OPINIÃO
21/07/2014 14:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

E quem há de negar que essa lhe é superior?

Há um encantamento incessante e uma compreensão inesgotável, afinal, os amigos são a família escolhida. É aquele tipo de gente que parece ter "pintado" no mundo com o simples propósito de te fazer feliz.

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NIÑO Y PERRO (GOLDEN RETRIEVER) JUGANDO JUNTOS EN LA PLAYA.

"Jurei pro amor um dia te encontrar"

Otto, música Filha

Passamos tanto tempo a discutir o amor. Passamos um pouco menos de tempo a falar sobre a paixão, posto que a julgamos passageira, ardilosa e um tanto quanto doentia e superficial. Agora, diga-me, por que passamos tão pouco tempo a refletir e por que perdemos tão pouca saliva a apregoar a amizade?

Nesse Dia do Amigo, sozinha no interior da Bahia, afundo-me nos mares sem fim dos meus pensamentos e dedico meu fim de tarde a pensar sobre esse tão nobre sentimento.

A amizade é o amor sem fronteiras e elevado à décima potência. Um amante, amamos pelo que admiramos, pelas sensações que ele nos provoca. Fazemos testes de beijos e abraços. Há a eliminatória da pele e da química. Nos fazemos verdadeiros promotores de justiça dos argumentos sociais, morais, políticos e viscerais de quem amamos sexualmente. Contudo, somos complacentes sempre e tanto com nossos amigos. O amor fraternal não requer afinidade, admiração, química, pele, desejo, planos de vida semelhantes. O amor fraternal sequer exige presença, pois pode-se construí-lo todo e inteiro sobre a ausência ou sobre a presença rala ou até mesmo, quem sabe, um tanto enfadonha.

"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida...mas é delicioso que eu saiba e sinta que eu os adoro, embora não declare e os procure sempre..."

Ai ai, Vinicius de Moraes, como eu te entendo.

Domingo, 20 de julho de 2014. Sozinha no interior da Bahia, por conta de um freela que consegui após a minha destemida e impulsiva mudança para o Nordeste (depois de ter passado 11 anos na adorada cidade Cinza - São Paulo), me deito na cama do singelo hotel em que me encontro e começo a pensar em meus amigos. Um filme se passa em minha cabeça. Tantas conversas, tantas teorias de mesa de bar. Tantas, mas, tantas risadas. E muitos, mas muitos choros, ombros e "tapas na cara" e "puxões de orelha". Em meio à melancolia lânguida e sem limites do domingo, entre um mugido e um cacarejar, recebo uma mensagem de feliz Dia dos Amigos. Depois, uma outra amiga especialíssima, que habita em terras, hoje, muito distantes, aparece no What's App para me consolar da minha infinita tristeza e isolamento. Essas duas pessoas têm para mim um valor inestimável. Fizeram parte da minha vida num acordo tácito entre a mão direita e a esquerda, porque vivíamos sempre juntas e em harmonia. Mas aí, veio a vida e nos impôs uma rotina. E dentro dela só podíamos nos encontrar uma, duas, quando muito, três vezes ao ano. E nem por isso, esses dois seres humanos deixaram de representar tudo o que eram e ainda são em minha vida.

Acredito que conhecer um amigo exerce em nós, mais ou menos, o mesmo efeito que conhecer um amante. Quando encontramos alguém que sem nem mais e nem por quê amamos indiscriminadamente, projetamos tudo de nós e acolhemos tudo o que é dele. Há um encantamento incessante e uma compreensão inesgotável, afinal, os amigos são a família escolhida. É aquele tipo de gente que parece ter "pintado" no mundo com o simples propósito de te fazer feliz.

Tenho amigos de todos os tipos, de todas as tribos, de todas as origens. Amigos de infância, confesso, são raros. Mas tenho amigos de adolescência que quando penso em cada um e lembro de todas a linhas da vida que já traçamos juntos, me emociono. Não teria como, nem em mil anos, fazer jus ao que essas pessoas fizeram, ao longo de todo esse tempo, por mim. Tenho amigos de terras estrangeiras. Tenho amigos do trabalho e de ex-trabalhos. Tenho amigos herdados de ex-relacionamentos ou de outros amigos. Tenho até amigo emprestado.

O que sinto, a cada vez que estou com eles, é algo pra além do mágico. Essas pessoas, cada uma delas a seu modo, parecem criar no mundo, a cada vez que as encontro, um portal secreto, tipo à la "Crônicas Nárnia", que me teletransportam para outras dimensões e realidades. Vejo mais cores, sinto mais sons. Meu tato toca o que antes e sem eles não havia e tudo se passa como uma grande e infindável festa. É sempre virada. É sempre de virada. É sempre o que há. A Terra se torna uma casa quentinha, um ambiente quase infantil e lúdico, sempre aberto a tudo o que é possibilidade.

Em meio a amigos não há depressão. Não há solidão, não há fel e nem inferno. Só há céu, ou, quando está tudo mesmo ferrado, quando se é triste de não ter jeito, há, ao menos, esperança. Há saída, há porta lateral, entrada dos fundos, elevador social. Há segurança. Há altura suficiente para lançar-se de paraquedas ou asa-delta. Há solução e conforto.

Um bom amigo vale mais que um amor, vale mais que um emprego ou um analista. Um amigo é ouro de mina que vamos deglutindo ao longo da vida.

Tenho uma grande amiga que diz que um conhecido te ajuda com o sofá, mas um amigo, te ajuda a esconder o corpo. Não tenho dúvidas e assino embaixo. Mentiria, roubaria, mataria, enfim, faria o que Deus e o diabo duvidam em nome dos meus amigos. Sem pestanejar.

Ergamos as taças nesse Dia do Amigo que finda e brindemos a todos eles. Esses que são, não somente as muletas da nossa existência, mas também o amuleto de nossa sobrevivência e sanidade!

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