09/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 10/01/2019 19:12 -02

A luta pelo impossível e a persistência de Helenice Gama

A psicóloga e mãe de três -- um deles com Síndrome de Down -- nunca aceitou o não como resposta e faz da vida um caminho de novos possíveis.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Helenice Gama é a 308ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Para Helenice Gama Dias de Lima, 75, o impossível não existe. Se escutava um "não" como resposta, procurava outro caminho, outra solução. E o fez quando disseram que não poderia ter uma profissão, ou que teria limitações por ter um filho portador de Síndrome de Down, ou que seu filho mais velho não sobreviveria à um grave acidente ou até que não conseguiria mudar o sistema de acolhimento às famílias no processo judiciário em casos como o dele. E foi assim. Ela buscou caminhos e foi de encontro ao possível e derrubou barreiras. O segredo, segundo ela, é seguir mesmo quando os desafios insistem em aparecer.

Helenice cresceu em Uberaba, em Minas Gerais, e desde cedo sabia que escolher o próprio caminho seria um desafio. Matava as aulas de piano para fazer natação e seus pais só descobriram quando foi chamada para disputar o campeonato mineiro -- e chegou até a ser campeã no brasileiro. Em uma época em que poucas mulheres entravam em uma Universidade, ela decidiu que aquele seria também o seu lugar, independente da resistência de seus familiares.

Eu sempre tive muita certeza do que eu quero, do que eu gosto e do que queria fazer. Isso me ajudou a vencer os desafios.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Sempre me relacionei muito bem comigo mesma e entendi que era preciso ter coragem."

“Sempre fui muito determinada. Nunca me passou pela cabeça fazer outra coisa. Eu queria ser psicóloga, queria ajudar as pessoas. Quando eu via, estava sempre intermediando uma discussão. Mas a minha família era muito rígida, sair do interior e ir pra capital não era bem visto, as mulheres ficavam ‘faladas’, foi um desafio achar uma saída”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

À época, foi só depois de saber que uma de suas primas estava indo morar com o marido em Brasília (DF), que conseguiu convencer seus pais que se ela saísse de casa não estaria sozinha ― e que era um caminho que ela certamente poderia seguir. Quando entrou nos corredores da UnB (Universidade de Brasília), apesar da determinação, não deixou de sentir frio na barriga. “Lembro de não conseguir nem encontrar as salas! Eu era uma pessoa muito tímida, mas sempre me relacionei muito bem comigo mesma e entendi que era preciso ter coragem”. Quando se formou, foi atrás de um emprego e acabou na Vara da Infância e Juventude, então Juizado de Menores. “Arrumei meu currículo ― que era pequeno, de uma folhinha só ―, e marquei com o diretor. Cheguei e acabei também me apaixonando por quem hoje é meu marido.”

Quando eu me vejo numa situação difícil, costumo parar, respirar e encontrar o foco.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, mesmo aposentada e com a conta de muitas batalhas ganhas, Helenice não para.

No Juizado, ela começou a trabalhar com menores infratores e depois em casos de adoção, em especial, no atendimento à mães que iam doar seus bebês. “Foi uma fase muito difícil e desafiadora. Mas comecei a pensar mudanças, fiz projetos. Eu acho que eu gosto de situações difíceis e complicadas porque isso faz com que a gente tenha determinação e foco”, afirma. Na função de encontrar lares para as crianças, Helenice propôs estruturar melhoras às famílias para que elas pudessem ter outras opções.

Não tinha jeito? Para Helenice, se a solução não vinha por um caminho, havia de existir outro. E isso sempre esteve presente em sua vida. Ainda em Uberaba, ela conseguiu com que a comunidade participasse de uma arrecadação para construir um novo espaço na escola em que trabalhava. No Tribunal de Justiça, trabalhando com processos de separação, conseguiu motivar a mudança na compreensão da busca das famílias pela Justiça. Juntos, os envolvidos entendiam que eram capazes de resolver seus conflitos e encontrar as melhores soluções para a situação levada. “Conseguimos criar uma metodologia e fazer uma especialização jurídica patrocinada pela instituição. Ainda que primeira resposta tenha sido ‘não’ eu acreditei em um possível diferente. Não foi tão simples, mas essa luta, o trabalho todo, também nos dá força pra seguir em frente. E até hoje o que eu deixei por lá funciona”, comenta.

