OPINIÃO
24/02/2014 11:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Cinco mitos sobre introvertidos e extrovertidos no trabalho

O estigma da introversão está se desfazendo. As pessoas reconhecem que a introversão é acompanhada de pontos fortes, não apenas vulnerabilidades.

"Levante a mão se você é introvertido."

Ao longo de dois anos diferentes eu fiz esse pedido a mais de 200 estudantes de MBA (mestrado em administração) na Wharton School. Em 2011, apenas alguns poucos alunos levantaram as mãos. Em 2013, mais de um terço das mãos foram erguidas.

Será que tínhamos recebido uma quantidade de alunos mais introvertidos? Não. Quando preencheram questionários confidenciais, as duas classes se mostraram idênticas: numa escala de 1 a 5, em que o 1 é extremamente introvertido e 5 é extremamente extrovertido, a média foi de 3,34 em 2011 e 3,39 em 2013.

Tínhamos o mesmo número de introvertidos, mas agora, mais estudantes estavam dispostos a admiti-lo publicamente. Quando perguntei o que os tinha levado a ficar mais à vontade em sair das sombras, a resposta mais comum foi o livro de Susan Cain O Poder dos Quietos - Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Antes de ler o livro, eles viam a introversão como desvantagem. Como lamenta a atriz Emma Watson (pense em Hermione Granger, dos filmes Harry Potter): "Se você é qualquer coisa que não seja uma extrovertida, é induzida a pensar que há algo de errado com você".

Graças ao texto sensacional de Susan Cain, o estigma da introversão está se desfazendo. As pessoas reconhecem que a introversão é acompanhada de pontos fortes, não apenas vulnerabilidades. Essa consciência não se restringe a estudantes: já pude ver a mesma tendência entre executivos seniores. Muitos líderes vêm saindo do armário da introversão.

Mas tenho observado que, não obstante a crescente aceitação social e profissional, os introvertidos ainda são altamente incompreendidos. As pessoas podem estar revelando mais sua introversão, mas ainda se apegam a pressupostos que não resistem ao teste das evidências rigorosas. É hora de desfazer cinco mitos:

Mito 1: "Os extrovertidos se energizam com as interações sociais, enquanto os introvertidos se energizam refletindo reservadamente sobre seus pensamentos e sentimentos."

Embora muitas pessoas pensem que é verdadeira a frase acima, tirada da MBTI [a classificação tipológica de Myers Briggs], pesquisas extensas sugerem que ela é falsa.

Os introvertidos passam mais ou menos tanto tempo com outras pessoas quanto passam os extrovertidos, e sentem prazer igual nisso.

Quando pessoas são instruídas aleatoriamente a agir como extrovertidas ou introvertidas, tanto extrovertidos quanto introvertidos sentem-se energizados quando falam mais.

• Os extrovertidos relatam sentir mais energia quando estão sendo faladores e assertivos -- mas os introvertidos, também. Isso ocorre quando as pessoas avaliam sua energia durante 45 horas diferentes ao longo de duas semanas ou semanalmente ao longo de dez semanas: as horas e semanas que nos energizam são, para todos nós, aquelas que envolvem mais interação social ativa, independentemente de estarmos trabalhando, lendo, comendo ou curtindo uma festa.

Essa constatação não deve surpreender: a interação social é o sal da vida, em parte porque satisfaz a necessidade humana fundamental de fazer parte de um grupo. Portanto, se a diferença entre introvertidos e extrovertidos não está naquilo que os energiza, qual é essa diferença?

A diferença está na sensibilidade aos estímulos. Se você é introvertido, apresenta tendência maior a ser estimulado em excesso por interações sociais intensas ou prolongadas -- e, nesse momento, refletir sobre seus pensamentos e sentimentos pode ajudá-lo a recarregar as baterias. Mas a introversão-extroversão não se define apenas pela interação social. Os extrovertidos anseiam por atividades estimulantes, como praticar paraquedismo ou tomar bebidas estimulantes. Os introvertidos tendem mais a se retirar para um lugar tranquilo, mas gostam de levar alguém com eles para esse lugar.

Desde que esse alguém não seja um extrovertido extremo, porque, sejamos sinceros, isso seria exaustivo.

Mito 2: Os introvertidos sofrem de forte ansiedade quando precisam falar para uma plateia.

