OPINIÃO
15/10/2014 19:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Da ressaca pós primeiro turno

Acredito que demorarei muitos dias mais para digerir os resultados das eleições. E, mais ainda, com certeza, hei de levar uma vida para compreender o porquê de tanta intolerância com o nosso próximo, que é idêntico a gente.

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Dia 05 de Outubro, fomos todos os brasileiros às urnas (pelo menos em teoria), manifestar nossas ideologias, convicções e desejos políticos. As expectativas, na grande festa da democracia, sempre são muito altas. Todos aqueles que se envolvem nesse processo, independentemente de seu lado e viés, o fazem de forma apaixonada e por acreditarem que seus candidatos representam aquilo que melhor conduzirá o país, afinal, trata-se da escolha por representação. Nesse sentido, o bordão "me representa" ou "não me representa" tão difundido no ano passado durantes as manifestações, traduz sem nenhum "mimimi" o que fazemos, de tempos em tempos, nas zonas eleitorais.

Como defensora voraz da democracia, não posso dizer que a realidade nua e crua, e, para mim, de difícil digestão, concretizada ao final da contagem dos votos, seja absurda ou equivocada, pois, como já disse, ela representa a vontade da maioria. Só o que posso dizer, é que lamentei, sofri e me entristeci profundamente com os resultados com os quais nos deparamos. Na segunda-feira, ainda zonza e desorientada, a sensação física que carreguei era de uma ressaca homérica. Dessas que você tem poucas vezes na vida e que, no dia seguinte, com dor de cabeça e enjoo, concluí que "enfiou o pé na jaca" e promete, silenciosamente, que jamais repetirá essa ocorrência.

Morando em Salvador, Bahia, mas com um coração apegado ao meu estado de origem, São Paulo, não me conformava com os resultados. Afinal, não é simples digerir ter como os três deputados mais votados, respectivamente, Celso Russomano, Tiririca e Marco Feliciano. Olhem, inclusive, diante de Russomano e Feliciano, Tiririca está apoiado e liberado de quase toda e qualquer reclamação.

Russomano e Feliciano encarnam o pior tipo de político que existe: demagogo, representa aquela classe política que vale-se do "título" para praticar inúmeras ilegalidades, usar o dinheiro público em benefício próprio e ainda vota contra leis como "ficha limpa" dentre outras que tentam manter a classe política menos enlameada do que anda.

Além disso, eles também representam o pior tipo de gente que existe: reacionária, preconceituosa, que nutre um ódio às diferenças, às minorias e aos mais vulneráveis socialmente. Poxa, para não me decepcionar com essa votação, só mesmo se eu não tivesse coração, né?

Mas a verdade é que, esse quadro em São Paulo, foi apenas uma das manifestações (tivemos coisas muito similares acontecendo no Rio de Janeiro, considerando a discrepância entre os números de votos conferidos a Jean Willis e Bolsonaro) de um estranho retrocesso e expressão de um latente conservadorismo de nossa sociedade, que, certamente, não estávamos preparados para enfrentar.

Conversando com alguns amigos de SP que também moram aqui em Salvador, chegamos à conclusão que, talvez, tenhamos sido vítimas de uma atitude que tanto criticamos ao longo dessas eleições: acreditar que a nossa time line e o nosso círculo de amigos sejam capazes de refletir a realidade de um país de dimensões continentais, como o Brasil.

De todo modo, acho válido e muito importante que, a partir desses resultados, façamos uma profunda reflexão. Afinal, apesar de defender o processo democrático e a liberdade de expressão, acredito mesmo que existem convicções que, em pleno século XXI, não possam mais ser defendidas e, sequer, manifestadas impunemente.

Explico: defender a segregação, políticas de não inclusão e argumentos de normatização de gêneros, por exemplo, é algo que deveria começar a ser criminalizado, como é o racismo. Um senhor, como Feliciano, que propõe a "cura gay" não pode ser digno de representar ninguém. Não se trata de, simplesmente, ter uma opinião e proferi-la. Trata-se de algo que fere os direitos humanos, que ultrapassa os limites do que é aceitável e que ofende não apenas a comunidade LGBT, mas todos os seus familiares, amigos e seres humanos minimamente críticos e livres.

Eleger Feliciano entre os três deputados mais votados de São Paulo é declarar que a nossa sociedade acredita que o ser humano não é livre para escolher os seus caminhos e que, além de não ter poder de escolha diante de sua sexualidade, ele ainda merece ser corrigido, ensinado, curado, para enquadrar-se nos padrões que alguém algum dia, lá atrás, determinou, porém, que não faz nenhum sentido para uma parcela enorme da população. É alimentar o sofrimento de muita gente.

A maior tristeza em tudo isso é perceber que continuamos sendo tão pequenos a ponto de não vivermos as nossas vidas e nos mobilizarmos tão profundamente para barrar a liberdade e a felicidade do outro. O imponderável é achar que cabe a alguém determinar com quem podemos nos relacionar, como vamos nos definir, enfim, como vamos viver. E, notar, que essa bobagem conta mais do que uma conduta humana correta, leal, sincera e íntegra.

O pânico inexplicável e ignorante diante da "desnormatização" dos gêneros e da sexualidade de maneira geral, é a sobreposição do preconceito ao amor. E, como já disse em inúmeras outras oportunidades, se há amor, há tudo. Não é necessário mais nada. E o que torna essa opressão ainda mais incompreensível é que ela venha por parte daqueles que batem no peito e se dizem cristãos. Ora, não leram os ensinamentos deixados por Cristo? Pois sua palavra de ordem era o Amor. Um Amor global, que faz o bem, que aceita, que incluí, que perdoa, que estende a mão. Não há punições nas palavras de Jesus, não há condenação. Nem todo mundo acredita nisso, mas quem se diz cristão, deveria seguir as palavras de seu messias.

São essas políticas de opressão que não nos deixam caminhar, como nação, rumo a uma sociedade mais civilizada e evoluída. Por que tantas guerras? Combater o diferente, o não-normativo, o dependente químico, a mulher que carrega em seu ventre um filho que não pode ter... Para quê? E se, simplesmente, nos uníssemos para compreender que somos humanos, com tantas possibilidades e variações que não carecem ser consertadas, mas apenas aceitas. Afinal, desde que o mundo é mundo o Homem ama em diferentes instâncias e de forma plural, utiliza substâncias que o tirem da dura e limitada realidade e vivencia situações que fogem ao seu controle, mas das quais, não quer se tornar um eterno refém (e nem fazer do outro, um prisioneiro de algo infeliz).

Acredito que demorarei muitos dias mais para digerir os resultados das eleições. E, mais ainda, com certeza, hei de levar uma vida para compreender o porquê de tanta intolerância com o nosso próximo, que é idêntico a gente.

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