OPINIÃO
07/01/2015 19:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Sobre a intolerância e a tragédia do Charlie Hebdo

Intolerância. Segundo o dicionário: "(...) ausência de tolerância ou falta de compreensão.

Comportamento - atitude odiosa e agressiva - de caráter político ou religioso, daqueles que possuem diferentes opiniões. Intransigência a diferentes opiniões". A definição parece comportar com perfeição os motivos que ocasionaram a tragédia do Charlie Hebdo, a revista semanal francesa, conhecida por seu humor ácido e crítico, atacada por terroristas nessa quarta-feira, 7 de janeiro, em represália à publicação de um cartoon que retratava a figura do profeta Maomé. Segundo o que foi amplamente noticiado, terroristas invadiram o prédio do veículo de comunicação armados e fizeram 12 vítimas. Tudo isso para "limpar o nome do profeta", como eles mesmos disseram, de acordo com algumas testemunhas.

A barbárie da situação, acredito, nem precise ser comentada. Obviamente, todo e qualquer atentado terrorista é desprezível e cruel, além de, para nós, ocidentais, incompreensível. Creio que seja isso, inclusive, essa falta de ferramentas para compreendermos as motivações desse tipo de crime que nos estarreçam ainda mais e nos deixem tão inseguros e temerosos.

Os mulçumanos, ao menos como são retratados por nossos veículos de comunicação, parecem rejeitar o mundo ocidental ampla e irrestritamente, enquanto o mundo ocidental também, aparentemente, não gosta e não legitima a forma de viver proposta pelas leis do Corão. Eu mesma, diante de notícias sobre como as mulheres são tratadas no mundo islâmico, já preguei ferrenhamente o fim dessa religião. Contudo, passado o "calor do momento" e, depois de refletir um pouco mais, sempre me pego pensando no quanto não nos compreendemos, ocidentais e islâmicos e, como nossos costumes ferem as noções de "bem viver" deles.

Pude presenciar muito dessa dificuldade de convivência no período em que morei na França, onde alguns mulçumanos destratavam e eram extremamente violentos com as mulheres ocidentais, que eles desrespeitavam o tempo todo. Uma vez, reagindo a uma grosseria, eu inclusive apanhei no metrô de um desses homens - dois tapas na cara. Um de ida e um de volta. Desci desacorçoada, indignada, chorando. Depois disso, adquiri um trauma de todo e qualquer homem falando árabe. Por um período. Afinal, tenho como hábito realizar um exame de consciência de tempos em tempos.

Mas, será que os mulçumanos são mesmo esses seres cruéis, que matam, batem e oprimem sem nenhum fundamento, como parece que a mídia internacional nos quer fazer crer? Ou será que são apenas seres humanos (ok, talvez um pouco mais intolerantes do que o convencional)? Porque se analisarmos bem, há uma máxima popular que diz que baseamos nossas atitudes e reações em nós mesmos, isto é, nos nossos valores, na nossa forma de pensar. Desse modo, um homem que cresce sendo ensinado que pode fazer o que quiser com mulheres acha normal bater em nelas quando elas o confrontam. Do mesmo modo, se cresço ouvindo que serei salvo e irei para o paraíso se mantiver sempre "limpo o nome" do profeta a todo custo, acharei louvável entrar num avião e matar milhares de pessoas num atentado como o 11 de setembro. Trata-se de uma questão de perspectiva.

Além disso, a humanidade vive uma lógica estranha e mesquinha de opressão, violência e imposição cruel daquilo que acreditamos ser o correto. Quer ver? Homens oprimem mulheres há muitos e muitos séculos reproduzindo uma lógica social que lhes foi passada como correta. Brancos oprimem negros desde os tempos da escravidão histórica, pois a escravidão ainda é um processo contemporâneo se analisarmos a situação do povo negro e suas "oportunidades" ao redor do mundo. O povo judeu, oprimido historicamente por muitos povos, oprime palestinos e apoiou o apartheid. Esses são apenas alguns exemplos, mas se extrapolarmos para a lógica de mercado, para a globalização, para a economia, teremos ainda mais casos para citar aqui na lógica insana da opressão de seres humanos por outros seres humanos, de modo que essa lista tornar-se-ia infinita.

É claro que nada disso justifica ou diminui o horror dos atentados terroristas e a importância de que, de algum modo, esse tipo de coisa não se reproduza. Apenas, acho que, talvez mais eficaz do que ficarmos reproduzindo o discurso óbvio de condenação ao islamismo (que, em geral, é o que sucede após um ataque terrorista), que façamos uma reflexão mais abrangente, que leve em conta a intolerância e a opressão, afinal, enquanto seguirmos esse caminho de enfrentamentos sangrentos em busca de retaliações e "correções", não chegaremos a lugar nenhum e mataremos muita gente inocente.

Diante de uma tragédia como essa, não gostaria de ouvir pronunciamentos de caça às bruxas e guerra ao terrorismo. Gostaria de escutar análises mais sensatas, que levem a ações efetivas que possam construir uma ponte e um diálogo entre ocidente e oriente, fazendo com que possamos nos aceitar e nos compreendermos. Para que abandonemos a necessidade de opressão, de transformar o outro em um reflexo de nós e aceitarmos, definitivamente, nossas diferenças. Que um cartunista possa tirar seu sarro em Maomé, mas que a menina islâmica que deseja usar sua burca para ir à escola na França possa fazê-lo também se esse for o seu desejo.

"You may say that I'm a dreamer, but I'm not the only one". Só mesmo John Lennon para fechar essa doída reflexão e esse latente e sincero desejo de paz.

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