03/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 16/01/2019 16:29 -02

Manuela Magalhães, a pesquisadora que busca conexão com a ancestralidade

"Eu fui estudar oralidade porque me considero portadora da história oral da minha avó."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Manuela Magalhães é a 303ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Pesquisadora e escritora soteropolitana, Manuela Magalhães, quer usar sua profissão para resgatar algo que ela acredita estar perdido no tempo. Ela pesquisa a história de sua família – cujas raízes são de São Francisco do Paraguaçu, uma pequena vila de pescadores na Bahia com pouco mais de 1200 habitantes – como forma de compreender a si mesma. “Eu fui estudar oralidade porque me considero portadora da história oral da minha avó”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil. De seu trabalho de pesquisa nasceu o livro “Memórias do Paraguaçu: reflexos de um passado presente”, que já foi até publicado por uma editora alemã.

Além de trazer o elemento ancestral, a história da comunidade passa pela questão da terra, tão discutida na atualidade: para Manuela, certas disputas entre nativos e latifundiários talvez nem possam ser consideradas disputas por si só, já que alguns moradores sequer têm consciência de que podem lutar por seus direitos. “Como se resolve isso? Só educando”, afirma a pesquisadora, que sempre quis decodificar a história oral de sua família como forma de compreender a si mesma e o contexto no qual fora concebida. ”[O projeto] ‘Cabaceiras do Paraguaçu’ guarda a história de toda a minha linha genealógica.”

Fui estudar oralidade porque me considero portadora da história oral da minha avó.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
O primeiro mecanismo de defesa dela foi tornar-se uma criança completamente antissocial.

A história de parte desta família que Manuela tanto deseja buscar também moldou quem ela é hoje. Nascida no núcleo religioso e conservador, ela lembra que, quando era pequena, seus tios, tias, avós e primos moravam em um único prédio. Sua avó não queria que “nenhum dos filhos fosse embora”. E, mesmo sem perceber, foi moldando sua personalidade de acordo com a educação imposta. “Na minha família, não é qualquer roupa que uma mulher pode usar, nem qualquer foto que ela pode tirar”. Por isso, ela conta que negou durante muito tempo o que considera ser seu “lado feminino”.

Essa negação se transformou em uma forma de reagir não apenas à castração familiar, mas também aos abusos que sofreu na infância ― e o tipo de profissional e pessoa que desejaria ser no futuro. “Era um núcleo [familiar] moralista, mas ali acontecia todo o tipo de abuso que você possa imaginar.“ Manuela revela que seu primeiro mecanismo de defesa foi tornar-se uma criança antissocial. “Eu não falava sobre o que acontecia, eu nem sabia que aquilo era abuso. Conseguir falar foi uma vitória”. Durante o tratamento psicoterápico – e com o passar dos anos e a chegada da maturidade – ela conseguiu falar sobre, mas o processo de cura foi longo: na adolescência, teve depressão, ansiedade e síndrome do pânico.

Não é qualquer roupa que uma mulher pode usar, nem qualquer foto que ela pode tirar.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu não tenho vergonha da minha história e não tenho vergonha de, apesar dela, ser feliz"

Durante o processo de cura, sofreu uma grave lesão no tornozelo, o que lhe rendeu um ano na cadeira de rodas e o diagnóstico de que nunca mais andaria. “O médico me disse que eu não andaria mais, mas eu nunca acreditei nisso”, conta. Mas Manuela encontrava na excelência um meio de existir: era a melhor aluna da turma, ganhava medalhas e bolsas de estudo e era uma leitora voraz. Graduou-se em turismo especializou-se em história oral e atualmente cursa mestrado em Buenos Aires, na Argentina.

Hoje, ela reconhece que superou barreiras e credita esse triunfo não só à generosidade que tem com seu trabalho, mas também à sua ligação com dança, arte e espiritualidade. “Sempre acreditei muito em Deus. Tem dedo dele na minha vida”, brinca. Primeiro foi com o balé, depois na fotografia e finalmente no rapel, Manuela aprendeu a revisitar seus traumas e vislumbrar a cura. “Depois que eu comecei a descer de rapel, ganhei coragem pra falar, externalizar o medo, a vergonha... Quando eu comecei a falar dessas coisas, minha vida deslanchou.”

Não existem barreiras: quando quero algo, trabalho até conseguir.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Ela conta que seus principais canais de cura foram a espiritualidade e os esportes radicais.

Do casamento que acabou há alguns anos, ela teve uma filha, a quem procura ensinar a ser grata pela vida e usufruí-la em vez de culpar as circunstâncias. Seu modo de viver envolve lutar e agradecer com fé. E esse segue sendo seu lema, ao lado da missão que têm de se reconectar com a própria ancestralidade. Na vida acadêmica, Manuela busca se aproximar da realidade de seu objeto de pesquisa – que é, afinal, sua própria história. “A realidade das comunidades é uma; a realidade das panelinhas acadêmicas é outra. (...) Eu não tenho vergonha da minha história e não tenho vergonha de ser feliz. Um dia, eu ainda vou viajar esse mundo todo”. Que seus ancestrais te ouçam.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo e Andréa Martinelli

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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