OPINIÃO
11/12/2017 14:24 -02 | Atualizado 13/12/2017 16:36 -02

Minhocão, Augusta e Bixiga: uma nova visão de parques urbanos

Nem todo parque precisa de árvores e lago com carpas, mas sim de um espaço que possibilite brincar, andar de bicicleta ou bater papo com os amigos.

Moradores e manifestantes realizam ato pela criação do Parque do Bixiga.
Reprodução/Teatro Oficina/João Gabriel Hidalgo
Moradores e manifestantes realizam ato pela criação do Parque do Bixiga.

Por Denize Bacoccina

O radicalismo de um empresário, milionário, dono de inúmeros imóveis no bairro do Bixiga, pode ajudar na criação de um novo parque na região central de São Paulo. Sílvio Santos, o dono do terreno em questão, quer construir três torres de apartamentos de classe média alta em torno do Teatro Oficina, teatro histórico do Bixiga. O teatro foi fundado em 1958 pelo diretor José Celso Martinez Corrêa e cuja sede foi desenhada pela arquiteta Lina Bo Bardi, a mesma que projetou o Masp e o Sesc Pompeia.

Durante 30 anos, Zé Celso e o Oficina ficaram protegidos pela recusa do Condephaat, o órgão estadual de defesa do patrimônio artístico e cultural, em autorizar a construção das torres no local. Em outubro deste ano, no entanto, o mesmo órgão, agora com nova composição, autorizou a construção, que tem o potencial de mudar completamente o perfil artístico da região.

Lá estão ainda outros prédios históricos, como o Teatro Brasileiro de Comédia, atualmente fechado para reforma, e a Casa da Dona Yayá, construção de 1902 que hoje é administrada pelo Centro de Preservação Cultural da USP. Todos esses imóveis são tombados pelo patrimônio histórico, o que limita a construção em seu entorno.

A construção ainda precisa ser aprovada pelo órgão municipal, mas a pressão da mobilização liderada por Zé Celso pode levar o navio de Silvio Santos para a direção contrária. Num vídeo vazado pela equipe do Oficina, Silvio aparece debochando de Zé Celso e de sua pretensão de criar um espaço público. Diz que não é vergonha ser rico e que nem por isso está lá para jogar dinheiro fora.

A resposta do diretor teatral foi mobilizar artistas e militantes para sucessivas manifestações em defesa do teatro, em um movimento que vem ganhando força. O que começou como #vetaastorres já avançou para #parquedobixiga e ganhou o apoio de artistas do quilate de Fernanda Montenegro e sua filha, Fernanda Torres.

Pressão dos moradores

Se sair do papel, o parque do Bixiga será o terceiro de uma lista de parques urbanos criados na região central por pressão da opinião pública. São moradores organizados que usam todo o seu poder de voz para exigir do poder público a criação de novos espaços de lazer.

Os outros são o Parque Augusta, que surgiu de uma mobilização para proibir a construção de edifícios num terreno que é privado e será trocado pela Prefeitura por um outro lote, na Marginal Pinheiros. O projeto, negociado em conjunto com o Ministério Público, prevê a instalação de um parque mantendo as árvores que ainda existem no local e plantando outras. Enquanto o parque não sai do papel, no entanto, duas construtoras já vendem apartamentos na rua em frente, anunciando como principal atrativo a vista para a reserva verde.

O terceiro parque é o Minhocão. Chamado oficialmente de parque por uma lei sancionada neste ano, ele vai virar efetivamente um parque, com conselho gestor e tudo, a partir de um projeto que está em elaboração na Câmara e deve ser colocado em votação em breve.

O curioso é que todos esses projetos não nasceram das pranchetas de arquitetos, urbanistas ou engenheiros (embora esses profissionais estejam entre os militantes), mas de grupos de moradores, que se organizaram para pressionar o poder público pela realização de mais espaços de lazer.

Neste movimento de ocupação do espaço público, o primeiro passo foi uma demanda por atividades de consumo ao ar livre – como feirinhas e parques de food truck. Mas o jovem paulistano parece ter percebido que nem todo espaço precisa ser de consumo e que não precisa continuar sendo verdade a afirmação que "praia de paulistano é shopping center".

As ruas, praças e avenidas, ou qualquer lugar possível, também podem ser ocupadas pelo lazer. Gratuitamente. Exercendo a cidadania. E que nem toda praça precisa ser arborizada, nem todo parque precisa ter laguinho. O importante é ter gente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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