OPINIÃO
30/04/2015 16:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que está por trás da revolta dos taxistas europeus contra o Uber?

Em todos os mercados, quando os inovadores podem entrar com facilidade e não são bloqueados por regulamentações injustificadas, todos se beneficiam - no fim das contas, até mesmos aqueles cujas ocupações são alvo de disrupção. Pergunte a qualquer descendente de um artesão têxtil do século 19.

GERARD JULIEN via Getty Images
Taxi drivers carry a banner during a strike action in protest of unliscensed taxi-type-services in central Madrid on June 11, 2014. Taxi drivers in London, Paris, Madrid and other European capitals plan to bring chaos to the streets today in protest against unlicensed mobile car-hailing services such as Uber which have shaken up the industry. AFP PHOTO / GERARD JULIEN (Photo credit should read GERARD JULIEN/AFP/Getty Images)

O contraste entre a resistência da Europa ao Uber e a recepção calorosa do serviço de transporte de passageiros nos Estados Unidos destaca mais uma vez como as estruturas regulatórias europeias, em princípio desenhadas para proteger os consumidores, acabam protegendo fornecedores entrincheirados e sufocando a inovação. Esse contraste também pode nos indicar as maneiras pelas quais os governos europeus deveriam emendar suas regras, incentivando empreendedores a desenvolver modelos de negócios de ponta dentro de casa, em vez de serem forçados a aceitar inovações só depois que elas se tornaram melhores práticas no exterior.

Protestos de taxistas contra o Uber são parte de uma longa tradição de fornecedores estabelecidos reclamando de novas tecnologias que podem lhes custar empregos. Mas quando os luditas do começo do século 19 protestaram destruindo os recém-criados teares automatizados, por exemplo, as autoridades não intervieram para limitar as novas tecnologias. O resultado foi a Revolução Industrial, que acabou levando a um aumento de padrão de vida sem precedentes ao redor do mundo.

Mas, quando os supermercados começaram a entrar no setor de varejo na segunda metade do século 20, a abordagem dos governos europeus tinha mudado. Muitos países criaram regras no começo dos anos 1970 para proteger os pequenos lojistas da concorrência; como resultado, o desenvolvimento de um sistema de distribuição mais moderno foi atrasado. Uma geração depois, essas restrições foram levantadas, em resposta à pressão dos consumidores.

Mas, como mostra a resposta ao Uber, os governos europeus não aprenderam a lição - e a economia europeia paga o preço. O problema é que a entrada num mercado depende das oportunidades de lucros percebidas em novas iniciativas num determinado ponto do tempo. Regulamentações podem atrasar a entrada no mercado, mas a tecnologia não pode ser brecada para sempre; cedo ou tarde novos entrantes vão se estabelecer. Entretanto, seus modelos de negócio podem não mais ser lucrativos, ou então podem ser menos lucrativos do que se imaginava.

De fato, a vantagem de sair na frente dos concorrentes é comum a muitos setores, por causa das economias de escala ou porque ela garante uma base de clientes cativos. Especialmente em mercados de "plataforma", nos quais as empresas exploram o investimento rápido para garantir entrada em outros mercados, isso significa que atrasos causados por restrições regulatórias injustificadas podem ter um impacto negativo mais profundo, impedindo empresas potencialmente bem sucedidas de entrar no mercado.

Por exemplo, a Itália, que liberalizou seu setor de varejo só em 1998, tem muito menos cadeias de supermercados que a França, a Alemanha e o Reino Unido. As cadeias desses países, forjadas no fogo da competição doméstica, agora dominam os mercados emergentes na Europa e fora dela. Na Itália, as limitações impostas às grandes lojas criaram poder de mercado dentro de casa para os poucos que conseguiram crescer apesar dos pesares, mas essas empresas são fracas demais para competir no exterior.

Da mesma maneira, as restrições da Europa em relação aos serviços de carros impedem os empreendedores do continente de desenvolver serviços como o Uber. Como uma cadeia de supermercados, o Uber depende de economias de escala para que sua plataforma funcione de maneira eficiente. E, como qualquer outra plataforma, o Uber começou pequeno, cobrindo seus custos fixos com uma expansão gradual. Agora que atingiu a escala mínima para ser eficiente, novos entrantes não tem como usar a pressão competitiva para espremer as margens do Uber.

Quando o Uber começou em San Francisco, em 2009, sua entrada no mercado não foi contestada nem sujeita a um difícil processo de autorização. Portanto, o Uber pode testar seu novo modelos de negócios - na época baseado na oferta de transporte em carros de luxo - e crescer, primeiro em San Francisco e depois em outras cidades americanas, depois em outros países (assim como pode usar a plataforma para oferecer outros serviços).

Na Itália, por sua vez, até mesmo a oferta de transporte com carros de luxo por intermédio de um aplicativo de smartphone seria proibida. Pelas leis do país, serviços de carros são estritamente definidos como aqueles que começam da garagem onde está estacionado o automóvel. E os pedidos devem ser feitos com antecedência. Como o aplicativo do Uber é mais parecido com um serviço de táxi, ele teria sido considerado ilegal; o Uber jamais teria tido a oportunidade de começar a desenvolver sua plataforma.

Isso é verdade em vários outros países e setores europeus, onde a estrutura de regulamentação protege os fornecedores mais que os consumidores, criando obstáculos à inovação. Nos Estados Unidos, inovadores raramente são bloqueados. Quando isso acontece, as razões têm a ver com o interesse público. É por isso que o Uber (como tantas outras plataformas em outros setores) pode crescer e atingir uma escala ótima no país.

Se a Europa quiser prosperar, tem de facilitar a entrada de inovadores no mercado, para que plataformas se desenvolvam dentro do continente, em vez de virem de fora. Deveríamos valorizar a inovação trazida por novos entrantes mais do que valorizamos a proteção dos atores já presentes no mercado.

Isso se consegue com a adoção de uma regulamentação baseada em resultados, que proteja os consumidores, não os produtores. Em alguns casos isso significa simplesmente mudar a maneira como as regras atuais são interpretadas e aplicadas, mas em outros a própria regulamentação terá se ser adaptada.

Novos entrantes ainda poderiam mudar a estrutura competitiva de mercados de plataforma maduros - não só táxi, mas o turismo, o crédito ao consumidor e vários outros serviços. E, se uma regulação baseada em resultados for adotada, entrantes inovadores podem influenciar a estrutura competitiva de outros mercados de plataforma que se mantêm subdesenvolvidos, como saúde, imóveis e serviços profissionais.

Em todos os mercados, quando os inovadores podem entrar com facilidade e não são bloqueados por regulamentações injustificadas, todos se beneficiam - no fim das contas, até mesmos aqueles cujas ocupações são alvo de disrupção. Pergunte a qualquer descendente de um artesão têxtil do século 19.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.