OPINIÃO
21/07/2015 19:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A falta de essência das coisas

Sem nos darmos conta, vamos alimentando um consumismo sórdido de ideologias e práticas completamente descaracterizadas e distanciadas de seus preceitos iniciais.

A cada dia tenho ficado mais estupefata com o mundo. Como se não bastasse a dureza da própria vida e da realidade que já nos oprime, esmagando nossos devaneios e exigindo de nós pés fincados à terra, quando na verdade todos desejamos voar por aí, ainda temos que aguentar o sistema capitalista se apossando de toda e qualquer ideologia ou atividade, para transformá-la em produto vendável, que movimenta multidões de consumidores que nem por um instante se questionam sobre o por que aquilo lhes parece tão necessário e legal.

Diante desse efeito manada, decidi escrever esse texto enumerando as três coisas que eu não aguento mais ouvir falar e que não me enganam - são só um produto, modismo barato mesmo:

1. A Acroyoga.

(AFP via Getty Images)

Trata-se, basicamente, de uma arte circense que só pode ser praticada em dupla. Por essa característica, virou um hit entre os chiques e famosos e promete entregar aos casais a estabilidade que antes, entre eles, não existia, afinal, essa atividade exige que os dois integrantes estejam completamente focados nos movimentos do outro, de modo que os apaixonados passam a se ver melhor depois desse exercícios.

Mas por que uma arte circense foi denominada de acroYOGA? Porque yoga está na moda. Não aquela yoga que pretende uma mudança de mentalidade e estilo de vida. Aquela, complexa, que possui toda uma cultura milenar por detrás. Que exige pratica frequente, meditação e alterações na alimentação. Mas esta yoga power, que se faz em academias de ginástica para ficar bem sarad@ pro verão!

A acroyoga não nos engana porque nenhum casal deve depender de uma atividade física para ser feliz. Há casais sedentários que curtem bons filmes juntos. E casais esportistas que suam lado a lado nos parques e piscinas. Todos merecem a felicidade e a dica para superar crises, aprofundarem a relação, apararem as arestas é: conversem. Falem de si, do outros, das qualidades e dos defeitos. Divulguem um ao outro seus sentimentos. E empenhem-se em fazer um clima romântico vez por outra.

2. Livros de colorir para adultos.

(HITSNOOZE/FLICKR)

Os livros de colorir sempre existiram, nunca ficaram em falta nas bancas. Trata-se daquele objeto tão presente em nossa infância, quando nossos pais nos levavam naquele restaurante tranquilo, que não tinha parquinho e precisávamos nos virar com algo divertido e silencioso. Com o passar dos anos, a maior parte das pessoas para de desenhar, pintar e colorir, atividades que, com certeza, promovem o bem-estar, o relaxamento e a descontração. Até aí, tudo certo. O problema é a proporção que os livros de colorir de adultos tomou. Ontem mesmo, vi o anúncio de um curso em São Paulo, que tinha como objetivo ensinar as pessoas a colorirem seus livros de forma uniforme, escolhendo os tons corretos. A oficina tinha duração de uma tarde e cobrava R$ 230 por participante!!!

Fico me perguntando quem são as pessoas que pagaram por esse curso. Tenho vontade de entrar em contato com elas e entender suas motivações, afinal, não consigo depreender a importância de se colorir uniformemente o seu "jardim".

Obviamente, não sou ninguém para julgar, mas também me questiono se, no caso de essa pessoa gostar tanto assim de pintar, não seria mais interessante que ela pagasse esses 230 reais a um professor de pintura, que a ensinaria bem mais do que o manuseio do lápis de cor?

3. Sou vegetariano. Mas como peixe.

(ALAMY)

Vem comigo: ser vegetariano significa em sua origem e essência não comer carne de bicho. Peixe tem carne e é bicho. Logo, quem come peixe não pode se autodenominar vegetariano. Simples assim.

A onda de falsos vegetarianos é uma das maiores bizarrices da atualidade. O cara fala que não come carne e, cinco minutos depois, no self-service, você vê um filé de frango no prato dele. Quando o indaga sobre o fato, ele te responde dizendo: "ah, mas é frango, né? Eu não como carne vermelha".

Acho que com muito esforço estamos chegando numa era de maior evolução e estamos começando a identificar que tão errado quanto prender passarinho em gaiolas ou comercializar animais silvestres, é comer carne de bicho. E isso é ótimo. O problema é que você não pode apenas por vergonha ou por querer ser legal e correto dizer-se vegetariano sem ser.

Para ganhar os louros do bonzinho e amigos dos animais é preciso passar vontade e abrir mãos dos churrascos. Ou, fazer como eu, admitindo-se menos evoluído e assumindo que você tem dupla personalidade: ama bicho, mas os mata e come.

A falta de verdade das coisas nos dias atuais chega a ser engraçada, contudo é também muito nociva. Sem nos darmos conta, vamos alimentando um consumismo sórdido de ideologias e práticas completamente descaracterizadas e distanciadas de seus preceitos iniciais.

É preciso menos aparência e mais essência.

VEJA TAMBÉM:

Galeria de Fotos 3 sites para criar o seu próprio livro de colorir Veja Fotos