OPINIÃO
23/06/2014 14:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

A minha revolução

O que há, na natureza humana, que nos faz atacar o que nos é estranho, levando-nos a crer que ali existe um erro, um desvio de percurso, e não apenas outra trajetória ou realidade que nem sonhávamos existir?

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(...) "Hoje eu vim, minha nega / Sem saber nada da vida" (...)

Na minha escola havia um menino gago, um que comia as folhas do caderno e outro que enfiava pontas de lápis no nariz. Havia uma menina com orelhas de abano, outra com cabelo crespo e uma que fazia xixi nas calças quase todo dia. Todas essas crianças, devidamente apelidadas, sofreram por terem cometido o significante erro de serem diferentes.

O que há, na natureza humana, que nos faz atacar o que nos é estranho, levando-nos a crer que ali existe um erro, um desvio de percurso, e não apenas outra trajetória ou realidade que nem sonhávamos existir?

O mecanismo de definir estereótipos está arraigado há muito em nossas forma de pensar. A identificação dos rótulos, que nos leva a julgamentos preconceituosos, ocorre quase que automaticamente em nosso cérebro, como o disparo instantâneo de um gatilho, mesmo para quem se julga livre das intolerâncias. Em outro texto pretendo falar mais sobre isso, mas, por ora, vale dizer que esses gatilhos, ainda que automáticos, podem ser treinados para desacelerar, até que atrofiem. Como um exercício mental.

Peguei-me pensando em qual seria meu maior legado para o pequeno João, no auge dos seus dois anos. De cara, pensei no gosto pela música, na beleza do samba. Certamente - uma pena - ele herdará também meu nariz grande, parte da minha neurose ansiolítica, as pernas compridas e as canelas finas. Mas gostaria que ele herdasse, sobretudo, o "acolhimento do que lhe é estranho" - essa expressão me parece mais significativa do que o velho "respeito às diferenças". E, para que ele herde isso de mim, eu precisei me transformar.

Essa transformação implica dor e fôlego. Sofri e tive que me afastar momentaneamente de muitas pessoas porque, em um determinado momento, percebi quem eu era de fato espelhado nelas; ou melhor, quem eu não queria mais ser. Eu era uma coisa nova, em transformação, com bandeiras mais claras e pensamentos mais maduros sobre determinados temas. Passou a ser insuportável, para mim, receber em grupos do WhatsApp filmes ofensivos, racistas, homofóbicos e machistas (as pontas de um iceberg gigantesco). Quando a chave vira, a porta nunca mais volta a ser a mesma. Isso quer dizer que, quando eu percebi tudo que havia de terrível por trás do que pareciam simples piadas em forma de fotos e vídeos, que sempre recorrerão ao humor de forma vexatória ou violenta, eu deixei de ser um conivente. Perdeu a graça. Quando você se aproxima das pessoas que sofrem, quando você passa a ouvi-las e entende o que as incomoda, quando você deixa de ser um pouco egoísta, aí sim é que as coisas começam a mudar. É legal mudar, mas muita gente à sua volta não vai te entender. Pelo menos, em um primeiro momento.

Vou dar um exemplo dessa transformação: sabe a campanha "Chega de Fiu Fiu"? Por que tanta indignação das mulheres, não é mesmo? Bem, eu só entendi depois, na prática, quando, mais sensível ao tema, comecei a reparar na cara de algumas moças, no momento em que eram assediadas por um ou mais homens na rua. Sabe do que era essa cara? Não era de orgulho por estar bonita, por ser bunduda, por ser desejada. Era uma cara de medo, de raiva, de vergonha. As mulheres sempre foram objetos em nosso mundo fálico, e, objetos que são, devem estar à disposição de nossas vontades. Nós somos homens, somos mais fortes e podemos agarrá-las quando bem entendermos. Não é assim? Claro que não. Entendi que para mim não seria tão difícil engolir o meu Fiu Fiu - bastou pensar em como deve ser difícil para uma mulher querer colocar uma saia curta ou uma blusa decotada, mas ser obrigada a desistir dessa liberdade por culpa nossa, por nos comportarmos como animais diante delas. Elas não saíram na rua procurando o seu pinto. Tente desconstruir este estereótipo. Não é babaca mostrar respeito. Outro dia saí para caminhar com minha esposa. Parei por alguns segundos, distraído com uma vitrine, e ela se afastou alguns passos. Durante esses poucos passos, até alcançá-la novamente, pude entender como é um desafio diário ser mulher neste mundo. E olhe que ela estava trajando roupas tão sensuais quanto um pijama velho.

Como é difícil ser diferente. Ser gago, comer bolinhas de papel ou colocar pontas de lápis no nariz. Como é difícil ser feio, ser magro, ser gordo. Ser mulher. Ser pobre. Ser deficiente físico. Ser nordestino. Ser negro. Ser homossexual. Ser transexual. E como é cômodo para os outros não olhar com sensibilidade para o fato de que essas diferenças, no mundo real, significam opressão, violência, tristeza e morte. A forma com que lidamos com essas diferenças dá uma pista do quão desrespeitoso é o mundo em que vivemos. Uma pista de como, a cada instante, somos desrespeitosos com o negão, com a baianada, com a bichinha, com a sapata, com o manco, com a gordona, com a safada que saiu de calça apertada.

Mais uma cena do cotidiano. Na fila do cinema, na Rua Augusta, havia um casal de meninos à minha frente. Eles não deviam ter mais do que 15 anos. E estavam felizes. Felizes demais. De mãos dadas, abraçados, enroscados em ternura e cumplicidade. Por um momento eu estremeci. Olhei no relógio e já era noite. Fiquei pensando se eles voltariam para casa a pé ou se chamariam um taxi. Fiquei com medo de apanharem. Senti medo por eles, de morrerem por espancamento. Pensei em quantas pessoas morrem por dia por gostarem do mesmo sexo. O terror não está apenas nos atos explícitos de linchamento - está também no silêncio embaraçoso dos que preferem não falar no assunto. Porque isso é um consentimento, esse baixar de cabeça e desviar de olhos, esse "não tenho nada contra gays, mas não quero que aconteça com o meu filho". E isso é o que sustenta uma atmosfera de reprovação, de conservadorismo e de medo do que é diferente. Em cada gesto de omissão respira uma violência velada. A maioria não concorda com o apedrejamento de gays, mas não vê problema em caçoar baixinho do casal à sua frente na fila do cinema. A desconstrução dos estereótipos começa por aí: na simples reflexão do caçoar baixinho. Deixe a terra arejar, corte as raízes podres, desacelere seus gatilhos.

É preciso revolucionar-se sempre. O mundo necessita dessas microrrevoluções. Nelas está o nosso verdadeiro legado.

"Hoje eu vim, minha nega / Sem saber nada da vida / Querendo aprender contigo a forma de se viver / As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender". (Paulinho da Viola)

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