OPINIÃO
11/09/2014 19:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Só estes três passos vão permitir que a Otan faça frente a Putin

ASSOCIATED PRESS
Soldiers from NATO countries take part in an exercise called "Saber Junction" at the military area in Hohenfels near Regensburg, southern Germany, Monday, Sept. 8, 2014. Saber Junction 14 is a U.S. Army Europe led, U.S. European Command directed, multinational, multiservice exercise that involves more than 5,800 personnel from 17 European countries. (AP Photo/Matthias Schrader)

Almirante Jim Stavridis e Julian Lindley-French

A Aliança Atlântica precisa criar uma Força Futura da Otan do século 21 se quiser continuar a ser um centro militar estratégico. Nesta semana, os líderes da Otan se reúnem no País de Gales para considerar o futuro da aliança militar democrática mais poderosa do mundo. Enquanto eles começam suas discussões, forças russas estão desmembrando a Ucrânia, o futuro do Afeganistão está mais uma vez em dúvida, fanáticos do Estado Islâmico ameaçam toda a estrutura dos estados do Oriente Médio, e novas tecnologias militares, de mísseis e cibernéticas mudam a cara de dois espaços críticos da Otan - o espaço das batalhas e o espaço da segurança.

Setembro de 2014, portanto, será lembrado como um "schwerpunkt" para a Otan, um momento decisivo no qual a organização terá decidido ser estrategicamente relevante ou irrelevante. Se for o primeiro caso, setembro de 2014 também tem de marcar a criação de uma aliança verdadeiramente do século 21, no âmbito de um Conceito Estratégico contextualmente relevante, com defesa coletiva, gerenciamento de crises e segurança cooperativa como motor dos planos de força e defesa de todos os Aliados.

Alianças são criadas com dois objetivos em mente: prevenir guerras e, se necessário, vencer guerras. Influência e efeito são as duas "commodities" estratégicas "negociadas" pelas alianças. Como tal, as alianças ascendem ou decaem de acordo com a unidade estratégica de esforço e propósito entre os membros e o nível de interoperabilidade entre suas forças armadas. Perdendo um desses itens, ou ambos, a aliança está efetivamente alijada.

UM DIA NEGRO PARA O EXÉRCITO ALEMÃO

Em 21 de março de 1918, fortalecido pelo colapso da Rússia czarista, o Exército Imperial Alemão lançou a Operação Michael. Era uma tentativa desesperada de Berlim de derrotar os britânicos e vencer a Primeira Guerra Mundial antes da chegada em massa dos americanos.

Nos primeiros dias da batalha, as tropas do kaiser conseguiram ganhos notáveis. O avanço não foi apenas uma conquista das armas. A Grã-Bretanha, a França e o próprio gabinete britânico, sob Lloyd George, estavam perigosamente divididos com relação à estratégia. De um lado, os "ocidentalistas" acreditavam que a guerra só seria vencida se os alemães fossem derrotados nos campos de Flandres. Entretanto, os chamados "orientalistas" achavam que o kaiser poderia ser batido com um ataque aos flancos alemães na Turquia e em outras localidades.

A falta de unidade estratégica de esforço e propósito desnudou as defesas britânicas na área crítica em torno do antigo campo de batalha de Somme. Felizmente, nos anos pós-1914 o exército britânico havia conseguido avanços verdadeiramente revolucionários em estratégia e tática militares. Em vez de ruir, os britânicos retrocederam de forma razoavelmente ordenada e, ao fazê-lo, reduziram gradualmente o número de tropas de elite alemãs, até que o exaurido Exército Imperial Alemão não pudesse mais avançar.

Em 8 de agosto de 1918, na Batalha de Amiens, no que o general Ludendorff chamou de "dia negro para o exército alemão", forças do Commonwealth Britânico, com apoio dos franceses e dos americanos, começaram um contra-ataque maciço. Os britânicos empregaram um tipo completamente novo de manobra de guerra, a All Arms Battle. Aviões, tanques, artilharia e infantaria operaram em colaboração estreita para romper as forças alemãs. O que veio a ser conhecido como a Ofensiva de Cem Dias efetivamente acabou com a Primeira Guerra Mundial.

A GUERRA POR PROCURAÇÃO DA OTAN CONTRA A RÚSSIA NA UCRÂNIA

Felizmente, a Aliança não está em guerra hoje, mas a Otan está certamente diante do equivalente político da Operação Michael. A invasão da Rússia por procuração (ou não tanto por procuração) do leste da Ucrânia deveria ser um alerta. Entretanto, os líderes Aliados permanecem estrategicamente incertos e profundamente divididos sobre o que fazer com relação às incursões russas na Ucrânia. Essa divisão não apenas reflete uma falta de unidade estratégica de esforço e propósito como também uma Otan profundamente dividida entre aqueles que simplesmente querem proteção americana e aqueles europeus que veem as forças militares meramente como um adjunto ao soft power. A Otan precisa reencontrar um nível compartilhado de ambição que tem estado notavelmente ausente nos últimos tempos, algo que Moscou está feliz em explorar.

