. Alguns dos meus colegas brasileiros ficaram super felizes, nos deram sugestões, explicações e, até no meu caso, organizaram uma aula particular de samba para eu não me envergonhar tanto no desfile (reconheço agora que devia ter tido 10 aulas e não apenas uma). Outros colegas quiseram fugir o mais longe possível do Brasil durante o Carnaval; alguns deles vêem na festa alguma coisa triste sobre o Brasil: "A felicidade do pobre parece, a grande ilusão do carnaval", como definiu, em palavras agridoces, Tom Jobim.

Mas, enfim, desfilamos. Desfilei porque fui convidado pela Escola de Samba Estácio de Sá, que este ano decidiu homenagear São Jorge, o santo padroeiro do meu país (e de alguns outros também - ele é bastante "promíscuo", se é que podemos usar esta palavra para definir um santo), e pela experiência de participar de um evento tão conhecido e também tão emblemático do Brasil. Nunca experimentei nos meus dois anos e meio aqui uma coisa tão profundamente brasileira - ou talvez tão profundamente carioca. Claro, muitos ingleses vêem ao Carnaval, mas ele não é um evento apenas para inglês ver, é um evento feito por brasileiros para brasileiros.

Carnaval é mais uma prova do fato de que o lazer é levado muito a sério pelos brasileiros. A dedicação necessária para produzir o samba, o enredo, a roupa é impressionante. Igualmente impressionante é a participação. Só no desfile do Estácio havia mais de 3 mil participantes, e houve mais onze escolas desfilando depois de nós!

A diferença entre os participantes do desfile e a assistência nas arquibancadas era quase nula. Pensei, observando o público, que teria sido muito fácil trocar de posição, eu entrando na arquibancada e eles entrando no desfile. No Carnaval, assim como em muitas representações da cultura popular, não há espectadores, apenas participantes.

Apesar dos comentários negativos sobre a capacidade do Brasil organizar as Olimpíadas, a organização funcionou muito bem. Lembrei, inclusive, de uma cena do filme "Shakespeare in Love", quando o diretor do Globe, questionado "como é que tudo isto funciona?" responde: "não sei como, mas funciona".

A minha contribuição foi provavelmente negativa; a Estácio ficou em último lugar e desceu para a Série A do carnaval carioca. Mas foi uma experiência única, que nunca vou esquecer, incluindo o momento de pânico depois dos primeiros 15 minutos do desfile, quando já estava exausto e o fim da Marquês de Sapucaí parecia cada vez mais longe.

Também saí do sambódromo pensando: por que Rio, agora que tem o Museu de Amanhã, não projeta um museu sobre o carnaval e o samba, para explicar um pouco mais ao mundo as raízes da celebração e assim contar também a história do Rio no século 20?

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