OPINIÃO
30/06/2015 18:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Todo ser apaixonad@ é um tanto brega

Samuel Jackson/500px
Photo from a pre-wedding shoot on the Kent coast.

"Nem um dia é seguro sem notícias suas"

Sylvia Plath

Para celebrar essa onda maravilhosa de amor de arco-íris, que tomou conta do nosso Facebook na sexta-feira passada - tardiamente, pois, devo dizer, já tínhamos, muito antes dessa ferramentazinha, nossos corações multicoloridos de amor, paixão e igualdade, só mesmo escrevendo um texto que enalteça os seres apaixonados e sua característica mais humana e comum: a breguice. Pois a cafonice, meu irmão, é a âncora de todo e qualquer bom affair!

Um ser human@ apaixonad@ é urgente. Tudo em si expande, nada contrai, nada apequena. Quem ama transborda, inunda. Sobra. É tudo pra ontem. Porque quando se ama, o tempo parece menos cronológico, o mundo tem outra lógica. Segue um inédito modo de produção.

Um ser apaixonad@ é trágic@ em sua essência e cômic@ em suas vivências. É greg@... pequen@s Troian@s em guerra mundo afora. É um personagem colocado na rua, assim, meio mambembe, que tenta, desenfread@, entender o inexplicável. Hipersensorial, hipersensível, hipercarente. A pele exala um perfume estridente. Um algo de quem é só sentimento. Todo essência.

Quem ama pra valer é brega, piegas e cafona. E bate no peito com orgulho enquanto grita versos de pagode. O amor é Roberto Carlos. O amor é Fábio Jr. Um ser apaixonad@ é descabelad@, despadronizad@, mal diagramado. Compulsivamente insatisfeit@. Um total viciado, sempre em busca de mais e mais!

Não há Photoshop pro amor. Não venham com prefácio do amor, por favor... Quando as coisas vão mal, @ amador sai catando os cavacos, perdendo o controle, dando barraco e fazendo as pazes na cama. Aliás, quem dera toda história de amor fosse meio música suburbana, meio tomar umas geladas no bar sujão da esquina, dançar um forró, um arrocha e se embrenhar na alma e no corpo de quem gostamos. A completude, se é que ela existe, só pode morar no abraço d@ outr@. Naquela pele macia, naquele cheiro que é sinestesia de toque, de tato. Quem ama se ajoelha pra pedir perdão e, raras vezes, tem a faca e o queijo na mão. Porque o amor é Sertanejo clássico: "eu não vou negar que sou louc@ por você e tô maluc@ pra te ver...".

Quem ama vê o que não está. Acredita no que não vê. Porque o amor é o tipo de fé que todos podem ter. O amor é o Deus de todas as religiões, povos, épocas. Em nome dele matamos. Em seu favor, morremos. Há quem diga que ele é um mito... Eu não sei se acredito.

Quem ama é amador. Não tem profissionalismo no amor. Estamos sempre à deriva do acaso, das intempéries, dos hormônios e das vontades do outro. Quem ama é capaz de aceitar uma traição, nunca um descaso. Lida bem com gritos descontrolados de ódio, mas não perdoa o silêncio. Resigna-se diante de um "não te amo mais", respeita o "vamos dar um tempo!", mas não convive em paz NUNCA com um "talvez" ou um passa amanhã.

Quem ama dá incerta, chora, reza, come, emagrece, tem as maiores alegrias e as mais profundas tristezas. É tudo ao mesmo tempo agora. É o Vermelho e o negro e mais todas as outras cores do arco-íris e de fora dele. Quem ama é herói do século XIX sem ser anacrônico, porque amar é sempre atual.

Rasguei meu coração uma vez. Quando o vi dilacerado, chorei muitos dias. Quis morrer. Quis matar. Quis sumir. Quis esquecer. Quis voltar a ser. Sei lá, quis tantas coisas que já nem sei. Depois de tudo isso, guardei os pedaços sangrentos do meu coração numa caixa que escondi de mim por anos.

Encontrei a caixa no ano passado. Costurei o coração. Coloquei-o de volta no peito. Saí de casa para ver o que acontecia... E desde então ando sobressaltada, com uma saudade arretada, um nó na garganta, o pensamento longe.

Ando assim, ridícula, como há tempos desejava ser.