OPINIÃO
16/01/2018 23:51 -02 | Atualizado 16/01/2018 23:51 -02

São Paulo: Uma cidade para os carros ou para as pessoas?

Depois de um ano de administração João Doria, está claro que a atual gestão não está em sintonia com um conceito contemporâneo de cidade.

Paulo Whitaker / Reuters
Atual gestão foca muito em carro e pouco em pedestre e ciclista.

Por Clayton Melo

São Paulo completa 464 anos neste ano. A metrópole chega a 2018 com o desafio de pensar seriamente sobre seu futuro. Melhor dizendo, todos nós que gostamos dela devemos refletir: que São Paulo queremos? Uma cidade para as pessoas, que privilegia a qualidade de vida, o andar a pé e o convívio no espaço público, ou uma cidade voltada para os carros, muros altos, grades, um lugar que assusta e intimida?

É fundamental que todos aqueles que a desejam aberta, saudável e acolhedora fiquem atentos, porque conquistas importantes estão sendo perdidas em nome de uma visão que acelera rumo ao passado.

Depois de um ano de administração João Doria, está claro que a atual gestão não está em sintonia com um conceito contemporâneo de cidade. O sinal mais gritante disso foi o aumento da velocidade nas marginais. Desconsiderando estudos, dados, pesquisas e recomendações de especialistas em segurança de trânsito – inclusive internacionais -, o prefeito aumentou o limite.

Resultado: subiu o número de acidentes e mortes nessas vias. Em vez de parar e analisar a questão friamente, a prefeitura age como quem não quer dar o braço a torcer e insiste em arrumar desculpas para o indesculpável. Tão grave quanto o fato em si é o sinal enviado: em vez de acalmar o trânsito, a prefeitura passa o recado de que não se importa com as vidas humanas, mas com o conforto de quem está atrás da direção.

Outro exemplo: em julho do ano passado, a prefeitura cortou R$ 132 milhões de investimentos em obras e corredores de terminais de ônibus. Por quê? Porque o prefeito, ao assumir, não reajustou a tarifa, uma medida que era tecnicamente necessária, o que resultou no aumento expressivo do subsídio dado às empresas. A estimativa era que o rombo nas contas provocado pela medida chegasse a R$ 3 bilhões.

Dez entre dez estudiosos e pesquisadores da mobilidade urbana dirão que o transporte coletivo deve ser priorizado em detrimento do automóvel individual. Isso se traduz em investimentos e política pública. Não é o que aconteceu nesse caso, assim como também não é o que vem acontecendo com as ciclovias.

Nesse ponto, a situação é ainda pior. Uma lei aprovada em novembro praticamente inviabilizou o surgimento de mais espaços destinados às bicicletas em São Paulo. De autoria de um vereador do PSDB e sancionada pelo prefeito, o texto determina que a criação de novas ciclovias só poderá ser feita depois da realização de audiências públicas e apresentação de estudos de demanda de impacto viário. Em resumo, burocratizou o processo, colocando uma série de obstáculos.

Mirem-se no exemplo

Enquanto isso, outras grandes cidades seguem em direção oposta. Se São Paulo prefere acelerar em direção ao passado, Londres, por exemplo, mira um futuro sustentável e amigável para seus cidadãos. O prefeito da capital inglesa, Sadiq Khan, lançou em dezembro do ano passado um esboço de um plano ousado. Entre as metas estabelecidas pelo projeto, que devem ser alcançadas até 2029, está a quase completa proibição de estacionamentos para carros.

O grande objetivo é combater a poluição do ar e estimular a "pedestrianização" das principais avenidas, como a Oxford Street -- isso sem falar na defesa do uso do biocombustível derivado do café nos ônibus.

"O predomínio de veículos nas ruas é uma barreira significativa para o caminhar e o pedalar e reduz o apelo das ruas como espaços públicos", diz o plano. Para que essa restrição radical aos carros privados possa ser feita, Londres já se prepara para aumentar e aperfeiçoar a malha de transporte coletivo, principalmente com novas linhas de trem e de metrô.

É fácil fazer isso? Claro que não. O importante nesse caso é a direção estabelecida. Londres indica que pensa a longo prazo, procurando caminhos para promover a qualidade de vida e a sustentabilidade.

No fundo, o que está por trás do modelo escolhido por Londres é a ideia de uma cidade para as pessoas, conceito formulado pelo arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl. Reconhecido como um dos grandes pensadores do urbanismo no mundo, já realizou projetos em Nova York, Londres, São Francisco, Sidney e até mesmo São Paulo e Rio de Janeiro.

De modo bem resumido, uma cidade para as pessoas é aquela em que o planejamento urbanístico privilegia o convívio no espaço público, uma cidade para ser percorrida a pé ou de bicicleta.

Não se trata de demonizar o carro. O automóvel tem o seu momento e sua utilidade, mas não deve ser a prioridade em um projeto urbano. "Eu gostaria que as pessoas fossem tão visíveis para os planejadores quanto foram os carros nos últimos 50 anos", disse Gehl numa entrevista à BBC. "Todas as cidades têm um departamento de trânsito para contar carros, mas nenhuma cidade tem um departamento de pedestres."

Em outra entrevista, publicada no ArchDaily, Gehl sintetiza muito bem o que deveríamos buscar como ideal de cidade. "Na minha opinião, nós precisamos fazer bairros ou centros de cidades muito melhores, baseados na ideia de pessoas caminhando muito mais e pedalando muito mais quando isso for possível. Muitas cidades decidiram fazer isso."

Sim, muitas cidades decidiram fazer isso. E São Paulo? Vamos acelerar rumo ao passado ou vamos pensar nas pessoas?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.