05/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 11/01/2019 19:30 -02

Frida Carla, advogada, mãe e defensora da prostituição como escolha

Ela garante que as 3 funções podem coexistir em uma só mulher: "Não há nenhuma exploração nisso, há uma troca justa e consensual."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Frida nasceu em Salvador, em uma família pobre de pai ausente, mas viveu parte de sua infância e adolescência no subúrbio de São Paulo.

 

Frida Carla conhece os dois lados da moeda: no início da juventude, foi garota de programa por necessidade, quando, na ocasião, as circunstâncias não lhe deixaram alternativa; hoje, aos 34 anos, ela tem uma profissão de prestígio e permanece trabalhando como acompanhante de luxo nas horas vagas. “Eu faço por prazer”, explica. Frida nasceu em Salvador, em uma família pobre de pai ausente, mas viveu parte de sua infância e adolescência no subúrbio de São Paulo. Engravidou aos 15 anos. “Foi pura falta de orientação sobre métodos contraceptivos. Ninguém falava comigo sobre isso”, lembra. O progenitor assumiu a paternidade de Luiz Henrique, mas nunca esteve presente material ou afetivamente.

Falta de orientação sexual pode destruir juventudes inteiras.

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"O abuso familiar é devastador, mas a gente só se dá conta depois que sai dele."

Ainda aos 15 anos, grávida e sem qualquer apoio familiar, a alternativa que restou a Frida foi fazer programas para sobreviver. “Comecei cedo, por necessidade. Era triste, porque eu era só uma menina, eu não queria me prostituir naquela época, mas precisava sobreviver e criar meu filho”, conta. Aos 23, foi aprovada no vestibular para o curso de Direito. “Eu escolhi essa profissão porque era uma profissão de status, poderia me dar conforto. Hoje, eu faria outra coisa, algo como filosofia ou jornalismo”, ressalva.

Mas ela sobreviveu, e até hoje mora com o filho – hoje com 19 anos –, e se divide entre os clientes do escritório e os clientes de seus programas. Ela voltou a trabalhar como acompanhante de luxo recentemente, mesmo estabilizada como advogada. ”É por puro prazer”, garante. 

Na época em que engravidou, além do abandono paterno, Frida relata ter sofrido abusos familiares dos quais conseguiu se libertar - curiosamente, ou nem tanto - com a ajuda de seu filho. “O abuso familiar é devastador, mas a gente só se dá conta depois que sai dele (...). Ele me abriu os olhos, me ajudou a revolucionar minha vida. Ele é responsável por tudo isso.”

Eles se divertem, e eu me divirto também – a diferença é que eu ganho por isso.

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Hoje, a advogada, mãe e prostituta - garante que as três funções podem coexistir tranquilamente em uma só mulher.

Ela conta que foi através do diálogo com o filho que descobriu que não há pecado em fazer as próprias vontades, ainda que isso contrarie a moral do senso comum. “Antes eu me prostituía por necessidade: pra sobreviver, pra criar meu filho, pra me formar... era horrível não ter outra opção. Depois de formada eu parei por um tempo, mas percebi que, na verdade, estar com pessoas diferentes me faz feliz. Então, eu tenho uma profissão, mas eu me prostituo porque me faz feliz. Isso é suficiente”, garante. 

É possível viver um relacionamento abusivo com sua mãe, eu vivi isso.

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Frida Carla é a 317ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A história dela traz à tona uma série de questionamentos da atualidade: seria a prostituição apenas exploração, ou um direito de quem pode escolher? Por que a moral tradicional tolera relacionamentos sexuais casuais gratuitos, mas condena quem cobra por isso? Frida conhece vários lados da mesma moeda: a prostituição como exploração, como necessidade e também como escolha e chama a atenção para um olhar menos anacrônico ao tema.

Frida afirma que a prostituição pode, sim, ser exploração, mas não necessariamente. “Hoje eu mesma administro todos os meus ganhos. Não há nenhuma exploração nisso, há uma troca justa e consensual”, explica, com tranquilidade. Hoje, a advogada, mãe e prostituta garante que as 3 funções podem coexistir tranquilamente em uma só mulher.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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