OPINIÃO
20/03/2014 17:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Bola dividida

As discussões no campo da sustentabilidade no âmbito corporativo trazem sempre uma questão, por vezes central, por vezes subjacente, relativo ao limite de responsabilidade entre empresas e Estado.

Em termos concretos, porque uma empresa deveria se responsabilizar por algo que, em tese, é papel do Estado ? Em maior ou menor escala, essas discussões vêm, gradativamente, tomando espaço nas agendas estratégicas de sustentabilidade que tenho conduzido.

No setor de construção civil (urbano), por exemplo, as agendas estratégicas de sustentabilidade de construtoras foram tomadas por questões ligadas ao processo construtivo no que se refere ao uso de tecnologias e materiais que fossem mais eficientes do ponto de vista ambiental.

Posteriormente passaram a inserir nessas agendas questões ligadas às condições sociais de trabalho e aos desconfortos causados no entorno durante e após a obra (como trânsito, poeira, barulho, por exemplo). Todas essas questões motivadas pelos selos de "construção sustentável", como por exemplo o Leed, o selo Obra Sustentável (Banco Santander) e o Selo Azul (Caixa Econômica Federal).

Todavia, quando nos perguntamos se cabe à construção civil urbana resolver um dos principais problemas conhecidos no Brasil hoje, o déficit habitacional, imediatamente as empresas do setor dizem que este é um problema de governo.

Durante anos, os governos buscaram responder através dos programas habitacionais de baixa renda, sendo que o último grande programa federal foi o Minha Casa, Minha Vida. Nele, o Governo deixa de assumir a função de executar as obras, limitando sua atuação ao acesso de recursos para financiar construções e aquisições.

Por um lado, uma sábia decisão, quando constatamos a lentidão e ineficiência dos investimentos públicos, transferindo essa responsabilidade para a iniciativa privada. Por outro, uma pergunta: em que medida a iniciativa privada teria atratividade para atender à população de baixa renda ?

Fizemos um estudo em 2010 buscando respostas. Primeiramente buscamos os últimos dados do déficit habitacional no Brasil, procurando compreendê-lo em termos de renda e região, onde constatamos que o déficit habitacional está concentrado na faixa abaixo dos 3 salários mínimos (89%) e predominantemente na região Sudeste/Nordeste (3 milhões de famílias).

Cruzamos os dados com os empreendimentos iniciados pela iniciativa privada e vimos que a maioria dos que faziam parte do Programa Minha Casa Minha Vida estavam concentrados na faixa acima de 3 salários mínimos. Ou seja, se o Governo quiser de fato resolver o problema do déficit, não será pelo mercado que conseguirá. Precisará criar condições ainda mais favoráveis aos setores privados para atacarem essa faixa de renda.

Por outro lado, o setor privado poderia se dedicar a focar técnicas e pedagogias construtivas que reduzissem os custos de construção. Para tanto, precisariam repensar o modelo construtivo, buscando reduzir o custo com mão-de-obra a partir da participação de pessoas que se beneficiam das construções (modelo similar aos mutirões). Caberia à empresa a estrutura técnica do projeto e caberia às famílias a construção, orientada pela primeira (modelo parecido ao usado no México no Programa Patrimonio Hoy, criado pela empresa de cimentos Cemex).

Daí que, para as questões realmente críticas ao desenvolvimento sustentável o papel da iniciativa privada poderia ir além da mera transposição de responsabilidade ao primeiro setor. Bastaria que para isso se organizassem a estruturar modelos de negócio voltados aos tickets baixo por transação. Neste campo, os negócios sociais têm se destacado, pois toda sua concepção parte dessa premissa.

Pessoalmente acredito que não há um limite de atuação da iniciativa privada nessas questões. O que falta, a meu ver, é uma nova forma de pensar o negócio privado, deixando de colocar a responsabilidade integralmente ao governo e passando a se redesenhar a partir do zero para essa realidade. Mercado não falta, lucro não falta, falta vontade.