OPINIÃO
26/09/2014 09:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Será que o amor romântico ainda conversa com a gente?

Para nós, sujeitos pós-modernos, o amor romântico é um sentimento dúbio, que nos acena ao longe, ora nos punindo, ora nos encantando, desde a infância.

Grant Faint via Getty Images

O amor romântico nasce na Idade Média, que, por sua vez, como bem fundamenta a filósofa Márcia Tiburi, inicia-se na Antiguidade. Ou seja, desde quase os primórdios das civilizações conhecidas, convivemos com o mito do amor romântico a nos cobrar sua realização.

Para nós, sujeitos pós-modernos, o amor romântico é um sentimento dúbio, que nos acena ao longe, ora nos punindo, ora nos encantando, desde a infância. Não são poucos seus instrumentos de repercussão: contos de fadas, desenhos da Disney, filmes Hollywoodianos e até mesmo instituições tradicionais como o casamento e nossa imagem de duo feliz, por exemplo, representada por nossos avós.

E apesar de as revoluções das décadas de 1960 e 1970 parecem ter instaurado uma certa quebra na credibilidade da alma gêmea, elas ainda se mantiveram um pouco intactas. Como diria Belchior na música "Como nossos pais": "apesar de termos feito tudo o que fizemos/ainda somos os mesmos/e vivemos como nossos pais". Toda a balbúrdia das pílulas anticoncepcionais atribuíram novas possibilidades aos casais da época e conferiram inegável liberdade às mulheres, porém, não representaram uma ruptura tão radical com as estruturas afetivas e amorosas vigentes. O casamento continuou a ser um "bem social" extremamente almejado e a mulher continuou a ser vista como um ser que, para sua plena realização, deveria contar, para a posterioridade, com a presença de um homem ao lado.

Não ouso dizer que hoje essas convenções tenham sido completamente quebradas, pois a sociedade ainda cobra de homens e mulheres a constituição dos laços familiares. Claro, a sociedade exige tudo isso, bem mais, das mulheres do que dos homens. Contudo, seja como for, a maior parte d@s seres human@s se sentem imbuíd@s do compromisso de encontrar aquele outr@ ser que @s completará e com @ qual estabelecerão laços afetivos indiluíveis. E foi exatamente o mal-estar dessa obrigatoriedade que levou Aina Cruz, Acauã Fonseca, Beatriz Scavazzini e Henrique Oda a investigarem as relações afetivas pós-modernas.

Em crise com suas próprias trajetórias amorosas, eles desejaram entender quais eram as verdadeiras possibilidades românticas do sujeito pós-moderno. Entre tantas "ficadas" que não evoluíam, no limbo de tatos telefonemas que não aconteciam, desejosos de tantas afirmações que não vinham e protagonistas de tantos romances que se esvaiam, eles decidiram debruçar-se sobre o assunto: o que é o amor romântico contemporâneo e quais são suas possibilidades?". Para isso, decidiram entrevistar pessoas de diferentes idades, convicções, estilos de vida, para assim, tentarem traçar o que seria o Zeitegeist do amor romântico pós-moderno brasileiro.

E o que encontraram foi extremamente espantoso. Pois, muito longe de um mundo vazio de romantismo, no qual as relações amorosas tornar-se-iam questões secundárias (legitimadas pelo individualismo e pela fluidez das relações atuais), eles se depararam com, simplesmente, toda a forma de amor. Do mais ortodoxo, ao mais depravado. Do romance mais água com açúcar, ao mais complicado. Do mais machista, ao mais feminista. Do mais cheio de amarras sociais, ao mais livre. E, por fim, do mais monogâmico, ao mais plural.

O projeto reflete as relações amorosas pós-modernas: sem roteiro pré-definido, sem script, reais, dicotômicas e complexas, como todo sentimento a flor da pele deve ser.

Contando com entrevistas de Xico Sá, Márcia Tiburi, Otto, Monja Coen, Tom Zé, Bárbara Eugênia, Peréio, Renata Bastos, Gustavo Gitti, Ulli Ferrari, Henrique Zanoni, Luiza Brasil, Alfredo Nora, Pedro Astrólogo, dentre vários outros, o projeto ainda conta com a interatividade do público, que pode se inscrever para dar seu depoimento amoroso na seção "conte sua história", presente no site Recalculando Rotas ajudando a construir essa colcha de retalhos que pretende refletir as relações afetivas nesses tempos, como diria Xico Sá, líquidos, de homens supostamente frouxos e mulheres pretensamente vacilantes, em que nos encontramos.

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