OPINIÃO
29/05/2014 17:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Essa máquina de ossos

Não se pode expressar cada sensação, sentimento, emoção com as palavras ou vocabulário disponível? Será que existem sentimentos tão mágicos que nunca poderão ser expressados em palavras?

Getty Images

Como a muitas outras pessoas, me encanta viajar. Desfruto muitíssimo me aventurar por bares onde pressinto que está a essência mesma do lugar, me perder pelas ruas, fazer inúmeros mini vídeos e algumas fotos. Todo me serve para guardar da forma mais fidedigna e cabal possível a experiência que estou vivendo. No entanto, um problema surge quando no retorno da viagem um amigo ou parente me pede que lhe mostre as fotos e que conte sobre os lugares por onde estive. É ai que me perco na tentativa de expressar todas as emoções, sensações, sentimentos que essa viagem me despertou. Me sinto um pouco frustrado ao comprovar que o grande número de mini vídeos e fotos não me permitem reproduzir no relato a experiência que ainda habita minha pele. Então é ai que me ponho a descrever o que aparece na imagem. Mas sempre me termina resultando uma descrição abstrata, algo fria e brutalmente incompleta, e me dou conta de que parece que estivera contando a viagem de outra pessoa e não a minha.

A mesma sensação me consome quando desejo recomendar um livro, um filme ou um CD. O que quase sempre acontece é que crio uma expectativa tão grande que a outra pessoa sai da experiência frustrada, literalmente, sem entender o porque de tanto alarde. Não se pode expressar cada sensação, sentimento, emoção com as palavras ou vocabulário disponível? Será que existem sentimentos tão mágicos que nunca poderão ser expressados em palavras? Se aceitamos isso, teremos que reconhecer que passamos pela vida sem definir com nossas palavras o que sentimos por outras pessoas. Assumir que nós morreremos sem poder dizer o que temos por dentro. Que nos enterrarão com sentimentos vivos e palpitantes que, por não saber decodificá-los em palavras, nunca serão liberados, nem livres. Que não nos fica outra alternativa que reconhecer que o vocabulário é por demais pobre e conciso ante ao acúmulo de sentimentos que nosso corpo, cada parte, cada órgão, cada milímetro de pele, desprende a cada segundo, a cada milésima de segundo, sem que nós podamos ou tenhamos a capacidade de distingui-los e menos ainda, descrevê-los.

Senti toda essa frustração de golpe quando ouvi Bone Machine de Tom Waits e quis recomendá-lo a um amigo. Nenhuma das 16 canções mexeram com essa pessoa. Para mim foi de uma tristeza enorme me sentir tão incompetente e incapaz de lhe transmitir pelo menos uma pitada do que esse CD me havia despertado, que me ofusquei, me recolhi.

Portanto, devemos aceitar que não somos nada ou começar a nos alimentar a base de livros, enciclopédias, listas telefônicas, dicionários, manuais, com o fim de tentar encurtar essa brecha iminente entre o sentimento e a palavra.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.