OPINIÃO
25/06/2014 15:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

As relações burocráticas

Sempre houve gente chata e estranha, mas como o mundo também entrou nessa onda, até quem não pertencia ao grupo, debandou.

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totally desperate businessman...

Manuel Bandeira estava farto. Não suportava mais o lirismo comedido, o lirismo funcionário público. Nós, aqui do século XXI, também estamos fartos. Fartos das relações burocráticas.

Explico: o mundo anda chato e as pessoas andam estranhas. Sempre houve gente chata e estranha, mas como o mundo também entrou nessa onda, até quem não pertencia ao grupo, debandou.

Hoje em dia, há regra para tudo. Tem fila pra tudo. Ordem, sistema, requerimento, petição, inscrição, fila de novo, sac, documentação, protocolo, número de protocolo, fila, haja fila, haja tempo, haja paciência, haja capacidade e falta de pressa de viver.

Eu, que pertenço à raça da gente não burocrata, assisto a tudo isso bestificada. Tenho frequentemente o mesmo espanto de Brás Cubas ao olhar do cume de uma montanha a história da humanidade. Fico assim, meio Camus, meio ilógica, não existencialista, mas absurda.

Porém, se fosse só o cotidiano a nos exigir paciência e a minar nossa espontaneidade, ainda vá lá. Tudo bem, a vida não é para amadores mesmo. Se fosse apenas o trabalho, o emprego, o estudo, o banco, o prédio em que moramos, o restaurante em que comemos, o cinema que frequentamos, a nos tolher a liberdade, ainda sobraria algum espaço para chamar de nosso. O que me assusta é que nem em lugares espontâneos por definição, temos encontrado a liberdade.

As pessoas acostumaram-se tanto às regras que não sabem fazer mais nada sem elas. Jantar fora? Tem que ter reserva. Ir ao cinema? Tem que decidir antes e comprar na internet. Viagem? Tem que ser programada com meses de antecedência para encontrar hotel e passagem. Se relacionar? Nossa! Como se relacionar ficou difícil.

Acabaram com a paixão. Minaram sua existência da maneira mais sem coração que pode haver! Ninguém mais está apaixonado nesse mundo. "Estamos nos conhecendo". A moça passa todos os dias pensando no infeliz, mas diz a ele que não sabe o que sente, que está legal assim, quer ir com calma, quer conhecer aos poucos. O cara só quer falar dela, não fala porque tem vergonha, então pensa, devaneia e não consegue esconder o prazer que sente ao encontrá-la. Mas não pode sair dois dias seguidos, não pode apresentá-la aos amigos rapidamente, deve deixar claro que não está pensando em se comprometer e que é meio traumatizado.

Onde estão as pessoas com pressa de viver? Onde se escondeu essa tribo de índios fortes e robustos que não se quebram facilmente? As varas verdes da existência, que envergam muitas vezes sem nunca ceder?

Essa gente burocrata está tirando a nossa capacidade de sentir. Uma relação arrebatada nem é mais vista como loucura, o que seria bastante poético. O arrebatamento, o descontrole, a espontaneidade são sentimentos mal vistos, dignos de pena. Dizer que gosta muito de alguém demonstra carência e em um mundo onde todos estão sempre felizes e frenéticos, querer a companhia do outro, confunde-se com precisar dependentemente de alguém, quando, na realidade, uma coisa não tem absolutamente a ver com a outra.

As pessoas não burocráticas, esse grupo esquisito de gente que sente, que se precisa, simplesmente porque se gosta e que fala de seus sentimentos; essa gente tem pressa de viver e prefere deixar inflamar a durar. Por que viver pelas bordas, curtir pela metade, controlar-se para não ser visceral? Para que se guardar? Vamos usar e usar muito.

O coração foi feito pra bater, pra pulsar. Ficar se economizando da vida não pode fazer nenhum sentido. Eu, quando começo uma história, sugiro um namoro de um final de semana para testar a possibilidade de dar certo. Se for incrível, pronto, já é, já está sendo. Se for chato, tiramos isso da frente, viramos amigos e já resolvemos a expectativa frustrada. Veja que não se trata de romantismo, ao contrário, é só que não dá pra achar que a mesma blindagem de patrimônio, a mesma segurança contra fraudes orçamentárias, poderá ser aplicada no que lhe vai ao peito e à cabeça.

O amor, os sentimentos, enfim, a vida de verdade não aceita recolhimento, não aceita resguardo, não aceita auto-preservação. A vida é luta e quem está na guerra tem que partir para o confronto. Existir é corpo a corpo. É estrada aberta sem sinalização e sem mapa: não sabemos o que vamos encontrar, nem onde e nem como. E nisso está toda a graça.

Se você está se tornando um burocrata, pare e pense. Não se trata da questão dos amores líquidos, das relações efêmeras, do tempo do ficar em que nada fica. Já entendemos que os tempos e os ritmos são outros. Que seja líquido, que seja efêmero, mas que seja algo. E que esse algo seja uma história com momentos de pura poesia. Real, sincero, pleno de sentimentos profundos e livres. Narrativas sentidas em suas alegrias e em suas dores.

Que seja, no mínimo, inteiro. E se possível, ainda, que seja doce.

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