Eu acredito no possível, o impossível pra mim não existe. E isso me ajudou a enfrentar situações difíceis tanto no trabalho quanto com meus filhos.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Quando tá muito difícil, eu respiro fundo e vou."

A maternidade também trouxe a certeza no possível. Em 1983, depois de ter o primeiro filho e de passar por uma , ela engravidou dos gêmeos Marcelo e Ana Flávia. Ela conta que, quando deu a luz, ficou preocupada ao perceber que o menino demorou para voltar ao quarto. “Eu ficava perguntando onde ele estava e quando o médico chegou, me deu a notícia da pior forma: ‘ele tem um problemazinho, ele é Down’”, lembra. Ela logo descobriu que o filho tinha nascido também com problema grave no coração e que precisaria passar por uma operação. E foi aí que começou uma batalha em busca de médicos para o filho que estava debilitado — em menos de um ano teve 11 pneumonias. Ele foi operado com 1% de chance de sobreviver.

Mas a solução sempre tão buscada por Helenice chegou até ela. Certa tarde, estava em um parquinho próximo à sua casa com as crianças e compartilhou os problemas de saúde de seu filho com uma vizinha. Ela disse que tinha uma amiga de uma amiga que conhecia um médico em São Paulo que poderia ajudar. Ligou para a clínica e no mesmo dia havia uma desistência. Foi aí que Helenice pegou um avião direto e foi direto para lá. Marcelo chegou a ser internado pra ser operado, mas mais uma pneumonia o impediu. A cirurgia pôde ser realizada só um mês depois. “Nunca achei que não ia dar certo. Não podia dar errado. Quando tá muito difícil, eu respiro fundo e vou”.

Eu não acredito em milagre, mas nessa força dentro da gente que faz a gente construir algo novo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Como a psicóloga aprendeu, a vida sempre traz surpresas e desafios para além do controle.

Para conseguir fazer com que o filho tivesse a mesma oportunidade que outros, precisou quebrar barreiras. "Foi uma batalha, queria que ele estudasse em uma escola normal, que sabia que era o melhor pra ele. Fui em muitas e nenhuma aceitava. Tem que lutar, o tempo todo. Eu sempre ia na conversa, levava pro lado humano, não desistia", aponta. Hoje, Marcelo, com 35 anos, tem sua independência, "dentro do possível dele", como diz Helenice.

Como a psicóloga aprendeu, a vida sempre traz surpresas e desafios para além do controle. O filho mais velho, José Maurício, hoje com 38 anos, sofreu um grave acidente de carro aos 19 anos. Os dois amigos que estavam com ele faleceram e ele ficou em estado grave. "Os médicos disseram que mesmo se ele sobrevivesse, não teria uma vida normal. Eu me isolei, não conversava com ninguém, só pensava: ele vai voltar. E conversava com ele: você é corajoso, você tem força. Até que 27 dias depois ele acordou, sem sequelas. Nunca acreditei em milagres. Acreditava nele", lembra.

Hoje, mesmo aposentada e com a conta de muitas batalhas ganhas, Helenice não para. Cuida muito bem de si mesma. Faz exercícios cinco vezes por semana e se divide entre a natação, pilates e academia. Recentemente, fez um curso de equilíbrio emocional e em março deve ir a Boston para fazer outro sobre terapia familiar. "A gente não pode fugir da gente mesma, se eu ainda tenho essa energia e acho que ainda posso contribuir é importante passar isso pra outras mulheres. Não é porque eu tenho 75 anos eu vou ficar em casa e de pijama, de forma alguma. A gente tem que buscar o nosso potencial."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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