OPINIÃO
08/09/2014 09:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Uma história sobre as oitavas

No começo eu achava que as oitavas eram algo mundial, que existiam em todos os países e cidades do mundo. Mas depois, quando comecei a pesquisar a respeito, percebi que era uma invenção argentina.

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No começo eu achava que as oitavas eram algo mundial, que existiam em todos os países e cidades do mundo. Mas depois, quando comecei a pesquisar a respeito, percebi que era uma invenção argentina, mais especificamente de um arquiteto cordobês radicado na Alemanha. Aprofundando minha investigação, encontrei mais informações que colocavam em dúvida esse último dado, sugerindo que podia ser um alemão naturalizado argentino. As pistas que encontrava me levavam alternadamente às duas histórias. Nenhuma era mais provável que a outra. O que me chamava a atenção era que as oitavas haviam surgido com um sentido prático e funcional, para logo se converterem em uma questão estética, do campo da beleza e da ostentação das casas, para quem quisesse vê-las.

Minha história preferida era a que contava de um tal Esteban Camilo Taján (1893-1967), nascido em Santa Rosa de Calamuchita (Córdoba), no seio de uma família de operários. O pai, Marcelo Julián Taján, dedicara toda sua vida à alvenaria. A mãe, Lucrecia Estefanía Gutiérrez, fora costureira em tempo integral. Dados cadastrais indicavam que, nessa época, Calamuchita não tinha problemas com suas esquinas, nem qualquer preocupação estética de converter os quarteirões em octógonos, já que estes, como as ruas e calçadas, eram todos irregulares e amorfos. Desde pequeno, Esteban já mostrava interesse pelas figuras geométricas. Desenhava-as por todas as paredes de sua casa tentando sempre alterá-las, modificá-las, apropriá-las. Para ele um simples triângulo isósceles podia chegar a ser um pássaro adormecido, um broto a ponto de florescer, um esqueleto fossilizado de capivara. Um retângulo ordinário podia chegar a ser um centro comercial abandonado, um carrinho de supermercado cheio de mercadorias ou uma simples caixinha de música com bailarina. E assim com qualquer figura que aparecesse diante dele.

Tudo aconteceu numa tarde de outono em que, de tanto pensar, Esteban foi caminhando até Villa General Belgrano. Transcorria o ano de 1927 e tanto o pai quanto a mãe não paravam de trabalhar. Por essa época, começavam a chegar naquele lugar os primeiros alemães com vontade de fazer da vila uma comunidade plenamente geométrica, sem exceções. A facilidade que Estebán possuía no manejo das figuras geométricas já se propagara por todas as cidades circundantes e até mesmo pela capital, de modo que os germânicos não demoraram em dar com o mestre da abstração geométrica - assim chamavam Esteban, e ele adorava. Quando os alemães o encontraram, Esteban estava lucubrando sobre aquilo que se transformaria, anos depois, em sua obra-prima. A oportunidade que se apresentava era ideal para provar sua factibilidade, e para poder estabelecer precedentes de seu engenho. Depois de entrar em acordo com os alemães em relação a honorários e benefícios, mergulhou no trabalho que lhe tirou o fôlego por 39 noites e 41 dias. Depois de descartar numerosas formas falhas e ideias parciais, chegou ao que se converteria em sua criação magistral do quarteirão mais estético e bem desenhado de toda a história. Foi assim que, em 23 de agosto de 1931, ele patenteou junto ao escrivão público e às autoridades municipais competentes a ideia das oitavas.

A ideia era tão revolucionária que não esteve isenta de boicotes e tentativas de atentados, tanto contra a festa de inauguração quanto contra a vida de seu autor. Os defensores extremistas das esquinas ortodoxas de todo o país se uniram para tentar parar o evento com ameaças violentas e tentativas de sequestros extorsivos.

Esteban e seus pais estiveram a ponto de se exilar do país, mas, graças à intervenção da Embaixada Alemã na Argentina, puderam viver com identidades alemãs e sob segurança privada em Villa General Belgrano. E, como todo inventor ou toda invenção transcendental, pouco depois de sua morte, em 1967, começou-se paulatinamente a identificar as vantagens de sua criação, que foi se propagando por todo o país, tornando-se um sucesso que o catapultou não só para toda a América Latina, mas também à Europa e à América do Norte, e até na Ásia chegaram a venerá-lo.

1. Trecho do romance "Carne de Canhão" publicado pela Editora Mórula em Julho 2014.

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