Só a Grã-Bretanha e a França fazem esforços sério para gerar as capacidades expedicionárias militares necessárias para manter-se próximos de uma América cada vez mais sobrecarregada. Entretanto, depois de uma década de operações contínuas e seguidos cortes de defesa, as pequenas forças armadas francesa e britânica estão desgastadas. Portanto, se a cúpula de Gales for o schwerpunkt da Otan no século 21, a Aliança precisa dar os primeiros passos para restabelecer uma aparência de credibilidade militar, da qual dependem a influência, a defesa e o poder de dissuasão.

Em seu cerne militar, a Otan precisa de uma força futura que seja relevante para os desafios que estão por vir. Portanto, a Aliança precisa voltar a suas origens militares e reconsiderar radicalmente a utilidade da força na busca da estratégia. Com este fim, a cúpula de Gales deveria tomar três decisões fundamentalmente importantes e essencialmente militares:

  • Defesa Coletiva: A defesa coletiva sob o Artigo 5 deve ser modernizada e reorganizada em torno da ciberdefesa, da defesa contra mísseis e das forças avançadas vitais para a defesa contemporânea. Uma All Arms Battle do século 21 deve ser forjada com as forças da Otan mais bem configuradas para operar pelo território global e pelos seis domínios contemporâneos da guerra - ar, mar, terra, ciber, espaço e conhecimento.

  • Gerenciamento de crise: O Quartel-General Supremo dos Poderes Aliados da Europa (SHAPE), a Força de Resposta da Otan e as Forças de Alta Prontidão (HRF) devem ser radicalmente reestruturadas na Força Futura da Otan. Tal força seria predicada no princípio da unidade militar da Aliança de esforço e propósito. Isso, por sua vez, permitiria à Aliança exercer sua força efetivamente e comandar e controlar de forma eficiente complexas coalizões globais no espectro de missões da guerra de alto nível e na defesa do tipo de guerra ambígua/híbrida que Moscou emprega na Ucrânia.

  • Segurança cooperativa: A Aliança precisa estar mais bem configurada para trabalhar com todos os seus parceiros estratégicos ao redor do mundo, estados e instituições, militares e civis, se quiser manter sua credibilidade na segurança global assim como na segurança europeia. De fato, reconectar a segurança europeia à segurança global pode ser considerada a Diretiva Primordial da Otan.

A mundialmente-competente Força Futura da Otan deve estar no coração de uma nova Otan, na qual os atuais conceitos de planejamento da Otan 2020, Defesa Inteligente e Forças Conectadas estão de fato fundidas com a Força de Resposta da Otan e as HRFs, numa All Arms Battle do século 21. Integrações profundas ou orgânicas entre as forças da Otan serão o mecanismo de interoperabilidade vital no coração da força, permitindo às nações atingir o equilíbrio necessário entre capacidade e custo.

Apesar de muito se falar da necessidade de os membros da Otan investirem no mínimo 2% do PIB em defesa, não se fala muito do tipo de força futura que essas despesas deveriam gerar. O padrão de 2% só terá credibilidade política se os líderes nacionais forem convencidos não só de quanto têm de gastar com suas respectivas forças armadas, mas também que forças esse investimento vai trazer, e por quê. "Bom negócio" é o mantra essencial e inescapável da defesa, hoje.

Será necessário um novo ingrediente crítico na postura da força estratégica pós-Gales: conhecimento. Apesar de tudo o que se fala sobre capacidade militar, o componente crítico de combate da Otan é o conhecimento compartilhado e o entendimento de ambientes e práticas que ele pode propiciar.

De fato, o conhecimento é o componente essencial da interoperabilidade, seja no nível do direcionamento das campanhas ou no nível militar das operações. Além disso, o conhecimento compartilhado também é crítico porque reforça a essencial confiança entre membros, que hoje enfrenta desafios.

A Aliança precisa agir rápido, pois a interoperabilidade contemporânea é construída sobre a fundação do conhecimento obtido em mais de uma década de operações e mecanismos avançados para o compartilhamento do conhecimento. De fato, tal conhecimento pode se perder rapidamente se não se tomarem os passos para que ele seja capturado sistematicamente e embutido na Força Futura da Otan por meio de exercícios, educação e treinamentos inovadores.

Acima de tudo, a Otan deve continuar sendo um centro militar estratégico de credibilidade. Portanto, a Força Futura da Otan tem de ser uma força de combate, mas ao mesmo tempo ágil e rápida o suficiente para estar na intersecção das forças dos Estados Unidos, da Europa e de seus parceiros, e entre o soft e o hard power.

A chanceler alemã Merkel afirmou corretamente na cúpula da União Europeia que uma resolução da crise ucraniana não será de natureza militar. Ela está certa. De fato, a maior parte das crises de um século que será perigoso vão exigir, antes de tudo, ferramentas de soft power e soluções políticas. Essa realidade coloca ainda mais importância em uma parceria efetiva entre a Otan e a UE e na cooperação civil-militar. Entretanto, sem a base sólida que é a credibilidade do poder militar da Otan, a essência da Aliança, o soft power é como o que descreveu Thomas Hobbes: "pactos sem espadas" e, como tais, "meras palavras".

Este perigoso século 21 será mais seguro se o Ocidente for forte, junto. Um Ocidente forte significa uma Otan forte e legítima, construída sobre forças armadas fortes e com credibilidade. Gales é o lugar e a hora de agir. Também é o lugar e a hora de a Otan ser radical.

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