COMPORTAMENTO
04/01/2019 04:02 -02

Intérpretes de Libras defendem profissionalização e políticas de inclusão

Tema ganhou evidência com discurso em língua de sinais da primeira-dama; Em 2018, presença de tradutor foi obrigatória em toda propaganda eleitoral.

huePhotography via Getty Images

O primeiro discurso no Palácio do Planalto na posse do novo presidente, na última terça (1º), não foi feito por Jair Bolsonaro, mas pela nova primeira-dama, Michelle, e em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, com tradução simultânea para o português falado.

Intérprete de Libras em uma igreja batista, Michelle já tinha feito com que, durante a campanha, em todas as aparições do então candidato nas redes sociais, ele estivesse acompanhado de um tradutor para a linguagem de sinais. Sua iniciativa na posse, no entanto, deu ainda mais visibilidade à comunidade surda do País, que segundo o IBGE, soma cerca de 10 milhões de pessoas (que declararam não ouvir ou escutar parcialmente).

O papel do intérprete de Libras, no entanto, ainda é pouco conhecido e poucos são os brasileiros que se dedicam a aprender e ensinar a língua de sinais. O piauiense Danrley Oliveira faz parte dessa minoria.

"Trabalhei a maior parte da minha vida como intérprete. Quando eu comecei a interpretar aos 11 anos, percebi o quão isolados os surdos viviam", conta.

ASSOCIATED PRESS
Michelle Bolsonaro discursa em Libras durante a posse

"Em muitos casos, a própria família do surdo não conhecia a Língua Brasileira de Sinais. O que elas faziam era desenvolver sinais caseiros para se comunicar. Então, eu pensei: e se fosse comigo? A minha vida certamente seria muito mais complicada, já que ninguém da minha família ia conseguir se comunicar comigo, nem mesmo os meus amigos", disse o jovem de 22 anos em entrevista ao HuffPost Brasil. "Isso me motivou a querer estudar e ensinar Libras para as outras pessoas."

Foi assim que, há 3 anos, Danrley decidiu usar as redes sociais para produzir conteúdos sobre Libras. Antes disso, ele trabalhava no centro de Libras de Teresina (PI) e acompanhava surdos em atividades do cotidiano, como em consultas a médicos ou em audiências judiciais.

Para o professor, as pessoas ainda confundem essa mediação como uma forma de caridade. Por isso Danrley defende a profissionalização dos intérpretes.

"É uma oportunidade de carreira, já que ele se dedicou para aprender e se especializar na língua. Estamos lidando com a informação, e isso requer uma grande responsabilidade", explica.

Atualmente, Danrley tem mais de 90 mil de seguidores em seu perfil no Instagram. Por meio de vídeos didáticos, o professor consegue aproximar a comunidade ouvinte do universo das Libras.

Como eu sou ouvinte, é mais fácil me identificar com o português porque é o meu idioma materno. Mas a Libras é muito bonita porque é quase uma arte, é extremamente visual e mexe com você. Eu consigo me expressar bem em qualquer uma das duas, mas a Libras é mais direta. O que torna ela diferente é que ela é agradável aos olhos.

O desafio educacional dos surdos no Brasil

Um do vídeos mais acessados em seu canal do Youtube foi publicado em novembro de 2017. Na época, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) havia sido aplicado em todo o Brasil e surpreendeu pelo tema da prova de redação: "Os desafios para a formação educacional de surdos no Brasil".

"A redação do Enem trouxe visibilidade ao tema para uma faixa etária que não tinha tanto contato com a vivência da comunidade surda", diz o professor.

No vídeo de pouco mais de 16 minutos, Danrley Oliveira explica por que muitos candidatos tiveram dificuldade em abordar o tema e compartilha a sua experiência com alunos surdos e professores no ensino público brasileiro.

"As pessoas não têm informação sobre as leis que regem a educação dos surdos no País e nem têm conhecimento de Libras."

Desde 2002, a Língua Brasileira de Sinais é língua oficial do Brasil e, de acordo com a lei, possui o mesmo status que o português. Isso porque é uma língua completa e não uma linguagem, já que possui estrutura gramatical própria, mas a organização das informações é diferente das existentes no português.

Em Libras, por exemplo, não existem tempos verbais ou artigos. As expressões faciais e corporais também são tão importantes quanto os sinais. Existem casos em que os sinais podem ter o mesmo gesto com as mãos, mas se forem feitos com uma expressão diferente, mudam todo o sentido de uma frase.

"A Lei da Libras foi um avanço, mas ainda caminhamos de forma lenta nas políticas de inclusão", explica Alexandre Ohkawa, arquiteto e intérprete de Libras.

"Temos que continuar a discutir novos projetos, pois existem muitas informações equivocadas e obsoletas. É preciso incluir os educadores, filósofos, linguistas, antropólogos e sociólogos surdos nesse processo. E não deixá-lo apenas para os ouvintes."

Dificuldades dos ouvintes ao aprender Libras:

  1. Achar que Libras é uma representação do português. Achar que cada palavra tem um sinal correspondente e achar que uma estrutura de frase no português tem que ter a mesma estrutura em sinais. E não é bem assim. Às vezes, existe um sinal que não é traduzível, e vice e versa. Ou seja, a Libras é independente do português.

  2. A falta de contato com a comunidade surda. Isso impede que o aluno pratique e desenvolva o seu conhecimento de Libras.

A tradução de Libras no horário eleitoral

Em 2018, o tradução de Libras voltou ao foco da sociedade após a presença do tradutor passar a ser obrigatória em todas as propagandas eleitorais. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil tem hoje 63.859 eleitores com deficiência auditiva.

Para Alexandre Ohkawa, a tradução de Libras no horário eleitoral garante o acesso e a participação dos surdos nas decisões do País.

"Queremos tornar não só a televisão, mas também a internet o mais acessível para todos. E isso não é só para os surdos, mas o ideal seria termos legendas em altura adequada para pessoas com baixa visão, janela de Libras maior nas tela para ser possível ler as expressões faciais e corporais e programar cores específicas para as pessoas com daltonismo", enumera. "Caso você não seja deficiente, bastaria acionar as opções de ativar e desativar as ferramentas em seu aparelho. Temos muito o que evoluir ainda."