Em seu livro, Susan Cain descreveu o terror que sentia, sendo introvertida, quando se preparava para um discurso que teria que fazer: "São 2h da manhã, não consigo dormir e tenho vontade de morrer. Normalmente não sou do tipo suicida, mas essa é a noite antes do grande discurso, e minha cabeça está pipocando de hipóteses apavorantes. E se minha boca secar e eu não conseguir proferir uma palavra sequer? E se eu deixar o público entediado? Se eu vomitar em cima do palco?"

Supomos que o dom da palavra pertença aos extrovertidos e que os introvertidos sejam fadados a ficar nervosos quando estão sobre o palco, mas é um equívoco. Em um estudo, pessoas avaliaram o grau de ansiedade que sentiriam em diversas situações como oradoras públicas. Os introvertidos realmente previram mais ansiedade que os extrovertidos, mas 84% da ansiedade em relação ao discurso público não guardava relação alguma com a questão da intro ou extroversão. Os fatores mais importantes eram se a pessoa tendia a ser ansiosa de modo geral, se previa que a plateia seria receptiva ou hostil e se previa que seria um fracasso naquele discurso específico.

Isso espelha a experiência de Susan Cain. Ela me contou que, depois de seu ano de discursar perigosamente, que incluiu uma palestra TED que foi uma das que teve a maior audiência, ela passou por uma transformação: "Ironicamente, graças ao milagre da dessensibilização e à grande alegria de falar sobre um tema que me apaixona, eu agora tenho uma carreira de... oradora pública". Hoje Cain percorre o mundo dando palestras em empresas e escolas sobre "como podem atrelar os talentos da metade introvertida de suas populações. Três anos atrás, isso teria parecido tão provável quanto eu me lançar na carreira de astronauta."

"Discursar em público não é um ato de extroversão", observa Malcolm Gladwell, outro escritor introvertido que passa muito tempo sobre um palco. "Não tem relação alguma com a extroversão. É uma performance, e muitas pessoas que a fazem são altamente introvertidas."

Mito 3: Os extrovertidos são líderes melhores que os introvertidos.

Estudos mostram que 96% dos líderes e gerentes informam ser extrovertidos. E, numa pesquisa, 65% dos executivos seniores disseram que a introversão é uma desvantagem para líderes, enquanto apenas 6% enxergavam a introversão como vantagem. Os extrovertidos devem ser líderes melhores!

Alto lá. Os extrovertidos têm mais chances de ser atraídos e selecionados para papéis de liderança, mas não são líderes melhores que os introvertidos. Quando Francesa Gino, Dave Hofman e eu estudamos a eficácia de liderança, descobrimos que extrovertidos e introvertidos têm grau igual de êxito, no todo, e que se saem melhor com tipos diferentes de funcionários. Quando os funcionários são passivos, procurando direção desde o alto, as unidades lideradas por extrovertidos apresentavam lucros 16% mais altos. Mas, quando os funcionários eram pró-ativos, fazendo sugestões e aprimorando os processos de trabalho, as unidades lideradas por extrovertidos apresentaram lucros 14% mais baixos. Os extrovertidos possuíam o entusiasmo e assertividade necessários para levar seus seguidores passivos a darem o melhor de si, mas tomavam conta das atenções de maneira que sufocavam a iniciativa de seguidores mais pró-ativos, deixando-os desencorajados ou não levando suas ideias adiante.

Os líderes introvertidos se saem bem porque validam as iniciativas de subordinados e ouvem com cuidado as sugestões feitas por eles. Doug Conant, o ex-CEO da Campbell's Soup, é um introvertido que ficou famoso por escrever mais de 30 mil cartinhas de agradecimento personalizadas a seus funcionários. Seria difícil imaginar um extrovertido fazendo o mesmo. O general Charles Krulak, ex-comandante do Corpo de Marines dos EUA, também se apresentou a mim como introvertido. Quando assumiu como CEO de um banco, ele se sentou com os vice-presidentes e disse: "Todo o mundo que está em volta desta mesa sabe tão mais que eu sobre bancos que já esqueceu mais do que tudo o que eu sei. Por essa razão, vou precisar dos seus conselhos e vou buscá-los. Posso nem sempre concordar com vocês; se não concordar, eu lhes direi o porquê. Se vocês chegarem a um ponto em que sintam que não podem trazer seus problemas a mim, é porque terei fracassado como líder."

