OPINIÃO
29/12/2015 16:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Gilberto Freyre: Inteligente, moderno, aberto, humano

É evidente que Freyre foi, no seu tempo, um homem moderno. Aplicou técnicas de ciência para entender melhor o seu País. Nos anos 1930, ele aplicou o modernismo de uma forma humana, rejeitando as teorias de raça que foram tão destrutivas na Europa, e olhando para fatores como a dieta para avaliar o desenvolvimento do Brasil.

Divulgação

Cada país tem os seus autores de referência, escritores que são citados nos jornais, na televisão, em conversa. Autores que um estrangeiro tem que conhecer.

Quando apresentei as minhas credencias à presidenta Dilma Rousseff numa cerimônia que faz parte do rito de qualquer embaixador num país estrangeiro, ela não hesitou em me recomendar um autor que me ajudaria a entender o Brasil: Gilberto Freyre.

Por sorte, e azar, tive ocasião recentemente de conhecer um pouco mais a obra e a família dele.

Escrevo azar, porque a Fundação Gilberto Freyre, em Recife, foi vítima de um furto há alguns meses, no qual foi roubada, entre outras coisas, a condecoração do Knight Grand Commander of the Order of the British Empire, que Sua Majestade Elizabeth II lhe atribuiu quando visitou o Brasil em 1968. Gilberto Freyre é, até agora, o único brasileiro a receber essa honra.

Escrevo sorte porque decidi restituir a condecoração e oferecê-la à Fundação, através da filha de Gilberto Freyre. Nessa ocasião, inesquecível entre outras razões por causa da excelência do bolo do rolo - comida apropriada na casa de um autor que escreveu um livro sobre açúcar - tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre Gilberto Freyre, além de tudo que tenho estudado; estou lendo atualmente Casa Grande e Senzala, um grande desafio para o meu conhecimento da Língua Portuguesa.

É evidente que Gilberto Freyre foi, no seu tempo, um homem moderno. Aplicou técnicas de ciência para entender melhor o seu País. Nos anos 1930, um tempo de modernismo em todo o planeta, ele aplicou esse modernismo de uma forma humana, rejeitando as teorias de raça que foram tão destrutivas na Europa, e olhando para fatores como a dieta para avaliar o desenvolvimento do Brasil.

Gilberto Freyre foi também um homem internacional. Estudou nos Estados Unidos, viajou para Oxford, onde ele fez grandes amizades, citando vários autores franceses, em francês. Ele entendeu desde o começo que excelência e conhecimento não conhecem, nem devem conhecer, fronteiras.

E, claro, Gilberto Freyre foi um homem profundamente inteligente. Tantas vezes tenho sublinhado comentários dele na minha cópia de Casa Grande; por exemplo sobre as diferenças entre as igrejas espanholas e portuguesas, nos seus países e também nas suas colônias; sobre a miscegenação pré-existente nos colonizadores portugueses vinda da influência árabe no país; da fundamental importância da família como o base de desenvolvimento do Brasil, que explica em parte o fenômeno de "filhismo e netismo" que existe na política brasileira.

Ele é, ainda hoje, uma fonte de explicação sobre Brasil.

Também as observações dele sobre o meu país são interessantes. Por exemplo:

"Tudo na Inglaterra é compensação e equilíbrio. Lá se encontram não só as tradicionais becas esvoaçando nas modernas bicicletas, mas antagonismos de toda ordem - entre homens, classes, raças, gerações, doutrinas, credos etc. - são sabiamente equilibrados, harmonizados. As tradições e as individualidades são igualmente respeitadas; ao lado da submissão às convenções valoriza-se a espontaneidade criativa."

Finalmente, as obras, a casa e a família de Gilberto Freyre me sugerem um homem que foi excelente companhia.

Ele se interessava pelos mais variados assuntos; incluindo futebol (sobre qual aprendi que ele escreveu um artigo muito crítico do racismo no jogo), comida, e arte. A própria cadeira na qual ele escreveu sua obra sugere um homem informal.

Inteligente, moderno, aberto, humano. Gilberto Freyre foi um homem com quem gostaria muito de almoçar.

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