OPINIÃO
08/12/2018 02:00 -02 | Atualizado 08/12/2018 02:00 -02

Da guerra na Síria à redescoberta no Brasil: A trajetória de Salsabil Matouk

Ela deixou a farmácia que tinha em Douma e todas suas lembranças. Em São Paulo, abriu restaurante e seu rosto hoje estampa um painel no centro da cidade.

A refugiada síria Salsabil Matouk, com o marido, Salim, e os filhos Jury, Walid e Yasmin.
Érico Hiller/ Acnur
A refugiada síria Salsabil Matouk, com o marido, Salim, e os filhos Jury, Walid e Yasmin.

Por Nina Borges

Na mesa de sua casa em São Paulo, homus, coalhada, berinjela recheada com castanhas, geleia de figo e azeitonas temperadas trazidas por conhecidos foram cuidadosamente dispostas. Seus pais e sogros enviam através de conhecidos pequenas lembranças do sabor de casa. O café com extra cardamomo toma conta da sala. A conversa flui em torno da mesa. São momentos como esse a que ela se refere quando diz que sente saudade da vizinhança. Hoje, são poucas as famílias árabes na região onde mora e as tardes podem ser solitárias sem ter com quem compartilhar o chá.

Salsabil Matouk, 32, nasceu em Jableh, uma pequena cidade na costa da Síria, mas ainda pequena foi morar na Arábia Saudita com os pais, seus cinco irmãos e duas irmãs. Hoje ela estampa um mural de 20 metros na Avenida Minhocão, em São Paulo, e tem a Cozinha de Salsabil, um buffet de pratos árabes tradicionais, com o qual complementa a renda familiar.

Érico Hiller/ Acnur
Painel estampa o rosto da refugiada síria Salsabil Matouk no centro de São Paulo

Mas sua formação não é em Gastronomia. Ela fez faculdade de Farmácia, na Jordânia, e lá conheceu o marido Salim, com quem é casada há 8 anos e tem 3 filhos: Jury, 7, Walid, 4, e Yasmin, de 1 ano e meio.

Assim que se formaram e se casaram, o casal foi morar na casa que a família de Salim tinha em Douma, a 10 km da capital Damasco, na Síria. Lá Salsabil abriu sua própria farmácia e Salim trabalhava como gerente em uma representante farmacêutica. A vida era boa.

"Tudo tinha muita vida lá. As pessoas circulavam pela cidade a qualquer hora e os restaurantes e lojas não fechavam. Era seguro e cheio de vida."

Mas em 2011 tudo mudou. A guerra na Síria foi devastadora. Metade da população foi forçada a deixar suas casas. Depois de 7 anos de guerra, mais de 5 milhões de pessoas são refugiadas sírias registradas e o país tem 6 milhões de deslocados internos. Estima-se que 500 mil pessoas tenham morrido. Casas, escolas e hospitais foram destruídos diante dos olhos do mundo. Cidades inteiras desapareceram.

Tudo tinha muita vida lá. As pessoas circulavam pela cidade a qualquer hora e os restaurantes e lojas não fechavam. Era seguro e cheio de vida

"Quando tinha bombardeio, todos os moradores desciam para o primeiro andar, pois era o lugar mais seguro para ficar. Quando amanhecia, saíamos para a rua e víamos prédios e casas destruídos e corpos nas ruas. Então limpávamos tudo. Eu não lembro muito dessa época, mas meu marido ainda sofre muito. Ele perdeu familiares."

Hoje a maioria dos refugiados sírios vive em países vizinhos, como Jordânia, Turquia e Líbano, em situação de extrema pobreza: nove em dez refugiados sírios vivem em comunidades de acolhimento nos países vizinhos.

"Quando a guerra começou, nós ainda ficamos um tempo. Vivemos um ano com a guerra, indo para a Jordânia e Arábia Saudita, onde tínhamos família, quando as coisas pioravam, mas a gente não conseguia emprego e eles estavam dificultando a liberação do visto de permanência."

