OPINIÃO
08/09/2014 08:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

O Casamento é Como uma Fusão de Empresas

Se quisermos ter relações profundas e duradouras é valioso que se abandone, desde já, a ideia de amor como uma pedra lapidada que se encontra por aí, assim na sorte, solta em plena natureza.

Manuel Orero Galan via Getty Images

Desde de pequenos, provavelmente por uma construção social, idealizamos o momento em que estaremos em uma relação cem por cento feliz e estável. Todos os romances que vivemos, ao longo dos anos, para nós, funcionam como que uma preparação para esse grande encontro com nossa cara-metade. Acreditamos, assim, que esse ser irá nos restituir a harmonia que, até então, não possuíamos e que, finalmente o encontrando, poderemos desfrutar. Daí, entenderemos que todas as peripécias, os desencontros, as desafortunadas noites de solidão e de espera pelas quais passamos, fizeram parte desse não-lugar pelo qual tínhamos que vagar temporariamente se quiséssemos conhecer a cereja de nosso bolo. Aquel@ com @ qual nos casaríamos (não no sentido de festa, religiosidade, mas na ideia de divisão de um espaço comum e de nossas vidas).

O problema dessa noção de completude, estabilidade e paz de espírito está no fato de que: completude, estabilidade e paz de espírito são coisas que, em relacionamentos, simplesmente, não são perenes.

Amar, como já diria Santo Agostinho, é mudar a alma de casa. E toda e qualquer mudança, meu amigo, exige sacrifício, resiliência e muita batalha. Com nossos amores, não poderia ser diferente. Ou seja, se quisermos ter relações profundas e duradouras é valioso que se abandone, desde já, a ideia de amor como uma pedra lapidada que se encontra por aí, assim na sorte, solta em plena natureza.

Não, não. Amar requer força de vontade e adaptação. E, antes de tudo, é preciso ter em mente que não há nada mais complexo que viver junto e que o casamento é instabilidade camuflada em pele de cordeiro.

O marketing do amor romântico nos vende a crença de que, quando encontrarmos aquela pessoa especial, que desvirtua nossa trajetória e nos embute no espírito o desejo de permanência, iremos, simplesmente, nos aninhar com ela e viveremos felizes para sempre. Sem rusgas, discussões, paranoias, discordâncias, vazios, tédios e outros tantos sentimentos humanos - nossos velhos conhecidos de bunda bem grande e pesada, que vivem a aconchegar-se conosco no sofá, na cama, na mesa e no banho. Deve ser por isso, inclusive, que tanto as histórias da Disney, passando pelos seriados, quanto as comédias românticas, terminam quando o casal, finalmente, se acerta e decide ficar junto. Aliás, nem clássicos como "Romeu & Julieta" quiseram passar pelo entediado cotidiano nupcial. Essa falta de representação do amor em seu aspecto cotidiano, nem preciso dizer, nos deixa ainda mais vítimas desse mito do amor feliz e regular alcançado pelo simples brilho rotineiro presente nos olhos de noss@s amad@s.

Porém, o fato ordinário e magicamente real é que não existe nada mais instável do que um relacionamento facebookianamente "sério".

Quando colocamos nossa alma para coabitar com outra, notamos que o casamento (novamente como noção de partilha do cotidiano) é como uma fusão de empresas: são culturas, modos operandi, processos, expectativas e realidades diferentes convivendo, dia após dia, lado a lado. E isso, se até agora não ficou claro, não é nada fácil. Não tem nada de simples em conviver. Não é intuitivo. Não é fluido por si só. Se relacionar diariamente é desvio de fluxo, construção ousada de ponte Rio-Niterói, artesanato delicado de cerâmica, tessitura paciente de um tear de essências. Lúdico como montar um quebra-cabeças. Desafiador como aprender a surfar. Lindo como um desabrochar de primavera e, tantas outras vezes, cansativo e repetitivo qual uma novela.

Viver sob o mesmo teto te mostra, diariamente, as limitações do outro. E te coloca, também, bem a par das suas próprias dificuldades, insanidades, chatices e apequenamentos. Um amigo, que nunca dividiu o espaço com outrem, por esses tempos me perguntou: "Mas se é assim tão complicado, será que não é porque não é pra ser? Não é a pessoa certa? Não seria melhor dizer, 'bom, foda-se, acabou?'"

Não sabe de nada, inocente. Claro que não. Pois a beleza de se juntar duas vidas está exatamente nas superações que isso impõe. O mais bonito é ver dois seres tão distintos, remando com energia sobre humana, para vencer as intempéries desse curso chamado vida e superando cada cara feia, cada discussão, todos os obstáculos, para no final do dia, deitarem-se juntos se amando pelo fato reles e mortal de se saberem humanos, tão comuns e, ao mesmo tempo, tão únicos e necessários.

A grande beleza, por vezes, grotesca do amor é saber que ele revela tudo de nós: o que temos de pior e o que trazemos de melhor. E sentir na pele a capacidade de gostar sem ter porquê. Notar, depois de cada "quebra-pau", que nos reinventamos, nos lapidamos, nos acolhemos. E saber que somos essenciais nas nossas imperfeições, nos tornando ainda maiores por tudo o que trazemos de mínimo.

O amor cotidiano é escolha e construção. O resto é tudo ficção. Neoromantismo vão, idealização torpe, linha inexistente que liga o nada com o lugar nenhum.

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