OPINIÃO
22/08/2014 11:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Por que você gosta del@?

O desastre da hollywoodização do amor é que ela te atrapalha em tudo, do começo ao fim, em toda e qualquer narrativa amorosa real.

Tom and Steve via Getty Images

O romantismo, ainda lá no século 19, já começou a acabar com as nossas possibilidades amorosas, nos vendendo não homens, mas heróis ou príncipes, e não mulheres, mas princesas ou algo que as valha. Depois daí, toda a idealização amorosa que se sucedeu foi mera continuidade: Hollywood com suas histórias açucaradas, nas quais o amor tudo podia e tudo vencia e, antes ainda, na tenra infância, a maldita Disney, com a qual aprendemos que homens passam seu tempo conquistando a moça mais desejada da trupe, enquanto mulheres sonham em ser donas de casa e esperam o toque masculino para tornarem-se, finalmente, alguém.

O grande problema da idealização amorosa é que ela não acaba por prejudicar apenas o enlace duradouro, a relação estável, isto é, o "tipo casamento" das pessoas em geral. O desastre da hollywoodização do amor é que ela te atrapalha em tudo, do começo ao fim, em toda e qualquer narrativa amorosa real.

Se você é uma mente afeita às comédias românticas, conhecer alguém já se torna difícil, afinal de contas, isso não pode acontecer de uma maneira normal e cotidiana. Tem de haver o acaso, o imprevisto, a improvisação, o desinteresse ou o que quer que seja que não seja igual a tudo na vida. Enfim, todo começo tem de ter um mote e você, muitas vezes, perde a linha de largada do que poderia ser a história da sua vida, pois está ocupadíssim@ pensando: quais seriam as palavras-chave para a definição desse capítulo no qual estamos nos conhecendo? Daí, quando vê, a linha de chegada está bem próxima e a tartaruga já até ultrapassou a lebre que estava dormindo e a corrida, meu amigo, já era.

Porém, dentre todos os capítulos da longa narrativa de "não dois, não um", matemática que vem a ser igual a um casal, nada desperta maior pânico, vazio e crise nos neorromânticos do que a dúvida, que mais cedo ou mais tarde, pulula acrobática, qual a ideia fixa de Brás Cubas, em nossos trapézios mentais: "por que que eu gosto del@?", que também vem, tantas vezes, a ser: "por que estou com el@?".

Para nós, Victor Hugoanos de plantão, não pode ser direito amar alguém que não pareça um ser superior, com qualidades notáveis e incontestáveis, que nos arranquem mil suspiros por segundo. Para nós, disney's lovers é, simplesmente, inaceitável associarmos nossas vidas a seres opacos e comuns, iguais a tantos outros seres existentes nesse mundo, donos de trejeitos engraçados e risíveis que, sem mais nem menos, nos fazem muito bem, obrigada e despertam em nós um profundo afetado e cuidado. Para nós, hollywoodynéfilos, não dá para amar sem transas homéricas, sem frases de efeito, sem cenas de ciúme hilárias e leves, com doçuras, sorrisos e lágrimas que sempre, mas sempre mesmo, terminem num generoso, sincero e indubitável: "eu te amo". Relações sem altos e baixos, sem hormônios femininos, sem solidão, sem frustração, sem diferenças que geram dúvidas e dúvidas que geram crises.

Enquadrados nessa lógica do amor meritocrático e, vamos dizer mais uma vez, apenas para mostrarmos a que viemos, idealizado, não conseguimos nos entregar livres de amarras e paranoias ao que sentimos, ao que, normalmente, vivemos, porque tememos o tempo todo, estarmos perdendo a passagem do príncipe montado no cavalo branco ou da donzela em perigo que precisa do nosso socorro. Dessa forma, nunca estamos de fato onde estamos, pois passamos nossos dias na expectativa de que algo grande, fantástico e maravilhoso nos prove que aquele ser, diante de nós, merece ser o nosso escolhido, pois preenche a todos os infindáveis pré-requisitos que forjamos com esmero e paciência, durante anos, nesse mundo distante que é a nossa cabecinha. Nos culpamos pelo fato de ele não representar sequer 50% de tudo o que sonhávamos e penamos muito sem enxergar que, na realidade, se ele é uma decepção para nós, também somos uma enorme decepção para ele.

A verdade é que o romantismo, a Disney e Hollywood estão aí para dar asas aos nossos desejos e à nossa imaginação. São exatamente como filmes pornôs, histórias fantásticas e shows de ilusionismo: nos divertem, nos animam, nos instigam. Mas, deixada a sala de cinema, tendo levantado do sofá ou terminada a leitura é hora de retornar ao mundo real, de pessoas de verdade: pequenas em tantas coisas, enormes em muitas outras.

Nunca haverá um modelo de pessoa "gostável", como nunca existirá um script para se relacionar amorosamente. Isso cabe a cada qual com o seu cada quem. A beleza do mundo está nos olhos de quem vê, bem como, a graça do seu par está no que te vai ao peito, fato este que jamais será traduzível em palavras, afinal, tantas e tantas vezes nessa vida o miocárdio e o cérebro não se conversam. Contudo, pode apostar, é nesse campo movediço, instável e, aparentemente, perigoso, dos romances pé no chão, que mora toda a graça, pois o coração constrói seu próprio mundo e nele só entra quem, por mistérios imprevisíveis à nossa vã filosofia, lhe parecem demasiadamente importantes.

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