OPINIÃO
27/09/2014 09:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A liberdade não é uma questão de gênero

AP

Na manhã do dia 23, exatamente como metade do país e talvez do mundo, assisti ao discurso de Emma Watson, embaixadora da ONU, em favor do feminismo.

Muito gratificante ver uma garota tão jovem com ideias tão esclarecidas a respeito do tema. Vê-la falando da antipopularidade do termo, das questões pessoais que a tocaram, ainda na adolescência, e do seu desejo para que homens e mulheres possam se unir em favor da liberdade, realmente nos conforta e, claro, confere a um movimento que nasce pela busca por igualdade entre os gêneros, uma nova força. Afinal, quem sabe, com uma atriz globalmente reconhecida não conseguimos alguns avanços efetivos.

O feminismo no Brasil e no mundo é atribuído, de maneira baixa e geral, a uma legião de mulheres feias e mal-amadas, que, por serem tão negligenciadas, começaram a pensar que as coisas deveriam ser diferentes. Mas, o feminismo, "na real", não é nada disso. Feminismo é, antes de mais nada, um sentimento visceral, que pulsa em nossas veias de maneira pragmática, desconsiderando toda e qualquer maldade imposta pelo sistema.

Quando eu era adolescente, não me dizia feminista, me dizia libertária e não compreendia que as duas coisas eram, em sua essência, a mesma. Foi apenas no início da vida adulta, após enfrentar situações muito desconfortáveis, sentindo o medo e toda a fragilidade de ser mulher, que revi meus conceitos e passei a me intitular feminista.

Foi quando comecei a andar sozinha de ônibus por São Paulo e ser abordada a cada quarteirão por filas de homens que me xingavam e faziam menção a meus atributos físicos. Quando, na França, apanhei de um grupo de meninos no metrô, por não deixar que um deles apertasse minhas coxas. Foi quando, um dia, em que eu estava dentro de meu carro, um homem me abordou pedindo uma informação e, quando eu abri o vidro, notei que ele começou a bater uma punheta. Foi quando comecei a trabalhar e meus chefes começaram a olhar para as minhas pernas e me vi obrigada a ir para o escritório, todos os dias, independentemente do calor que fazia lá fora, de calça jeans. Foi quando comecei a pedir aos meus amigos gays para que andassem de mãos dadas comigo em festas em lugares públicos. Foi quando comecei a abaixar a cabeça a cada vez que um homem me dirigia a palavra na rua, com gracejos e elogios que eu não tinha, em nenhum momento, dado a eles liberdade de tecer. Foi quando, enfim, perdi minha liberdade e passei a ter uma vida cerceada pelo medo constante de ser violentada e punida pelo simples fato de ter nascido mulher.

A supremacia do sexo masculino, em nossa sociedade se afirma em quase todas as instituições. Nos contos de fadas, nos filmes hollywoodianos, nos casamentos e em quase todo o resto. Os homens são criados para conquistarem o mundo. As mulheres são educadas para conquistarem um homem. E esse simples fato, já determina quase todo o resto.

Homens são incentivados a conhecerem muitas fêmeas, a conquistarem, desbravarem, não se limitarem a nada. Homens precisam ter sucesso profissional, namorarem muitas, fazerem valer suas opiniões. Precisam ser respeitados e se impor. Devem defender sua liberdade e, merecem sempre ser vangloriados quando se tornam bons maridos e bons pais.

Mulheres são criadas para encontrarem sua alma gêmea e seguirem fiéis a ela até que a morte os separe. Pouco importa se esses machos cumprem com suas expectativas, elas devem ser gratas ao fato de ter encontrado alguém que quis casar-se com elas. Elas são feitas para se aninhar, para construir um lar. São estimuladas sempre a ceder e, por favor, que sejam cordatas, afinal, nada mais pentelho do que uma mulher que deseja opinar e/ou impor-se. Devem ser caseiras... a liberdade é coisa de "aventureira", que fica sozinha, não casa e é, sempre tão malvista pela sociedade. E, para uma mulher, ser boa esposa e boa mãe não passa de uma obrigação. Trata-se de algo inato. Ai dela se não for nada disso... concluir-se-á que trata-se de uma aberração.

Em outras palavras, a educação comum já nos coloca em papéis completamente desiguais. E aí, seguimos reproduzindo esses padrões vida a fora. No entanto, sinto que as mulheres estão, cada dia mais, saturadas desse modelo intimidador. Estamos mais fortes e mais críticas. E não aceitamos mais essas imposições sociais que empoderam o sexismo e enfraquecem nossa classe, pois, notamos, diariamente, que essas são apenas convenções sociais e não questões científicas.

Daí, toda a beleza de ver uma jovem inglesa ao convocar homens e mulheres para lutar em prol do feminismo, afinal, a igualdade não é uma questão de gênero. Trata-se, simplesmente, de uma questão de bom-senso. E, como esse sentimento independente de genitália, acreditamos que todos possam contribuir, já que não deve ser tão complexo entender que somos todos seres humanos: vezes pequenos, vezes grandes, mas, sobretudo, iguais, independentemente de nossos órgãos sexuais, nossas preferências amorosas e nossa massa muscular. Somos todos iguais, sejamos: eles, elas ou tantas outras lindas possibilidades criadas por alguém, em algum lugar, para viverem livres e felizes com passos leves e suaves sobre esse mundo.

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