OPINIÃO
14/01/2015 16:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que você tem de ver e rever o filme 'Frances Ha'

O filme retrata com humor e delicadeza a frustração das expectativas. Trata da vida das pessoas comuns, dessa gente como a gente. Porque os filmes, os livros, os seriados sempre insistem em retratar as narrativas de extremo sucesso, a trajetória dos gênios e, no fim das contas, essas histórias só aumentam a nossa frustração diante de nossas possibilidades e de nossas vidas, pois o mundo é composto, de forma geral, por pessoas de QI normal, de habilidades medianas, de possibilidades suadas, de mais esforço do que de brilhantismo.

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Ontem revi o importantíssimo filme Frances Ha, dirigido por Noah Baumbach.

Acredito que todas as pessoas do mundo que trabalham ou, queiram trabalhar um dia, com cultura e arte, devam assisti-lo. Mas creio também que todas as pessoas que sonham, não importa exatamente com o quê, deveriam igualmente dedicar-lhe duas horinhas.Trata-se mesmo de um pré-requisito para a vida posterior. Trata-se de um "tapa na cara" que te diz: vai, segue, caminha. Trata-se da coragem de ser o que se é, sem prender-se aquilo que se gostaria ou se julgaria merecedor de ser. E mais, trata-se da ousadia rara, grandiosa e bela, de se passar pelos percalços sem perder a esperança e nem mesmo o bom humor.

O filme se inicia com a vida conjunta e feliz da Frances e sua amiga, Sophie, que dividem um apartamento em Nova Iorque. Ambas possuem 27 anos, recém-formadas, cheias de sonhos. Há ali um encontro de almas. As duas se amam, não desse amor carnal e passível intempéries, mas de um amor fraternal, doce e infinito. Desse tipo de amor constante e inegável, que, na maior parte das vezes, apenas a amizade pode nos prover.

As duas vivem na mais santa paz e alegria, quando Sophie anuncia a sua saída do apartamento que as abriga. É que Sophie era bem-sucedida, enquanto Frances comia a erva daninha da existência. Sophie, empregada em uma grande editora, já participando do mercado e de suas voluptuosidades, enquanto Frances, dançarina e artista, procura um lugar para se inserir na sociedade. Nesse descompasso inicial, uma das cenas mais lindas e poéticas é a narrativa de Sophie para Frances sobre seus futuros. Sophie descreve a trajetória edificante e bem-sucedida de ambas, porém, suas palavras não condizem com a realidade. Sophie deixa o apartamento, enfim, para morar no bairro que sempre sonhou com uma amiga, que até então, era motivo de chacota entre as duas; e Frances, acaba indo morar com dois amigos apresentados por Sophie.

A história se desenrola como um reflexo despretensioso da vida como ela é, que acaba sendo quase inútil transportá-las para o papel: Sophie começa a namorar e se casa com alguém por quem não está apaixonada, Frances não é tão genial e talentosa quanto previa e recebe muitos nãos da companhia em que dança, não assumindo nunca o cargo de bailarina titular com o qual tanto sonhara e as amigas, bem como todas as pessoas queridas, vão ficando cada vez mais distantes e inacessíveis. Os encontros entre Sophie e Frances, assim como entre outros amigos, tornam-se cada vez mais raros, da mesma forma como, menos intensos. Porque em Nova Iorque, em São Paulo, no Rio, em Paris e até em Tóquio, enfim, em qualquer localidade da Terra, o cotidiano e a luta pela sobrevivência e pela sanidade nos engole de uma forma tão voraz, que desatentos, podemos acabar totalmente tomados por questões que não seriam, de fato, as nossas questões primordiais, não fariam parte da nossa missão no mundo e não nos levariam a nada muito além de um bom salário, ou uma realização social, mas que acabam por nos dominar os dias e as noites.

Frances tenta de tudo para se tornar a bailarina das narrativas de Sophie. É pró-ativa, é dedicada e apaixonada. Frances tenta de tudo para poder realizar o sonho de ter seu cantinho: morar sozinha e decorar o seu apartamento de maneira que se sinta em casa. Ela tenta de tudo para manter Sophie próxima. Ela tenta de tudo para não ser vítima dessa vida que nos amarra e engasta. Ela tenta de tudo para ter um companheiro ou para fazer parte da modernidade líquida ou para ser acessível. Frances, enfim, tenta de tudo para tudo, mas nada consegue e isso, exatamente, todos esses tantos fracassos a aproxima de nós. Nós, dessa geração Y ou pós-Y, que queremos e podemos tanto tudo realizarmos e, embora tudo isso, ainda, consigamos sempre, tão menos.

