OPINIÃO
28/05/2015 16:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Futebol para todas?

Participando de uma audiência pública sobre futebol feminino, com os senadores Romário e Fátima Bezerra, entendi que, apesar de ter jogadoras brasileiras de excelência, ainda há um longo caminho a ser percorrido no Brasil para realizar o pleno potencial do futebol feminino.

Daniel Kopatsch via Getty Images
BADEN, SWITZERLAND - MAY 27: Melanie Leupolz of Germany (C) is challenged by Cinzia Zehnder of Switzerland (R) and Rachel Rinast of Switzerland during the women's international friendly match between Switzerland and Germany on May 27, 2015 in Baden, Switzerland. (Photo by Daniel Kopatsch/Bongarts/Getty Images)

Para marcar a nossa contribuição à Copa do Mundo no ano passado, a rede diplomática britânica organizou umas peladas entre a equipe. Quando cheguei para jogar no primeiro desses jogos, constatei, para a minha surpresa, que os times eram uma mistura de homens e mulheres. Depois de outras partidas, entendi que isso era bem natural, assim como era natural ver que, na torcida dos jogos da Copa nos bares e nos estádios, havia uma mistura quase igual entre os gêneros. Pensei então, "futebol no Brasil é para todos. E ainda bem que é".

No entanto, participando de uma audiência pública sobre futebol feminino, com os senadores Romário e Fátima Bezerra, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, entendi que, apesar de ter jogadoras brasileiras de excelência, ainda há um longo caminho a ser percorrido no Brasil para realizar o pleno potencial do futebol feminino.

O primeiro jogo de futebol feminino do mundo foi em Londres, em 1895, mesmo ano em que o Brasil realizou a sua primeira partida oficial de futebol da história. A partida, organizada por Nettie Honeyball, britânica fundadora da British Ladies FootballClub, deve ser observada no contexto da emancipação das mulheres, uma luta constante desde o final do século XIX e que teve resultado concreto em 1918, com a aprovação do Representation of the People Act, documento que estabeleceu o voto feminino no Reino Unido. Contudo, mesmo vivendo anos de grande sucesso nos anos 1920, o jogo do futebol feminino retrocedeu no meu país e os clubes não permitiram que times de mulheres jogassem nos seus estádios. Foi só com uma nova onda de emancipação, nos anos 1970, que isso mudou.

Hoje, o futebol feminino no Reino Unido está em boa saúde. Por quê? Primeiro por causa da organização. A CBF da Inglaterra, a FA, agarrou o jogo feminino em 1992 e o transformou. Se naquele ano havia 80 times femininos, hoje eles são mais de 5000, incluindo 7 times nacionais. Segundo por causa do apoio da torcida: 45 mil pessoas foram ver Inglaterra contra Alemanha; mais de um milhão de espectadores viram o final da nossa Taça (FA Cup) para mulheres. Terceiro porque atrás dos torcedores vêm os patrocinadores, que entendem o valor para suas marcas de apoiar um esporte tão prestigiado. Foi assim nos Jogos Paralimpicos de Londres em 2012, que mudaram de status e deixaram de ser relegados ao segundo plano, e como será, espero, em 2016. O último elemento é liderança. Não é por acaso que a nossa nova Ministra do Esporte é técnica de um time feminino de futebol.

Sobre a situação no Brasil, não posso comentar por falta de conhecimento. Mas, durante a nossa sessão, o senador Romário comentou ao vivo sobre a CBF! Todavia, constato com certa estranheza que, um país de excelência no futebol, governado por uma presidenta, com mulher chefiando a UPP que visitei no Morro do Alemão há uma semana, e com excelentes jogadoras nos Consulados e Embaixada Britânica, não tem liga profissional de futebol feminino.