OPINIÃO
28/09/2015 00:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Relaxa: Este é só mais um capítulo da sua história

Quando ouvimos a voz do mundo, não há como viver sem paixão, sem risco, sem estar com o coração no lugar do cérebro. Rasgamos os mapas, tacamos fogo no GPS e saímos desrumados por aí.

Jupiterimages via Getty Images
Man holding compass and map

Quando eu era pequena, por volta dos meus oito anos de idade, antevia a minha vida assim: terminaria a escola, iria para São Paulo fazer a faculdade, moraria numa casa super legal com muitos amigos, conheceria um cara incrível que se tornaria meu namorado e, ao fim da faculdade, me casaria com ele.

Eu ganharia muito dinheiro como escritora. Passaria meus dias escrevendo e traduzindo na minha bela casa de praia em Ilha Bela, teríamos belos filhos e isso seria a minha, ou melhor, a nossa vida. E tudo isso já estaria acontecendo antes dos 25 anos.

Hoje, com 32, quase me culpo por tantos devaneios.

Está certo que uma pobre garotinha de oito anos não poderia prever a bolha imobiliária que caiu como um raio demolidor sobre a minha casa em Ilha Bela, mas veja que para alguém diagnosticado por adivinhos, cartomantes e astrólogos como médium, eu não devo ter utilizado muito bem a minha visão sobrenatural, afinal: rica + escritora + com 25 anos? What the fuck!

Hoje, com sete anos a mais do que a minha previsão, estou ainda descobrindo o meu caminho, as free as a bird, com crises diárias que me apontam não uma trilha, mas um cruzamento de rodovias, uma encruzilhada, um trevo mais caótico e complicado do que aquele que junta a Rubem Berta com a 23 de Maio, dando vazão à Avenida Ibirapuera e aquela outra avenida enorme, que não me lembro o nome agora.

Confusão, amigo, é assim que chama isso.

Nós, pessoas complexas de 30 e poucos anos (ou na trave dos 30), somos os novos 20.

Porque a categoria da gente complexa (leia em "A Teoria das Pessoas Complexas") nunca opta por profissões tradicionais, nunca escolhe o caminho fácil e óbvio.

Essas pessoas vasculham nas entrelinhas da existência onde se escondem os mistérios de si, onde há poesia nisso tudo, porque querem inovar, criar, construir para então desconstruir e depois, quem sabe, restaurar. Ser complexo dá trabalho, brou, cansa.

Eu e meus amigos andamos em busca de tantas coisas perdidas ou nunca encontradas...

Amores que não sabemos se existem, empregos que nos realizem, uma religião, uma abertura ao cosmos, um E.T whatever que queira transcender com a gente.

Andamos procurando onde beber sem gastar, um alimento para alma, um restaurante bacana, uma corrente de vida, as realizações, o tal do sucesso, um livro que nos fale ao coração, pessoas encantadoras, imagens para fotografarmos com nossas retinas, cores para serem sentidas, sons que possamos tocar, parques que embalem nossos sonhos, um colo quentinho para as horas que a vida apertar, porque frequentemente ela aperta.

Essa busca exaure. Buscar por alguém, por algo, por si mesmo.

Ficar nessa procura incessante daquilo que não sabemos o que é.

Acho tão bom quem busca enriquecer. Parece-me tão mais fácil enriquecer do que me encontrar ou sentir-me completa.

Quem busca enriquecer coloca isso numa planilha do Excel e, cálculo feito, veste a camisa e sai pra luta.

Pode até ser que o plano não funcione, mas era um plano. Um bom plano. Um plano de regras claras, um plano com foco.

Os planos das pessoas complexas são cômicos, porque mudam a cada meia hora.

São tantas ideias, o mundo fazendo charme e a esfregar nas nossas fuças todos os seus encantos, todas as suas oportunidades, seus lugares, suas pessoas, suas maneiras de viver.

O que o mundo diz quando você se dispõe a ouvi-lo é inenarrável. É lindo demais para se esquecer e continuar simplesmente.

Quando você ouve a voz do mundo, não há como não olhar para o lado, não há meios de viver sem paixão, sem risco, sem estar com o coração no lugar do cérebro.

Quando ouvimos o mundo, rasgamos os mapas, tacamos fogo no GPS e saímos desrumados por aí.

Afinal de contas, se tem algo que aprendi nesses 32 anos de complexidade, é que a grande graça da vida não está na chegada e sim no caminho.

Então, aproveite cada passo e, quando algo desastroso acontecer, lembre-se que esse é só mais um capítulo da sua narrativa. Ela continua.

E tem um monte de partes legais ainda por vir!

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