O filme retrata com humor e delicadeza a frustração das expectativas. Trata da vida das pessoas comuns, dessa gente como a gente. Porque os filmes, os livros, os seriados sempre insistem em retratar as narrativas de extremo sucesso, a trajetória dos gênios e, no fim das contas, essas histórias só aumentam a nossa frustração diante de nossas possibilidades e de nossas vidas, pois o mundo é composto, de forma geral, por pessoas de QI normal, de habilidades medianas, de possibilidades suadas, de mais esforço do que de brilhantismo. Os heróis, os enormes, enfim, os gênios são uma imensa minoria e a narrativa de nossas vidas é, se analisarmos friamente, muito mais composta de tombos doídos e de insucessos, do que de grandes vitórias vangloriadas publicamente.

A maior parte das pessoas passa anos trabalhando para viabilizar um grande projeto. Às vezes, precisamos adaptar nossos sonhos e negociar com a vida para nos encontrarmos e sermos felizes. Às vezes sonhamos e damos um duro danado para sermos diretores de cinema, mas acabamos sendo reconhecidos como bons roteiristas. E isso não é menos, não é triste e nem degradante. Não é um fracasso, é só uma adaptação. De toda forma, se está trabalhando com cinema, se está fazendo arte e se está contando uma bela história. Frances sabe disso e, cansada de dar murros em ponta de faca, segue a carreira de coreógrafa, tarefa para a qual ela tinha muita vocação e capacidade, e tem sucesso, embora, durante anos, tenha lutado em vão e sem o mínimo reconhecimento para ser bailarina.

Além da realidade tão bem retratada no âmbito profissional, tem também o retrato sincero das relações humanas também de gente de verdade. A começar pela amizade de Sophie e Frances. Tudo ia bem, tudo era junção, tudo era duas, até que há a separação. Sophie, aparentemente, estava precisando de espaço para si, espaço este, que talvez, sentisse ser subtraído na presença da amiga. Por isso, Sophie se afasta, provavelmente para ter a liberdade de conhecer novas pessoas, de levar uma vida mais convencional e de poder estar com o cara de quem gosta, embora ele não tenha nada a ver com ela, sem ter de aturar os julgamentos involuntários daquela que a conhece melhor do que qualquer pessoa do mundo. Sophie não quer simplesmente mudar de bairro, quer mudar de vida e leva tempo para perceber que Frances, a amiga querida, cabe também nesse novo contexto.

Frances sem Sophie, fica órfã. Fica triste e um tanto solitária. Como não consegue se aproximar mais da amiga e ao ver que o seu lugar na vida de Sophie não é mais o mesmo e que sua importância também apequenou-se consideravelmente, a protagonista decide afastar-se e fica com raiva da amiga. Depois passa. Obviamente ficará tudo bem, elas se amam, tem uma história, são amigas. Mas tem o tempo da dor. E ser afastado e arrancado da vida de alguém que gostamos tanto é sempre, mesmo, muito doloroso. Saudade de amigo é das piores coisas que se pode sentir na vida...

E para Frances ainda resta um último aspecto: ela está circundada de pessoas que começam a construir uma vida afetiva mais consolidada, com perspectivas de casamento, filhos e enfim, toda uma formalidade afetiva que, aparentemente, ela ainda não está preparada para ter, mas que ao mesmo tempo, intimamente, deseja, se não por nada, apenas pelo fato de que está ficando cada dia mais sozinha. E até a solidão é real aqui, porque estar só não se constitui uma tragédia. Não, de forma alguma. Em muitos momentos é consolador, é libertador, é bom. Em outros, é pura melancolia. É aquele sentir não sei o quê que pede uma música triste, uma taça de vinho e uma saudade profunda de outros tempos, de épocas em que éramos coletivos de gente dando risada por aí.

Frances Ha...

Assisti ao filme e do meio para o fim, chorei ininterruptamente. Lindo de rasgar o peito. Belo de explodir o coração. Pura compreensão da realidade. Não, o filme não é triste, é a realidade nua e crua da vida. É luta. É suor. É melancolia. É alegria. É amor. É amizade. É incompreensão e incompletude. Enfim, é a vida e a vida, já sabemos, nos atende escassamente.

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