OPINIÃO
14/09/2015 16:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Por que a democracia é o menos mau dos sistemas políticos?

Mas, no geral, democracias são mais sustentáveis, porque refletem melhor a natureza humana, o nosso desejo para escolher o melhor caminho para nós próprios. Churchill tinha razão: democracia, com todos os seus defeitos, é preferível às alternativas.

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Democracia, como disse Winston Churchill, é a pior forma de governança, salvo todas as outras alternativas. Hoje podemos reclamar sobre todos os defeitos da democracia: os políticos, o financiamento dos partidos, os debates semi-estéreis, etc. Mas uma coisa eu sei: prefiro viver numa democracia do que numa autocracia. Assim como os refugiados que estão batendo à porta na Europa: eles não estão fugindo de uma democracia e não querem entrar em países autocráticos.

Mas por que democracia é o menos mau dos sistemas políticos? Porque é o menos injusto. Os outros sistemas são, de uma ou outra maneira, uma forma de ab-rogação de poder por um grupo auto-seletivo que decide o que é melhor para o resto do povo, o que normalmente se traduz rapidamente em o que é melhor para eles. O prazer de uma democracia é que, com uma eleição, podemos, como eleitores, "throw the rascals out", algo como "tirar os patifes do poder", em tradução livre.

Tendo crescido nos anos 1970, foi fácil distinguir se um país vivia uma democracia ou não. Os países democráticos tinham eleições, as autocracias não. Além disso, para ajudar ainda mais, os líderes das autocracias seguiam dois esteriótipos distintos: o generalíssimo, que tinha cem medalhas fixadas no peito e uns olhos vazios, escondidos por óculos do sol; e o semi-morto, um apparatchik (um agente do "aparato" governamental ou partidário que ocupa qualquer cargo de responsabilidade burocrática ou política) de pelo menos 80 anos que nunca conseguiu sorrir na vida dele (uso o gênero masculino para tratar dele porque foram sempre homens - não me lembro de nenhuma ditadora).

Mas hoje, temos uma nova espécie de sistema político, a semi-democracia. Os países que adotaram este sistema têm a aparência de democracia, com eleições, mas que não representam a realidade. Ou o resultado das eleições é manipulado (na velha frase, o que importa não são os votos contados, mas quem conta os votos), ou as eleições são verdadeiras mas construídas para permitir um resultado só, que é a continuação em poder do incumbente. A ausência de alternância no poder é um sintoma de sistemas que são assim democracias Potemkin.

Por causa do crescimento dessas democracias ocas, o número de democracias verdadeiras no mundo baixou na última década. Isto é impressionante para quem como eu cresceu numa época de otimismo, com a chegada da terceira onda de democracia, começando em Portugal, chegando à América Latina e especialmente no Brasil, e depois indo para o Leste Europeu com o colapso da União Soviética. Esta era de otimismo terminou.

Há uma grande tentação em seguir o caminho autocrático. Mas o risco de termos autocracias está na falta de resiliência social e econômica. Democracias não crescem necessariamente mais que autocracias, nem são automaticamente menos violentas. Mas, no geral, democracias são mais sustentáveis, porque refletem melhor a natureza humana, o nosso desejo para escolher o melhor caminho para nós próprios. Churchill tinha razão: democracia, com todos os seus defeitos, é preferível às alternativas.

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