OPINIÃO
22/04/2015 16:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Brasília. Funciona?

Não há nada pior do que uma boa ideia não aproveitada. Por muitos anos, até séculos, o Brasil teve a ideia de mudar a capital do Rio de Janeiro para o interior. Foi uma sugestão que existia antes da Independência, pelo menos na cabeça de uma figura transformadora de Portugal, o Marquês de Pombal. Naquela época, a motivação era a segurança, dada a percepção de uma ameaça à segurança do país pelos europeus, amplamente demonstrada pela ação holandesa no nordeste brasileiro no século 17.

Depois, a esperança de mudar a capital foi consagrada na Constituição. Mas nada aconteceu até a eleição de Juscelino Kubitscheck, em 1955. E ele, em apenas cinco anos, conseguiu mobilizar o País para fazer algo que não foi feito por décadas antes - criar um capital no interior do Brasil. 55 anos mais tarde podemos avaliar o resultado. Brasília funciona?

Eu diria que sim. Primeiro, porque a existência da cidade é prova da capacidade brasileira de concretizar coisas que ninguém imaginava que poderiam ter sido feitas. Às vezes, as coisas andam muito devagar neste país, mas quando o brasileiro decide o momento da ação, ele age! Nunca imaginei, por exemplo, que seria possível ampliar o aeroporto da Brasília antes da Copa do Mundo e, durante um fim de semana prolongado, foi feito. É importante mostrar a um povo meio cético a capacidade mobilizadora de um Governo Federal.

Segundo, porque a cidade é verde, cheia de árvores, pássaros, grama e parques. Tem lugares públicos de boa qualidade, por exemplo à beira do lago. Mesmo sem praia, Brasilia é excelente para o lazer. A natureza é abundante e bonita, e eu tenho o privilégio de ver isso diariamente.

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Terceiro, porque Brasília tem uma visão de futuro na sua arquitetura e seu planejamento, esse último a obra de um homem que estudou no Reino Unido, Lúcio Costa. Mesmo com todos os seus defeitos, há edifícios magníficos - não só os grandes, mas também os mais íntimos, como a Igrejinha Nossa Senhora da Fátima, uma pérola não só pelos azulejos mas também pela sua localização, ao redor de um espaço amplo e verde. Parafraseando uma frase, beleza gera beleza. Adoro que hoje vejo resquícios do trabalho de Athos Bulcão em novas partes do Aeroporto de Brasília.

Quarto, porque Brasília atraiu desenvolvimento para o interior do País, em parte por intenção, em parte por sorte com a chegada da indústria agroalimentar, um grande sucesso do Brasil nos últimos 40 anos e que eu acho que vai continuar ainda por muito mais décadas.

Há problemas, claro. Uma cidade feita para 500 mil pessoas abriga milhões agora sem os serviços necessários para apoiá-las. Também há sempre um risco ao se colocar todos os políticos num lugar só, longe de outros centros intelectuais, industriais e artísticos, criando um bulha sem autocíitica, um problema bem identificado pelo escritor Diego Francis - um problema que Brasília partilha com Bruxelas, outra bulha burocrática. Além disso, não houve um planejamento adequado para cidade do Rio depois da saída da capital, que só recuperou seu brilho anos mais tarde. E, por último, mas não menos importante, para minha grande tristeza ainda não há um bom restaurante indiano em Brasília.

Entre erros e acertos, defeitos e conquistas, Brasília é, acima de tudo, uma obra feita que transformou o País. E na minha opinião, para o melhor. Você concorda?