OPINIÃO
10/06/2015 17:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

No Dia dos Namorados, sejamos um pouco hippies

Sejamos hippies de espírito para vivermos livre de amarras, mordaças, sistemas, regras e compartimentos. Que deixemos os rótulos de lado e que façamos dos nossos sentimentos comunidades autossustentáveis.

biphop/Flickr
Paris 4eRue St Merri

Na semana dos apaixonados, uma reflexão que cabe nas entrelinhas do coração tanto para quem já encontrou sua âme souer, sua cara metade, quanto para aqueles que ainda a procuram.

Ok, desiludidos de plantão, a cara metade não existe. Até concordo. Com certeza há bem mais que uma pessoa que possa nos fazer feliz. No entanto, é semana do dia dos namorados, "love is in the air", a imagem de uma alma vagando dividida em dois corpos que precisam se encontrar para restituírem a paz a essa alma cansada é linda, portanto, cantemos o amor.

Vivemos tempos de gente sem coragem. Gente frouxa e traumatizada, assustada com os nãos naturais da vida. Como eu também já estive assim, lembrei-me ainda ontem do meu estado de espírito na época do Dia dos Namorados do ano retrasado, 2013, quando eu nem imaginava que dali a 6 meses eu encontraria, por uma coincidência do destino, um cara incrível que me faria sonhar com casamento, filhos e toda essa mítica familiar. Em julho de 2013, eu estava amargurada e para comemorar o dia dos enamorados, comprei um imã de geladeira que dizia: "Era uma vez o amor, aí eu matei e pronto". Estava com o coração machucado, companheir@s, não condenemos o que vai à alma de uma pessoa ferida. Mas, bem como paixões passam, desilusões também. E hoje, não quero falar de quando o amor acaba, sabemos que frequentemente isso acontece. Hoje quero falar de quando ele começa.

O amor acontece geralmente a noite, em comemorações, porém também marca presença a tarde nos parques floridos de sonhos. Aparece em praias ensolaradas de projeções, brindes de casamentos, festas de aniversário. Mas também se impõe na firma, em velórios, cartórios, delegacias. Ele te cruza na rua, em becos escuros, em lugares escusos. Caprichoso que só ele, iguala humanos e Deuses.

O amor gosta da sexta-feira, mas prefere o sábado. Sábado com festa, então, é conjunção astrológica perigosa. Mesmo quando pensamos que nada pode haver, sempre há um bom motivo para se apaixonar, afinal, é sábado. Se Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, que era domingo, certamente ele foi beber uns tragos na noite de sábado com seus amigos iluminados. Foi uma viagem: houve tanta conversa, muita reflexão, incontáveis danças, tanto sentimento, que mesmo sem divulgar, coube a esse dia a responsabilidade de ser o dia do pecado. E o pecado, bem sabemos, é a porta do paraíso. Espero não escandalizar os leitores mais religiosos. Se ajuda, apenas tenho a acrescentar em minha defesa que sou muito devota. E que quem tem fé sabe que Deus é só perdão, então pequemos, senhores. E pequemos amando, que aí sim, fica mais bonito e santo ainda.

Heresias à parte, tenho visto cada vez menos o amor acontecer. Ele ainda aparece por aí, mas parece ter se transformado em um sentimento desacreditado, envergonhado, quase marginal. O amor e sua amiga paixão, andam encurvados pela rua. Andam tímidos e sem graça. Vagam por aí quase a pedir perdão aos passantes. O amor anda pálido e cinza. É tratado com desdém. O amor, amig@s, anda sofrendo bullying.

Agora, que vida esperamos ter quando colocamos medos em primeiro lugar e amor em segundo plano? Tristes, chatos e estranhos tempos em que sentir virou sinônimo de vergonha. Encontrar alguém que comunica uma tristeza, um luto, uma dor de cotovelo, um coração partido, está cada dia mais raro. Se excluirmos o exibicionismo dos diagnósticos psicológicos, acho que quase nada sobra. Bizarros tempos em que nos orgulhamos de ter crise do pânico ou depressão e nos envergonhamos até a morte de estarmos apaixonados.

Por onde anda essa brava gente brasileira, esses descendentes de índios fortes e robustos, que sentem, que se doam, que vivem como sem amanhã?

Cada vez mais raro a paixão avassaladora, o grudar e não largar, o querer ver, desejar estar e permanecer, precisar tocar e doer desgrudar. O interesse pelo outro. Os olhos brilhantes. O desejo inflamável pelo outro: por sua vida, seus defeitos, suas qualidades, sua história. Cada dia mais demodê fazer planos. Planejar, aliás, virou coisa de gente careta, boba, que não quer ter uma vida própria, promissora e divertida.

Será mesmo que as pessoas não se inundam mais umas das outras verdadeiramente ou isso tudo é apenas a casca encalacrada das baratas sentimentais que estamos nos tornando? Porque, obviamente, não vamos nos apaixonar por todos aqueles que cruzarem o nosso caminho, mas será que quando aparecer aquele certo alguém, depois de acumularmos tanta poeira em nossas carapaças, vamos conseguir quebrar essas barreiras para entregar nossos corações ainda vermelhos, pulsantes e ensanguentados de vida?

Porque é tanto espelho, tanto compromisso, tanto sacrifício, tanta exigência, tanto tanto ego, tanto medo, tanta fila, tanta burocracia, superficialidade, egoísmo, falta de espontaneidade, que não nos sobra espaço para ser ou sentir.

O mundo das redes sociais transformou nossa existência em um grande espetáculo de autodefesa e autopreservação. Exibimos compulsivamente uma autossuficiência sórdida e uma eterna alegria absolutamente irreal. Tristes tempos em que não se pode ser inteiro.

Na semana do Dia dos Namorados, clamo pela revolução! Deixemos as algemas dos cinquenta tons de cinza no criado-mudo e lancemo-nos ao Marquês de Sade, pois só se pode amar sendo bastante hardcore.

Faço votos para que haja um retrocesso em nossos corações e que, uma vez bem vivida a realidade e toda a sua modernidade, que voltemos, nem que apenas por uma semana, aos anos 70 e que nos tornemos, todos, um pouco mais hippies de alma. Não precisa andar maltrapilho, não precisa fumar maconha e nem vender artesanato, aliás, não precisa usar nenhum tipo de aditivo se não quiser. Sejamos hippies de espírito para vivermos livre de amarras, mordaças, sistemas, regras e compartimentos. Que deixemos os rótulos de lado e que façamos dos nossos sentimentos comunidades autossustentáveis.

Façamos como Pangloss e Cândido, esses pré-hippies franceses do século XVIII, e cultivemos nosso jardim ao lado de quem nos acelera o miocárdio.

É tudo o que desejo a quem encontrou e a quem procura um grande amor.

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