OPINIÃO
08/04/2015 14:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

A herança de Getúlio Vargas

As tendências descritas em sua carta de despedida existem no Brasil até hoje, mas espero que a conexão entre eles seja um pouco diferente daquela escrita pelo ex-presidente. Empresas estrangeiras (incluindo as do meu país) geram riqueza, oportunidade e emprego para milhares de brasileiros. Ainda assim, tenho que reconhecer a herança dele, seja na forma de Tiradentes, seja na CLT.

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Nenhum estrangeiro pode entender o Brasil sem entender o papel do Getúlio Vargas na construção do País.

Essa foi a minha conclusão depois de uma visita em família a Minas Gerais para conhecer Ouro Preto e Inhotim. Durante a viagem, passei algumas horas em um museu em Ouro Preto, aprendendo um pouco mais sobre a Inconfidência Mineira. Ao fim da visita entrei numa espécie de panteão para os líderes do movimento e o guia explicou que o local foi criado por Getúlio Vargas, nos anos 1940.

Percebi, então, que, mais uma vez, o nome de Getúlio aparecia no contexto da criação do Brasil moderno. Já tinha lido que, até um certo ponto, o conceito do Tiradentes como herói nacional foi uma invenção sua, mais de um século depois dos eventos da Inconfidência, assim como Dia do Fico, para fortalecer o conceito republicano e anticolonial do Brasil moderno. Não quero aqui dizer que isso seja exclusivo dos brasileiros. Há muitos exemplos da utilização do passado para fins políticos do presente, inclusive no meu país. Basta lembrar da reinvenção da Escócia no século 19 por Walter Scott, numa tentativa política (e romântica) de reconciliar o nacionalismo escocês com a existência do Reino Unido (incluindo a Escócia).

A obra do Getúlio Vargas é, claro, muito mais extensa que a valorização das ações do Tiradentes e outros. Algumas das empresas brasileiras que mais bem conheço, como Petrobras e Vale, são produtos de seus governos. Também aprendi que a CLT, que tenho conhecido cada vez mais agora que chefio uma organização com cerca de 250 empregados brasileiros, é produto dele. No entanto, tenho a impressão, às vezes, que a história do Brasil moderno começa em 1930 - vocês, os brasileiros, falam pouco sobre o período imperial e ainda menos sobre as primeiras décadas republicanas. Tudo começa com Getúlio.

Todavia, acredito que a história do Brasil não termina com Getúlio. Suponho que sua Carta de Despedida tenha sido um ato político feito para influenciar o cenário político depois do seu suicídio, uma tentativa para estender a sua influência no futuro. Há duas tendências que ficam bem evidentes no texto, que acabei de ler. Primeiro, a ênfase no desenvolvimento do País e do povo ("lutei contra a espoliação do povo"). Segundo, o nacionalismo. A conexão entre as duas linhas é explicita; segundo Getúlio Vargas são as empresas estrangeiras que estão espoliando o povo ("Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci").

Essas duas tendências existem no Brasil até hoje, mas espero que a conexão entre eles seja um pouco diferente daquela escrita pelo ex-presidente. Empresas estrangeiras (incluindo as do meu país) geram riqueza, oportunidade e emprego para milhares de brasileiros. Ainda assim, tenho que reconhecer a herança dele, seja na forma de Tiradentes, seja na CLT. Acho que preciso entender melhor Getúlio Vargas.