OPINIÃO
08/12/2015 21:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Como é trabalhar com refugiadas sírias recém-chegadas à Grécia

Aqui em Kara Tepe, Lesbos, é a primeira vez, desde que vim para a Grécia, que sinto que realmente estou fazendo algo significativo.

*Por Anna Karabet

Eu sou síria e me mudei para a Grécia em 1993. Meus irmãos já estavam aqui e vim para ficar com eles. Sou formada em matemática, mas quando cheguei, trabalhei em empregos variados: lavava pratos e era babá. Também dei aulas particulares de matemática para crianças sírias, mas não fazia pelo dinheiro e sim porque amo minha profissão. No início, a vida na Grécia foi muito difícil, eu não falava o idioma. Agora me sinto em casa.

Aqui em Kara Tepe, Lesbos, é a primeira vez, desde que vim para a Grécia, que sinto que realmente estou fazendo algo significativo. Desta vez, sou a mesma pessoa que eu era na Síria.

Quando a crise de refugiados começou em Lesbos, eu estava assistindo à chegada das pessoas às ilhas pela TV e fiquei pensando em formas de ir para lá também. Pouco tempo depois, soube que a ActionAid estava procurando mulheres que falassem árabe para o Espaço de Acolhimento de Mulheres em Lesbos, para ajudar com os refugiados sírios. Liguei imediatamente. Aqui, eu me esqueço de tudo: minha cabeça está 100% em Kara Tepe.

Para mim, isso não é um emprego. Ontem cheguei a Kara Tepe tarde da noite. Hoje de manhã, quando algumas pessoas que estavam no espaço me viram, gritaram: "vem aqui, me dê um abraço". Não posso ver isso como um emprego.

Percebo que quando uma mulher bate à porta do Espaço de Acolhimento e me ouve falando árabe, ela se acalma. E quando eu digo que sou síria, vejo alegria em seus rostos. Aos poucos, começamos a conversar: sobre a travessia pelo mar, sobre as vidas que levavam na Síria, o que aconteceu em suas cidades, os familiares que deixaram para trás. Elas querem falar sobre a vida em seu país. E eu começo a contar sobre seus direitos. Às vezes, percebo que elas têm dificuldade em deixar nosso espaço, embora queiram ser registadas o mais rápido possível para continuar a viagem.

Elas chegam muito cansadas, por tantas coisas que já sofreram, mas acredito que saiam daqui mais fortes e serenas. Elas vão embora sabendo o que as espera pela jornada, conhecendo seus direitos como refugiadas e como mulheres. Toda a família se organiza em torno das mulheres. Quando um projeto é direcionado para elas, a família inteira é beneficiada. Como essas mulheres serão capazes de apoiar seus filhos se não forem fortes o suficiente?

Um dia, crianças refugiadas me contaram que o Estado Islâmico as obrigou a assistir a decapitações. Meu coração dói quando ouço essas histórias. Mas o momento mais difícil para mim foi quando uma mulher chorando muito se aproximou. Ela havia perdido seu marido e seu bebê de sete meses. Eles haviam se afogado. O corpo do bebê foi encontrado, mas não o do marido. O esposo estava segurando o filho nos braços dentro do barco e os dois caíram. Essa mãe chorou o dia inteiro. Não há conforto em casos como esse.

As pessoas me perguntam onde eu encontro forças para esta missão. Não é uma questão de força, não tenho escolha. É uma questão moral. Eu preciso dar apoio a essas pessoas, é tudo o que penso. Há uma coisa que acho gratificante: quando as mulheres partem, elas dizem um "obrigada" muito sincero, que vem do coração. É recompensador. São pessoas das quais nunca esquecerei.

Nunca achei que isso aconteceria na Síria. Não há lugar no mundo como aquele país. E o que o torna único são as pessoas. Os sírios são um ótimo povo, sempre cuidando uns dos outros. Por exemplo, se você está grávida, seus vizinhos cuidarão de você até o bebê nascer. Na Síria, você nunca está só. Sempre tem alguém na sua casa, fazendo uma visita. Ontem eu vi uma mulher chorando muito. Ela não estava chorando por causa do seu sofrimento. Ela estava chorando pela Síria. Tudo o que ela conseguia dizer sem parar era: "a Síria acabou, acabou".

*Anna Karabet trabalha como mediadora cultural no Espaço de Acolhimento de Mulheres montado para dar apoio a refugiadas que chegam a Kara Tepe, em Lesbos, na Grécia. A ActionAid montou dois centros como esse no país, um em Kara Tepe e outro em Moria. Desde 16 de outubro, cerca de 3200 pessoas foram atendidas. Os serviços oferecidos são: apoio psicológico, encaminhamentos para atendimento, informação relacionada a direitos das mulheres e distribuição kits de higiene.

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