Mito 4: Os extrovertidos são melhores que os introvertidos em fazer networking.

Pense na pessoa que você conhece que é melhor em fazer networking, e o mais provável é que tenha pensado num extrovertido. É mais fácil bater papo quando você é extrovertido e sociável, e já vi introvertidos recuarem, constrangidas, quando Keith Ferrazzi os desafia a saírem de sua zona de conforto e Nunca Comerem Sozinhas.

Contra esse pano de fundo, quando eu estava fazendo pesquisas para meu primeiro livro fiquei estarrecido ao descobrir que o networker mais hábil, segundo a Fortune, era um engenheiro de computação introvertido. É verdade que os extrovertidos têm redes de contatos maiores, além de mais amigos no Facebook. Mas descobrimos que fazer um ótimo networking não tem a ver com quantidade. Na busca por empregos, pesquisas mostram que os extrovertidos fazem networking mais intenso, mas que isso não se traduz em mais empregos.

Conseguir um emprego está ligado à qualidade e diversidade dos relacionamentos que você constrói, não ao número de pessoas que você contata ou ao número de vezes em que se comunica com elas. Se você estereotipa os extrovertidos como sendo carismáticos e os introvertidos como sendo fechados, repense isso. É verdade que os extrovertidos sentem mais emoções positivas que os introvertidos, mas eles nem sempre levam outras pessoas a sentir essas mesmas emoções positivas. Estudos sobre grupos de trabalho mostram que os extrovertidos na realidade suscitam mais emoções negativas nos outros, têm relacionamentos um pouco mais difíceis com seus colegas de equipe e começam com um status mais alto, mas o perdem com o passar do tempo. Colegas de trabalho relatam que os extrovertidos têm tendência maior a ser dominadores que os introvertidos (é difícil irritar pessoas quando elas nem sequer notam que você existe) e apresentam comportamentos brincalhões ruidosos que criam altas expectativas iniciais, mas não fazem contribuições que correspondam a essas expectativas criadas.

Além disso, não é incomum que introvertidos se sintam tão à vontade quanto extrovertidos fazendo networking. Isso é porque a timidez é um traço separado: como escreve o psicólogo Philip Zimbardo, é a tendência a ser hesitante e sentir-se envergonhado ao tratar com pessoas que são "emocionalmente ameaçadoras". Existem muitos extrovertidos tímidos: eles se sentem pouco à vontade interagindo com estranhos, mas adoram ir a shows de rock. E muitos introvertidos são sociáveis: em festas, eles batem papo com pessoas que não conhecem, mas em pouco tempo se sentem incomodados por luzes fortes e barulho demais.

Mito 5: Os extrovertidos são vendedores melhores que os introvertidos.

Depois de desfazer os quatro primeiros mitos, gosto de propor um desafio. Se os extrovertidos não são melhores como líderes ou em fazer networking, você pode identificar uma área em que eles tenham desempenho melhor? A resposta mais comum é "vendas": vendedores precisam ser entusiásticos, sociáveis e assertivos. Mas, quando olhei para as evidências, a correlação média entre extroversão e performance em vendas foi um grande zero.

Por quê? Dan Pink me deu a resposta: esquecemos de levar em conta os ambivertidos, que estão na metade do espectro. A maioria das pessoas é ambivertida, e não introvertida ou extrovertida: pessoas quietas em algumas situações e ruidosas em outras, que alternam entre buscar estar no centro das atenções e ficar nos bastidores. Dito e feito: quando estudei receitas de vendas, os ambivertidos proporcionavam mais receita que os introvertidos ou os extrovertidos. Enquanto extrovertidos tendem a dominar a conversa e preponderar demais e os introvertidos às vezes são demasiado reservados e relutam em fazer propaganda de seus produtos, os ambivertidos possuem a flexibilidade necessária para adaptar-se ao que a situação requer. Portanto, se você é introvertido ou extrovertido e quiser aumentar seu poder de persuasão e exercer influência, siga o conselho do fascinante livro To Sell Is Human, de Dan Pink: "Entre em contato com o ambivertido que existe dentro de você".