OPINIÃO
01/09/2014 16:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Breve filosofia do sexo oral

Pietro/Flickr
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Por que isso é tão interessante e excitante? Poucos filósofos exploraram o assunto com o rigor necessário.

Tem a ver com solidão e aversão de si mesmo. Quando adentramos este mundo, se tivermos sorte, tudo sobre nós é aceitável e adorável, desde os dedos do pé até nossas têmporas. Deitamo-nos nus sobre a pele de nossos pais, eles podem ouvir nosso coração bater, podemos ver a alegria em seus olhos quando eles nos observam fazer nada mais elaborado que criar bolha de saliva ou chupar nossos dedos.

Então, gradualmente vem a queda. O seio é tirado. Crescemos com vergonha da nossa nudez. Áreas sempre em expansão do que nos cerca são proibidas de serem tocadas por outros. Não temos outra escolha a não ser manter, entre nós e os outros, uma distância mínima de 60 centímetros (ou melhor, 90 centímetros) todo o tempo, para deixar absolutamente claro que presença indesejável não tem intenção alguma de se intrometer no espaço pessoal de alguém. Nós crescemos resguardados. Nós chegamos à vida adulta, expulsos do paraíso, repulsivos a quase todo mundo com quem encontramos.

Mas, no fundo, nunca nos esquecemos das nossas necessidades inatas: ser aceitos como realmente somos, em todos os aspectos; ser amados apenas por existir.

Daí a importância do sexo oral. Soa nojento quando pensamos em fazê-lo com uma pessoa esporádica -- e este é o ponto. Nada é erótico se também não for, com a pessoa errada, revoltante. Mas com a pessoa certa, no exato momento em que o nojo poderia estar no auge, sentimos apenas aceitação, acolhimento e permissão. A natureza privilegiada do relacionamento é selada com um ato que, com outra pessoa, seria doentio.

É algo "rude" -- no melhor sentido. A vida normal continuamente exige que sejamos educados. Não podemos ganhar respeito ou afeição de alguém sem reprimir severamente tudo que é ostensivamente "ruim" dentro de nós: nossas secreções, nossa agressão, nossa leviandade, nossa fragilidade, nossa luxúria. Não podemos simultaneamente ser aceitos pela sociedade e revelar quem realmente somos. Daí o êxtase erótico (que é mais precisamente apenas um alívio emocional) quando o sexo oral permite nosso eu secreto, com todos os lados "maus" e sujos, ser visto e endossado de maneira efusiva por alguém de quem gostamos.

O laço de lealdade entre um casal fica mais forte conforme as coisas ficam mais explícitas. Quanto mais inaceitável nosso comportamento seria se apresentado ao mundo em geral, mais nos sentimos como que se estivéssemos construindo um refúgio de aceitação mútua.

O sexo nos libera por um tempo da torturante dicotomia entre o imundo e o puro. Literalmente nos purifica -- ao envolver os lados aparentemente mais sujos no seu jogo. De maneira ávida, podemos pressionar a boca (o aspecto mais público e respeitável de nossa face, a morada da linguagem e da articulação) nas partes mais contaminadas do outro -- o que simboliza uma aprovação psicológica completa, assim como um padre aceitaria um penitente culpado de muitas transgressões de volta ao seio da Igreja Católica com um suave beijo na cabeça.

O prazer do sexo oral é, desta forma, profundamente rico e significativo. Primeiramente, não diz respeito a uma sensação fisiológica agradável, mas a uma questão de aceitação. Diz respeito a um fim para a solidão.

Texto publicado originalmente no The Philosopher's Mail e republicado aqui com a autorização do autor, Alain de Botton. Visite www.theschooloflife.com.

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