OPINIÃO
18/08/2014 19:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A melancólica morte do lenço

Na minha opinião não morreu, pra mim o mataram friamente e sem piedade.

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Não é que não tenha sentido até o osso a morte do menino ostra, muito trágica, mas deixem me lhes dizer que essa foi pior, muito pior; não teve nem livro, nem ensaio, nem coluna nos jornais; o lenço morreu há muito tempo; passou pro outro lado e ninguém percebeu, ninguém se entristeceu, ninguém se...; não teve funeral sequer, nem enterro, nem procissão; morreu sem dizer adeus e ninguém o disse tchau, ninguém chorou por ele; e agora que estou escrevendo essas linhas em sua memória, sei que é pior a indiferença que o ódio; alguns, ou melhor dito, a maioria supõem que não está morto, o que aconteceu foi que o clonaram para aggiornarlo e nada mais; digamos que o achavam fora de moda, nem pra vintage ou retrô servia, coitado; ou seja, foi pra modernizá-lo, tirar-lhe uns anos de cima e trazê-lo pra esse século tão pós-tudo, até de si mesmo; era pra pelo menos organizar uma manifestação ou um panelada como maneira de se despedir dele; só que não, óbvio, todo mundo preferiu se ocupar do seus assuntos ou simplesmente se conformar, enquanto o problema for do outro está tudo bem; de nada servi agora arremeter com insultos irados contra o capitalismo, lhe fazer macumba ou desafiá-lo a um duelo; por acaso poderia lhe disputar à globalização um pedaço de mundo numa partida de xadrez? por acaso poderia convencer a deus pra que ressuscite e desclone ao lenço?: devo confessar com relutância que o único que conseguiria seria que me chamassem de doido e quisessem me internar num manicômio; meu desejo é, através deste texto, arengar à massa, provocar e fazer um chamamento público pra sair à rua pra denunciar esse atropelo, esse assassinato silenciado; com uma tristeza infinita tenho que admitir que além do lenço há muitos mais que estão em perigo de clonagem; a cada minuto, numa espécie de carambola ubíqua, pelo menos um cai na forca; basta só olhar a nosso redor, preparar o ouvido, acordar o olfato, sensibilizar o tato; embora possa parecer um absurdo, na minha opinião não morreu, pra mim o mataram friamente e sem piedade.

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