OPINIÃO
19/12/2014 12:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

As lições mais importantes a se tirar da invasão da Sony

ASSOCIATED PRESS
The logo of Sony is displayed outside the Sony building at Ginza shopping district in Tokyo, Thursday, Dec. 18, 2014. A U.S. official says North Korea has been linked to the unprecedented act of cyberwarfare against Sony Pictures that exposed tens of thousands of sensitive documents and escalated to threats of terrorist attacks that ultimately drove the studio to cancel all release plans for the film at the heart of the hack, "The Interview."(AP Photo/Eugene Hoshiko)

Angelina Jolie podia estar muito irritada quando encontrou Amy Pascal, da Sony, na semana passada, depois que o grupo de hackers Guardians of Peace (Guardiões da Paz) vazou o e-mail da vice-presidente criticando a estrela de Malévola. Mas, enquanto a fofoca come solta e os assessores de imprensa fazem o possível para conter a hemorragia na empresa, a verdadeira lição gira em torno de uma questão de cultura corporativa.

É importante não subestimar o que aconteceu. Embora eu duvide que a invasão possa naufragar a Sony, não é o tipo de coisa que propicia uma navegação suave. A ideia de que tal coisa possa acontecer em uma empresa que tem tanto a perder supera a imaginação. A falha vai além de épica, é uma grande virada na trama com um terceiro ato que ainda não foi escrito, mas que poderá incluir um banho de sangue no conselho administrativo. E está começando a parecer que essa foi a intenção dos hackers.

Foi um desastre em nível empresarial. Muitas coisas tiveram de dar errado para transformar esta notícia da noite dos mortos-vivos em um presente de Natal que continua dando assunto ao mundo do entretenimento.

O volume de informação roubada é inacreditável. Roteiros vazaram, filmes ainda não lançados chegaram a sites piratas, os números da previdência social e detalhes sobre honorários de Sylvester Stallone, Judd Apatow e outras celebridades foram divulgados online, os números da previdência social de 47 mil atuais e antigos funcionários da Sony foram publicados e milhares de e-mails controversos foram desenterrados. O prejuízo financeiro poderá chegar aos nove dígitos -- e se o ataque não foi lançado por hackers armados (ou mesmo que fosse) a confusão deixa muitas perguntas sérias a respeito do futuro dos negócios na era do super hack. Qualquer pessoa que dirija uma empresa - seja uma loja familiar ou uma gigante multinacional como a Sony - precisa prestar muita atenção no que aconteceu aqui e começar a levar a sério a segurança dos dados.

Apesar de o próprio FBI ter dito que poucas companhias - apenas 10% - poderiam ter evitado um ataque como o que atingiu a Sony, devemos nos perguntar o que teria acontecido se tivessem sido adotados melhores protocolos de segurança de dados. As companhias precisam se lembrar de que alegar impotência diante de um acontecimento sem precedentes é uma ladeira escorregadia. Esse foi um problema em nível empresarial. O momento a ser ensinado aqui é que a segurança tem de ser praticada naquele nível e deve ser embutida no próprio tecido da vida cotidiana no escritório; tem de fazer parte da cultura corporativa de uma empresa. Uma boa cultura corporativa de cima para baixo poderia ter atenuado muitos dos problemas que a companhia enfrenta hoje.

1. Modelando a cultura corporativa

Em qualquer momento em que se comete uma invasão, os líderes corporativos acabam sob os refletores, quer seus e-mails pessoais tenham vazado quer não. Os líderes empresariais em geral, porém, devem aprender a demonstrar um nível de sofisticação, nuance, sensibilidade e respeito quando se comunicam internamente, especialmente quando essas comunicações envolvem pessoas de alta exposição -- como atores célebres, por exemplo.

Fofocas e calúnias são comuns demais nas comunicações eletrônicas da América corporativa, mas isso não quer dizer que não devamos tentar corrigir o problema. Poderíamos até argumentar que a falta de respeito demonstrada nos e-mails se manifesta com frequência em outras áreas das empresas -- especificamente na atitude desleixada em relação à segurança de dados que permitiu o roubo de informação pessoal e identificável de funcionários e artistas.

Uma lição a se tirar da invasão da Sony é que não há garantia de que seu e-mail não vazará em algum momento. Com certeza, poucas empresas colocadas sob os refletores como a Sony sairiam ilesas. É irracional pedir um comportamento imaculado em toda a sua organização? É claro que sim. Diante da realidade, porém, é recomendável assumir que você eventualmente será invadido e será exposto tal como é. Então seja bom... ou no mínimo considere pegar o telefone se tiver algo a dizer que não gostaria que seja divulgado no noticiário da noite.

2. Enfatizando a propriedade

No caso da Sony, filmes foram roubados, assim como muitos outros bens, incluindo roteiros, orçamentos e até negociações de contratos. Como isso pode ser evitado? O primeiro passo para as companhias é realmente assumir a propriedade de seus bens. A propriedade é um estado mental que exige estar alerta e vigilante para proteger o que é seu. A propriedade cria segurança. Em última instância, isso começa pela liderança corporativa, já que promover um sentido de propriedade entre os empregados é um processo que se dissemina aos poucos.

3. Manter-se organizado

Uma forte cultura corporativa é uma obra em progresso, evoluindo constantemente. Ela se mantém à frente da curva em consequência da clara liderança e de uma cultura em que os empregados se sentem investidos em seu trabalho, isto é, eles assumem a propriedade das tarefas que lhes atribuem. Uma coisa como a invasão da Sony -- em que o inimigo está bem armado, totalmente equipado e em modo de guerra -- talvez não seja evitável, mas um estado de prontidão pregado por uma cultura corporativa saudável, que coloca a segurança em primeiro lugar, é a única maneira de tal ataque ser adequadamente contido e gerenciado.

Se a Coreia do Norte (ou um seu delegado) atacou a Sony Pictures para impedir o lançamento de The Interview, ou se algum ex-funcionário aborrecido transformado em Lex Luthor tem um problema a resolver com Michael Lynton, a realidade de que qualquer companhia - seja do tamanho da Sony Pictures ou uma empresa de vídeos de casamentos - possa ser levada a nocaute de maneira tão espetacular e específica é algo que ninguém pode ignorar. Da mesma maneira que a invasão da Target mudou o modo como os americanos viam o roubo de identidades, a invasão da Sony modificará para sempre a paisagem digital da América corporativa.

E isso reforça a grande lição que circula desde o tempo de Peter Drucker: a cultura come estratégia no café da manhã.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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