OPINIÃO
29/08/2014 20:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Gostamos de sexo igual a todo mundo

Em pleno século XXI ainda temos grande parcela da população que pensa que as relações sexuais entre homens e mulheres dão-se exatamente desse modo: o homem come e a mulher fornece.

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Agora que moro em Salvador, Bahia, São Paulo sempre me parece uma boa pedida. E, outro dia, lá estava quando fui bebericar uma água que passarinho não toma com alguns amigos. Na mesa, os assuntos de sempre: trabalho, romances, expectativas sobre a vida, o país e o mundo, polêmicas em torno de tabus como a monogamia e a legalização das drogas e, claro, como não poderia deixar de ser: sogros e sogras.

Uma amiga contou que seu sogro tinha a mania, talvez um tanto comum, de querer sempre e incansavelmente, pintar o filho como um grande garanhão. Aparentemente, ele sempre perguntou ao infante, quando o jovem estava flertando uma moça: "e aí, comeu?". O mais engraçado foi ouvir a história da boca dessa amiga em específico sendo considerada como uma menina que deveria ocupar o papel subalterno e plácido da "comida", aquela que cede à pressão sexual, embora, por sua própria vontade, manter-se-ia casta e intocada. Demos gargalhada imaginando-nos contando ao pai do moço que fora, provavelmente, a própria S. que seduzira seu filho e que, se havia algum macho alfa nessa história, ele estava agora de vestido de bolinha e botas vermelhas bem na nossa frente. Até pensamos em seu discurso de feliz dia dos pais contando ao sogrão os detalhes sórdidos das cenas de amor que antecederam à comemoração e que impediram os pombinhos de chegarem ao local marcado no horário.

Chistes a parte, as risadas dessa noite, causaram-me sérias indignações no dia seguinte, pois, em pleno século XXI ainda temos grande parcela da população que pensa que as relações sexuais entre homens e mulheres dão-se exatamente desse modo: o homem come e a mulher fornece. A meu ver, trata-se de uma concepção pra lá de equivocada, pois considera que apenas o sexo masculino possui "apetite sexual", cabendo ao sexo feminino, apenas, consentir, timidamente, esse estase. Fiquei pensando o quanto essa representação equivocada do ato sexual não seria um reforço ao machismo. Afinal, é muito mais fácil justificar casos de estupro quando pensamos em uma mulher que desconhece o tesão e um homem que incendeia-se sem a menor possibilidade de ser correspondido.

Há muito tempo considero a relação que temos com a sexualidade feminina bizarra. Quando crianças, somos ensinadas a não desejar, a não seduzir e a servir. Aprendemos que a mulher deve ser decente, maternal e livre de ímpetos sexuais. Devemos esperar que nossos homens nos procurem, nunca o contrário. E assim, seguimos, pensando não poder propor e matando em nós toda e qualquer espontaneidade, para, assim, definitivamente, nos tornarmos objetos sexuais. Somos os vibradores masculinos: quando eles querem, nos pegam. Não temos "sim", menos ainda, temos "não", afinal, vibrador não tem opinião e nem sentimento. Trata-se de uma coisificação tão impressionante que, muitas vezes, passa-se pelo constrangimento de ter de explicar ao seu "ficante" que você não quer dormir com ele e, pior, vivenciar o fato de ele não entender a situação e ainda forçar a barra, apenas, porque ele quer.

Nesse sentido, talvez todas as ofensas que nós, mulheres, temos que ouvir aí, pelas ruas, todos os dias, não passem de uma resposta ao nosso suposto não-desejo sexual e à consequente necessidade dos homens de nos convencer a transar. E, pensando nisso, acredito ser importante, mais uma vez, dizer com todas as letras: gente, gostamos de sexo tanto quanto todo o resto do mundo!

Pra quem não sabe, vou dizer: temos sonhos eróticos, queremos transas mirabolantes, admiramos belos abdomens, gostamos que nossos companheiros fiquem atraentes, que nos cantem, que encenem o belo e nunca ultrapassado jogo da sedução conosco. Não somos maternais, descobrimos a maternidade, como os homens descobrem a paternidade. Não somos decentes, porque somos humanas. Somos fantasiosas, táteis, livres como os homens, afinal, a diferença entre os gêneros é uma mera convenção. Ninguém nasce homem ou mulher, nós nos construímos, ao longo da vida, qualquer uma dessas ou de outras coisas.

Enfim, como me disse uma ex-chefe certa feita e eu, obviamente, quase desmaiei de amor pela quebra de paradigma: "pra pegar na minha mão só depois de muito sexo!". Então, sociedade de maneira geral, pára de ser um sogrão mala, como o de S., e entoe o hino mais lindo e democrático do amor: "façamos, vamos amar!". Para finalizar, relembro o grande Rubens Alves, que, certa vez, disse-me: "ora, o homem come a mulher?... Não consigo entender!". E, como se eu respondesse apenas com um semblante confuso, ele completou, sorrindo: "acho estranho demais, pois nunca vi uma banana comer uma boca. Mas vejo sempre o contrário". Daí, mais uma vez concluímos, tratava-se de um grande homem.

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