OPINIÃO
23/11/2015 11:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A difícil lógica do 'não pedir'

Estava na hora, e ela bem via, de, finalmente, assumir as linhas de sua personagem preferida e gritar ao mundo, sem piedade: "quem tem coragem não precisa de boa reputação"

Vstock LLC via Getty Images
USA, Illinois, Metamora, Close-up of man begging for money

Era uma vez uma moça C. Ela era cheia de crises. Vivia em busca de si, mas escapava-se frequentemente. Quando pensava finalmente capturada, lá se esvaia, pelo ralo, ou qualquer outro buraco, talvez, pela fissura que tinha por cantos enigmáticos que ninguém poderia imaginar ser capaz de escoar tamanho corpo e sentimentos latentes. Dessa forma, passaram, sem pensar e nem perceber, 32 anos.

C. era do tipo que dava voltas. Criava barrigas na própria vida. E por quê? Simplesmente porque não sabia ir direto ao ponto. Vivia em busca de si. E imaginava que, um certo dia, um príncipe, num cavalo mágico e alado viria salvá-la de si mesma e de seus desejos profanos.

Portanto, dos amores, era claro, não esperava menos que chegassem com o pé na porta, destruindo a parafernália socialmente construída e que lhe indicassem um lugar original, de abraço quentinho, de risada fértil e infinda. Que fossem, simplesmente, dessas coisas que transformam, casos que colocam o sul no norte e fazem envolver nos braços, incerta, tudo o que ainda há de vir, com a segurança de quem espera um natal terno infantil, cheio de pequenas surpresas promissoras.

Preciso dizer quanto C. se frustrava? Acredito que não, não é mesmo, car@s leit@s? C., como boa representante da geração entre X e Y, mudou de profissão 5 vezes em dez anos. Namorou 5 caras em dez anos também. Mudou-se de cidade, transformou sua vida, percorreu caminhos inóspitos e desabitados. Chamou para dentro de si sombras que nem eram dela. C. culpou-se por cada fim e enfileirou, pedra a pedra, tijolo a tijolo, cada reconstrução de si e de sua vida.

Cada mágoa, cada falta, cada desconstrução. Cada coisa, que não ia bem, mas que C. engolia, digamos até, deglutia, porque não imaginava ter outra possibilidade que não fosse seguir em frente na construção de seus castelos de tijolinhos infantis de madeira. Desses que empilhamos displicentemente, mas que, sempre, inevitavelmente, derrubamos ao chão, para reconstruirmos com maior sensatez e autenticidade. No entanto, C. ainda estava na lógica do querer. E era preciso ainda, aventurar-se pelos insensatos caminhos do não pedir.

Era preciso abandonar a vaidade do ser querida e desejada por todos. Era preciso, sair ainda da lógica do agradar a todo custo, para mostra-se desnuda e inteira. Era necessário, abandonar orgulhos e autodefesas que nos fazem esperar que o telefone toque ou que a carta chegue. Era, ainda, crucial, aprender a fazer convites sem forjar caras e bocas e contar histórias míticas, nas quais, ela era heroína. Era absolutamente necessário que não fosse mais tão legal assim, e que mostrasse que era mesquinha e chata e em tantos momentos, boba. Era o tempo de apenas e simplesmente, sentir sem emoldurar realidades benéficas que a transformassem num ser ímpar - assim e sem mais: num ornitorrinco - , o qual, ela bem sabia, não era.

Chegava o tempo de não acender velas, de não preparar jantares, de não comprar vinhos - ah, de não ser ninfa e de não pertencer a Baco - de não forjar encontros, de não estruturara personagens, de não pedir respostas. Chegava o tempo, enfim, de não ser lógica e de, finalmente, poder agir como louca - essa doida, que há muito tempo ela era, mas que por vaidade e demasiado cuidado à sua reputação, ela sempre acabava ocultando. Estava na hora, e ela bem via, de, finalmente, assumir as linhas de sua personagem preferida e gritar ao mundo, sem piedade: "quem tem coragem não precisa de boa reputação".

No jogo que a vida cobrava ali, diante de C., a única resposta possível era o all in! Todas as suas fichas na aposta mambembe dela com ela mesma. Olhando-se no espelho e chamando por aquela outra que pudesse dar conta dela, mas que fosse a fúria de sua vida há tanto escondida e recôndita. Essa existência real há tanto resguardada.

Porque no poker da vida não existe blefe. O que fazemos, mais do que ler o outro, é olhar para nós e sentirmos que não poderemos reclamar do resultado das apostas, uma vez que elas remetem às nossas pequenas epifanias - pedacinhos tenros de verdade - revelações miúdas que tomam conta de nós. Estão quando alguém ou algo especial está e não sabemos direito o que fazer com aquilo. Se levamos a diante, se deixamos ali, intocado, o presente da vida, esperando passar já que temos tanto,sempre, a perder.

Porém, como C. sempre foi contraditória, decidiu-se por deixar-se navegar. Sem hoje e nem amanhã, vai vivendo um dia de cada vez, em que os ventos sopram na vela e, qualquer que seja o rumo, ela nenhuma palha move. Fica quieta, observando o destino de para onde seus passos a levam, com a única certeza de que, ao atracar, irá falar das coisas que lhe invadem a alma: cachorros, filmes, literatura e crianças. Com algo alcoólico sobre a mesa e realidades oníricas que a despertem.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: