OPINIÃO
25/09/2018 10:00 -03 | Atualizado 25/09/2018 10:20 -03

Por que é bom que as pessoas saiam de casa e ocupem as ruas das grandes metrópoles

A ocupação do espaço público tem várias vertentes: desde andar mais a pé até retomar a função de lazer coletivo desses espaços.

Getty Images/iStockphoto
Carnaval de SP: exemplo do anseio dos paulistanos de deixar a reclusão do lar e conviver no espaço público.

Por Denize Bacoccina

Em 1993, quando me mudei para São Paulo, morava num apartamento em Santa Cecília e trabalhava na Alameda Barão de Limeira. Ia e voltava a pé – mesmo saindo depois das 20h – e na época não tinha medo de andar naquela região sozinha. No ano seguinte, quando passei a trabalhar na Marginal Tietê, praticamente deixei de andar a pé pela cidade. Ainda que eu preferisse os locais abertos, eles eram raros na cidade. Naquela época havia mais lugares funcionando de madrugada e os programas terminavam mais tarde do que hoje, mas eles nunca incluíam andar a pé por espaços públicos. A praça do bairro, bastante charmosa (hoje um parque), com árvores frondosas, não era um local muito frequentado.

Vinte anos depois, e após ter morado em Londres, Washington e uma longa temporada em Brasília, cidade construída para carros, volto a São Paulo e encontro uma outra cidade. Não apenas mais bonita, depois de várias iniciativas do setor público para plantar árvores nas marginais, tirar a poluição visual das fachadas dos prédios e os letreiros luminosos que confundiam os motoristas.

São Paulo, hoje, também é mais querida por seus moradores.

Encontrei também uma cidade que redescobriu a vantagem e o prazer do espaço público e uma juventude que não parece se conformar com o medo. Não aceita uma vida atrás das grades e quer retomar o uso coletivo das ruas, dos parques e praças. Quer o direito de protestar, mas não só. Também quer usar as ruas para se divertir.

Contra o medo que paralisava e trancava em casa ou dentro de vidros escuros a geração anterior, quer tornar os lugares mais seguros por meio do seu uso coletivo. Para citar a jornalista americana Jane Jacobs, a mais conhecida especialista em questões urbanas, as pessoas são os "olhos da rua" e se protegem mutuamente quando transitam em lugares públicos, por isso a importância de ruas com prédios de uso residencial e comercial, garantindo movimento o tempo todo. Apesar da diversidade assustar alguns visitantes não habituais do Centro de São Paulo, a região tem um dos menores índices de homicídios da cidade.

Tendência internacional

Essa tendência de ocupação dos espaços públicos não é exclusiva de São Paulo. Nova York, a própria tradução de metrópole no século 20, a cidade que nunca dorme, agora tem uma ciclovia atravessando Manhattan. O que chama atenção em São Paulo é a velocidade da mudança. O confinamento em espaços fechados, puramente de consumo, vem dando lugar a uma outra dinâmica, a uma vida que leva mais em consideração o ambiente em que se vive.

A ocupação do espaço público tem várias vertentes: desde andar mais a pé, evitando congestionamentos e o estresse produzido por eles, até retomar a função de lazer coletivo desses espaços. Para que serve uma praça, afinal, se não para a convivência entre os cidadãos?

São Paulo também tem dado lições na ressignificação dos espaços outrora pensados apenas para os carros. É o caso do Minhocão. Monstrengo de concreto criado pelos militares sem qualquer consideração com o bem-estar de quem morava na região, buscando apenas a maior velocidade dos carros, foi aos poucos se transformando num espaço de lazer e hoje é frequentado por milhares de pessoas nos fins de semana ou depois das oito da noite.

A avenida Paulista, aos domingos, é outro exemplo. A reclamação inicial de alguns foi abafada pela euforia de um número muito maior, feliz por usufruir, a pé, de um espaço tão nobre da cidade.

O Carnaval é nosso

Mas o exemplo maior da vontade dos paulistanos de deixar a reclusão do lar e conviver no espaço público é a explosão do Carnaval de rua. Até pouco tempo atrás os únicos lugares com movimento no Carnaval eram as estradas e os aeroportos. Hoje a folia não apenas fez o paulistano deixar de viajar: virou uma data no calendário turístico da cidade, que recebe centenas de milhares de visitantes de outros Estados para comprovar que São Paulo não é o túmulo do samba. E as ruas ficaram coloridas, com pessoas de todas as idades querendo se divertir. E o melhor: as tentativas de transformar a manifestação num evento puramente comercial encontraram resistências entre os próprios organizadores, que não querem perder a essência do movimento.

Essa efervescência, essa vontade de ocupar os espaços antes relegados também mostra a precariedade do setor público para lidar com essa nova demanda. Quem anda a pé percebe mais o estado lamentável das nossas calçadas, vê que a cidade não acolhe seus destituídos e verifica que, se a crise jogou milhares de desempregados nas ruas, o poder público não tem feito nada para ajudá-los a encontrar um lugar decente para viver. Até agora, a resposta tem sido mínima. A vantagem é que agora tem mais gente cobrando.

Evento para discutir o espaço público

Todos esses assuntos serão debatidos na segunda edição do Diálogos A Vida no Centro, nesta quarta-feira, dia 26 de setembro, que tem como tema "A Retomada do Espaço Público". O evento, realizado pelo A Vida no Centro, acontece na SP Escola de Teatro, na Praça Roosevelt 210, e terá a presença de vários especialistas.

A programação começa com um talk show com o mestre em urbanismo Mauro Calliari, autor do livro Espaço Público e Urbanidade em São Paulo, e segue com um debate com a participação de Alê Yousseff, um dos criadores do bloco Baixo Augusta, Mariane Broc, sócia da Places for Us, Luiz Eduardo Brettas, superintendente da SP Urbanismo, e o vereador José Police Neto, autor do Estatuto do Pedestre.

Quer participar? A entrada é gratuita, mediante inscrição neste link. Vem debater com a gente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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