OPINIÃO
27/02/2015 18:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Sou mais um affair monocromático do que '50 tons de cinza'

Ai, Meu Deus! Eu assisti ao filme "50 Tons de Cinza". Desculpem-me se inicio o texto já de forma tão hiperbólica, mas é que só apelando para esse tipo de interjeição para demonstrar o que foi assisti-lo. Eu já tinha algumas ressalvas ao best-seller de Erika Leonard James, mas nunca imaginei que tanta bobagem junta poderia resultar em um grande sucesso!

Reprodução/Youtube.com

Ai, Meu Deus! Eu assisti ao filme "50 Tons de Cinza". Desculpem-me se inicio o texto já de forma tão hiperbólica, mas é que só apelando para esse tipo de interjeição para demonstrar o que foi assisti-lo. Eu já tinha algumas ressalvas ao best-seller de Erika Leonard James, mas nunca imaginei que tanta bobagem junta poderia resultar em um grande sucesso!

Como todo mundo, eu ouvi muita gente falar do livro antes do lançamento do filme. Algumas colegas de trabalho, dessas que não transam há décadas, andavam enlouquecidas com a trilogia, tomando inúmeros banhos frios ao longo de suas ávidas leituras para suportarem todo o frisson erótico contido em suas páginas. Um belo dia, até acabei folheando o exemplar de uma delas, ainda no trabalho, e pensei tratar-se de uma comédia, afinal, descrições como: "ele pegou em minha vergonha" não podem ser nada além de hilárias. Gente, "vergonha" é um sentimento abstrato. Não se pega em vergonha. Se pega em perseguida, xoxota, pitrica, bibica ou o nome clássico que não consigo pronunciar aqui dada a minha educação interiorana e católica. Depois desse primeiro contato, eu e Erika nos afastamos por tempos, apenas nos reencontrando nessa quarta-feira, quando, finalmente, decidi ter a minha própria opinião sobre o filme, já que nunca pude tecer comentários sobre o livro, pelo simples fato de não tê-lo lido.

O filme é a maior compilação de lugares-comuns non-sense, obviedades, preconceitos, crenças deturpadas (e um tanto perigosas) que já se teve notícia. Trata-se, de fato, do maior arcabouço de bobagens existente no mundo atual. Sério, nisso o trabalho de Erika merece nosso respeito, pois não deve mesmo ser fácil juntar tudo de bizarro e nada a ver que há e jogar numa mesma trama. O leitor não gostou da Saga Crepúsculo? Pois, após assistir aos "50 Tons de Cinza" estou apaixonada pela trilogia de Stephenie Meyer. Acredite, meu caro, Crepúsculo é ótimo.

Para quem desconhece o enredo, eu resumo aqui. Kate é uma estudante de literatura inglesa e, por uma manobra distraída do destino, acaba conhecendo Christian Grey, um poderoso e jovem empresário. Assim que se conhecem, quando ela vai entrevista-lo para um trabalho da Faculdade, rola uma química que fica suspensa no ar até a próxima cena, quando ele a encontra em seu trabalho (ela trabalha durante o dia numa loja de "bricolagem"). Depois disso, começa uma série de encontros rocambolescos nos quais ele a quer, mas não se acha merecedor, enquanto ela o quer e não compreende por que não podem estar juntos. Até que ele confessa ser um "dominador". Depois disso, o filme descamba pra um soft porn de péssimo gosto e a história não evolui. Ficamos parados aí nessa questão: eles não podem ficar juntos posto que ele curte algumas excentricidades na cama.

O "plot" desenvolvido por Erika não tem nada de inovador, como minhas amiguinhas do trabalho acreditavam. Kate é a mulher comum e simples, dona de um "não sei o quê" que encanta o príncipe, nesse caso, Christian Grey. Ela é doce, reservada, tímida e romântica. Ele é forte, impetuoso, rico e mandão. Ela não é sexy, não é, exatamente, bonita e nem gostosa. Ela não gosta de chamar a atenção e, após conhecê-lo, passa a viver sob a sombra dessa possibilidade amorosa, que se concretiza de forma um pouco não convencional. O tempo todo trata-se da lógica do homem forte e da mulher frágil. Ele já teve 15 "submissas", ela, por sua vez, preservou-se virgem até encontrá-lo, pois estava à espera de alguém especial. Ele quer trepar e ela quer ir de mãos dadas ao cinema, coisa que, apesar de ele não fazer com mais ninguém, decide conceder a ela, afinal, ele está extremamente encantado pelo fato de ela ainda ser virgem e aturar tudo para ficar ao seu lado.

Apesar de todo esse blá blá blá machista, tão velho conhecido nosso, o filme tenta se vender como inovador por seu erotismo e aí, devo dizer que nem sei o que é pior, pois as partes "calientes" da narrativa são absolutamente frígidas, além de totalmente inverossímeis. Christian possui em sua casa uma "sala de jogos" (é assim que eles a chamam - pasme!!!), onde os dois vão para transar e onde ele faz uso de seu domínio sobre Kate, chicoteando-a (de leve, é quase uma cócega) ou amarrando-a, dentre outras coisas. Aparentemente, Kate gosta das noites passadas na tal sala, mas "precisa de mais de um relacionamento". Como o ama, submete-se àquela situação para não perde-lo (olha a lavagem cerebral do patriarcado mais uma vez aí, gente!).

Entre contratos de silêncio e submissão, tentativas de sexo de perder o fôlego e todo o mimimi das comédias românticas mais óbvias que você já viu, "50 Tons de Cinza" vem reforçar o andro etnocentrismo de nossa sociedade, vendendo para nossas mulheres, mais uma vez, a receita da princesa: dedicada, apaixonada e submissa, mas com uma tentativa fajuta de revestir essa ideia antiga com trajes novos, como se fosse um filme (livro) de empoderamento da sexualidade feminina, quando, na realidade, não passa de mais uma narrativa de dominação.

Enfim, agora posso ter a minha opinião sobre a história e, o que posso dizer é que mais vale um affair casual e monocromático do que um romance com 50 tons de cinza. Aliás, até mesmo uma amizade colorida em tons-pastel me faria mais feliz do que a salinha de jogos do Mr. Grey! E, só para constar, se queremos entrar na obscuridade da sexualidade humana, bora dar uma olhada no Marques de Sade, minha gente!