Érico Hiller/ Acnur
"O que eu sinto mais falta é da minha casa. Não consegui salvar nada, deixei tudo como estava."

Com o agravamento da guerra, Salsabil e Salim se viram sem escolha: teriam que partir. Eles já tinham uma filha, Jury, e Salsabil estava grávida do segundo. A situação ficava cada vez mais insustentável. Pensaram em ir para Alemanha ou Canadá, mas os países haviam dificultado a entrada de sírios. Então um conhecido da família sugeriu o Brasil. Graças ao programa de vistos humanitários estabelecido pelo governo brasileiro, conseguiram vir.

"O que eu sinto mais falta é da minha casa. Não consegui salvar nada, deixei tudo como estava. Na última vez que consegui voltar, meu passarinho ainda estava vivo, dentro da gaiola, no mesmo lugar em cima da geladeira onde havia deixado quando fugimos um mês antes. Coloquei ele em um potinho e levei comigo. Foi a coisa mais importante que peguei. Até meu álbum de casamento ficou para trás. Não tenho uma foto do meu casamento", lembra.

"Eu sabia que não íamos mais voltar, então peguei todas as plantas e coloquei no piso do banheiro com água. Pelo menos assim elas iam viver até quando desse. Eu tinha uma farmácia e não sei o que aconteceu com ela. Tive que trancar e deixar tudo lá, nem sei se está de pé ainda."

Em 2014, Salsabil e Salim juntaram o que havia sobrado de suas economias e vieram para o Brasil em busca de uma vida em paz. Com a ajuda do Acnur (Agência da ONU para refugiados), conseguiram revalidar seus diplomas. Apesar disso, foi muito difícil encontrar emprego na área de formação. Salim hoje trabalha meio período em uma transportadora e enfrenta uma jornada de 2,5 horas até o trabalho. Para chegar, pega 6 conduções.

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Salsabil revalidou seu diploma de Farmácia, mas teve que criar a Cozinha de Salsabil para gerar renda

Salsabil também revalidou seu diploma, mas teve que criar a Cozinha de Salsabil para gerar renda. Ela participou das oficinas do projeto Empoderando Refugiadas, apoiado pelo Acnur, onde recebeu assessoria para montar seu negócio.

O Acnur atua na emergência da Síria desde o começo, sendo a principal agência da ONU em proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro do País. No Brasil, com o apoio de parceiros locais, a agência contribui com cursos de português, revalidação de diploma, documentação e atuando para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.

Durante a guerra, muitas vezes não tinha eletricidade, nem água e tínhamos que estocar alimentos. Não tínhamos energia, nem sinal de celular, mas tínhamos vassouras. Batíamos no teto ou na parede, e a vizinha descia para tomar um café.

Apesar do esforço de integração, Salsabil conta que sente falta do laço que havia entre as pessoas na Síria.

"Durante a guerra, muitas vezes não tinha eletricidade, nem água e tínhamos que estocar alimentos. Nós não tínhamos energia, nem sinal de celular, mas tínhamos vassouras. Assim batíamos no teto ou na parede e a vizinha descia para tomar um café."

Ela fala diariamente com sua mãe pelo WhatsApp e acha uma pena que seus filhos estejam crescendo longe dos sobrinhos, que agora também não conhece. Mas, como em sua vida não parece haver muito espaço para nostalgia, ela logo arruma algo para fazer. Aprendeu a cozinhar sozinha, inspirada nas receitas da mãe. O hábito começou quando saiu da casa dos pais para estudar.

"Pra mim não existe 'não'. Se me perguntam se eu faço tal coisa, digo que sim mesmo sem saber e vou aprender até dar certo."

Ansiosa para a produção de uma encomenda de quase 5.000 unidades de doces e salgados árabes, ela se despede de nós com o brilho nos olhos de quem está reconstruindo a vida ao redor de algo que faz com amor.

Érico Hiller/ Acnur
"Pra mim não existe 'não'. Se me perguntam se eu faço tal coisa, digo que sim mesmo sem saber e vou aprender até dar certo."

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.