OPINIÃO
02/11/2017 17:22 -02 | Atualizado 02/11/2017 17:30 -02

Satyrianas e a Praça Roosevelt: O embate entre uma cidade aberta e o sequestro dos espaços públicos por uma minoria

Na prática, há um veto à presença de jovens da periferia nas ruas do centro.

Praça Roosevelt passou de um local perigoso para um dos locais mais vibrantes de São Paulo.
Denize Bacoccina
Praça Roosevelt passou de um local perigoso para um dos locais mais vibrantes de São Paulo.

Por Denize Bacoccina*

Neste feriado prolongado (2 a 5) acontece mais uma edição do Satyrianas, um festival criado pela companhia de teatro Os Satyros com ampla programação cultural (teatro, música, circo e programação infantil). Até o ano passado, ele ocupava a Praça Roosevelt para uma grande festa, geralmente gratuita ou na base do pague quanto puder.

Nesta 18ª edição, no entanto, uma surpresa: o festival foi impedido de usar a Roosevelt. O espaço estava totalmente degradado em 2000, quando Os Satyros instalaram na rua o seu teatro e ajudaram a trazer público e as atenções da cidade para o lugar.

A proibição estava escondida em um decreto do início de fevereiro, feito sob medida para acabar com o carnaval na praça, e de quebra proibindo qualquer outro tipo de manifestação, em qualquer horário do dia e da noite.

O estranho é que a Praça Roosevelt, um local que nos anos 1990 era perigoso, escuro, frequentado apenas por traficantes, viciados, prostitutas, michês e seus clientes, tornou-se, nos últimos anos, um dos locais mais vibrantes de São Paulo. E isso graças, justamente, ao perfil artístico que voltou ao local.

Os antigos frequentadores, clientes dos traficantes e dos michês, deram lugar a um público diversificado: moradores com seus cachorros, pais ensinando os filhos a andar de bicicleta, aulas a céu aberto de malabares, bambolê, prática de yoga, tai chi chuan, e, claro, grupos de amigos tomando cerveja e skatistas até tarde da noite.

O local também atraiu um público novo, que veio se somar aos antigos moradores: casais jovens, de todas as colorações de gênero, solteiros e gente de um modo geral interessada na vibração de um local onde, em apenas um quarteirão, se concentram seis teatros e 12 bares. A mais recente aquisição é a volta do Cine Bijou, agora como cineclube, com programação inicialmente aos sábados e planos de se tornar permanente no próximo ano.

Sinal de alerta

A proibição de usar a Praça Roosevelt prejudicou, mas não impediu a realização do Satyrianas, que já encontrou outros locais. Inclusive dois teatros na Luz que também estão buscando transformar a vizinhança pela arte.

Mas é um sinal de alerta e do embate que se vive hoje no centro de São Paulo: a região voltou a se tornar um centro de atração para uma maioria que quer uma cidade aberta, onde várias tribos dividem o espaço e negociam uma convivência harmônica; e uma minoria, que sequestrou as representações, como instituições (Conseg - Conselho de Segurança) e associação de moradores. Eles querem que as praças sejam desfrutadas apenas pelos moradores da vizinhança em frente.

Na prática, um veto à presença de jovens da periferia nas ruas do centro. Uma forma velada de preconceito, como se o dono de um apartamento fosse também dono da rua em frente, ou da vista que se projeta da sua janela.

Um projeto em tramitação – ou engavetado – na Câmara dos Vereadores prevê a transformação da Roosevelt em um parque. A justificativa oficial é que ela seria melhor cuidada, mas o que se esconde é o desejo de cercar o local e impor horários de funcionamento, afastando os visitantes.

Um risco ao livre acesso a um dos poucos locais seguros, iluminados, frequentados por pessoas de todas as classes e em todos os horários, com postos da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. A implicância com os skatistas é um caso a ser estudado por profissionais da área médica, tal o nível de neurose e intolerância.

Esse embate também está presente nas discussões sobre o destino do Minhocão. Transformado apenas oficialmente em um parque, o Minhocão hoje tem uma dupla função: viaduto para carros durante a semana, até às 21h30, e aos sábados até 15h; e área de lazer à noite e nos fins de semana.

Embora não esteja de acordo com o imaginário da maioria sobre como deve ser um parque – árvores e laguinho com carpas, talvez? -, o espaço é o único onde uma população urbana que vive na região pode tomar sol e fazer uma caminhada sem se preocupar com o risco de atropelamento. Aqui também as atividades de lazer estão ameaçadas pela intolerância de alguns, que se incomodam com a crescente ocupação dos espaços públicos por todos.

Ainda não está claro o que a gestão municipal vai fazer. Afundada por problemas muito maiores, a Prefeitura de São Paulo parece apostar no imobilismo. Não fazer nada para ver como fica. Olhar para o outro lado para ver se o problema vai embora sozinho.

Ao fazer isso, no entanto, o poder público se exime da sua tarefa de mediador de conflitos e de tentar uma solução que, se não é de consenso, seja ao menos equilibrada. Sem essa mediação, corre-se o risco de uma minoria tomar para si os espaços que devem ser de todos. É preciso ficar vigilante para evitar que isso aconteça.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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