POLÍTICA
01/01/2019 15:55 -02 | Atualizado 02/01/2019 08:21 -02

Na posse, Bolsonaro reafirma promessa de defender valores religiosos e familiares

Novo presidente diz que país se livrará de "amarras ideológicas"; "É uma campanha eleitoral que se transformou em um movimento cívico."

NELSON ALMEIDA via Getty Images
No juramento, o presidente Jair Bolsonaro e o vice, general Hamilton Mourão, prometeram honrar a Constituição e as leis brasileiras.

Eleito novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaroreafirmou, em seu primeiro discurso na cerimônia de posse, sua promessa com a defesa de valores religiosos e familiares. O capitão reformado do Exército também pediu empenho do Congresso Nacional para aprovar reformas na área econômica.

Em discurso no plenário da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (1º), o ex-deputado começou com um agradecimento por estar vivo após o atentado em setembro e pelo apoio dos eleitores. Na fala de pouco mais de 10 minutos, ele prometeu mudanças e o combate a "ideologias políticas".

"Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e a nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nosso valores", disse. "O Brasil vai voltar a ser livre das amarras ideológicas", completou.

Leia aqui na íntegra o discurso de Bolsonaro no Congresso.

Eleito com 57 milhões de votos, Bolsonaro atribuiu sua vitória nas urnas a uma movimento nacionalista e espontâneo. "É uma campanha eleitoral que se transformou em um movimento cívico", disse.

Sem citar reformas específicas, como a da Previdência, o novo presidente pediu ajuda dos parlamentares para "reerguer nossa pátria" por meio de reformas estruturantes "para saúde financeira e sustentabilidade das contas públicas". "Estou casando com vocês", brincou com os ex-colegas.

O ex-deputado reforçou promessas de campanha, como reduzir a regulamentação para empresários, a fim de aumentar a produtividade e conquistar um "círculo virtuoso que traga confiança para abrir o mercado para o comércio internacional".

No âmbito da segurança, Bolsonaro voltou a defender o direitos do "cidadão de bem" dispor de "meios para se defender", em referência a uma flexibilização da posse e do uso de armas. O presidente também pediu ajuda do Congresso para aprovar medidas que garantam a atuação de forças policiais e disse que as Forças Armadas devem atuar na defesa das instituições democráticas.

Posse presidencial

Os trabalhos no plenário da Câmara foram conduzidos pelo presidente do Congresso, Eunício Oliveira (MDB-CE). Após o hino nacional, Bolsonaro e o vice-presidente, general Hamilton Mourão, fizeram o juramento oficial, em que prometeram honrar a Constituição e as leis brasileiras. O vice militar chamou atenção pelo tom de voz mais alto e provocou alguns aplausos entre os convidados.

Em seguida, foi assinado o termo de posse, o que formaliza o resultados das urnas. Também participaram dessa etapa os presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Dias Toffoli, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

No discurso, Bolsonaro citou os ex-presidentes Fernando Collor e Jose Sarney, únicos presentes na cerimônia. De acordo com cerimonial do Itamaraty, foram enviados convites a todos eles, com exceção de Luís Inácio Lula da Silva, que está preso em Curitiba desde abril.

Mais cedo, o capitão da reserva publicou em seu Twitter um vídeo no qual agradeceu ao apoio dos brasileiros. "Nós pretendemos, sim, mudar o destino do nosso Brasil. Mas, para tanto, precisamos continuar tendo o seu imprescindível apoio", afirmou.

As solenidades da posse começam às 14h45. O novo presidente e a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, seguiram da Catedral Metropolitana de Brasília, no início da Esplanada dos Ministérios, até o Congresso.

Apoio ao governo Bolsonaro

Antes da posse, candidatos à presidência da Câmara dos Deputados se mostraram dispostos a atuar em favor da agenda de Bolsonaro. "As prioridades são reforma da Previdência e posse de armas", afirmou a jornalistas o vice-presidente da Câmara, deputado Fábio Ramalho (MDB-MG), um dos candidatos ao comando da Casa.

O emedebista elogiou a atuação do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), responsável pela articulação política e do próprio Bolsonaro. "Ele está atuando. Ele é da Casa", disse em referência ao tempo de mandato do ex-deputado. O deputado também destacou a importância dos parlamentares. "Só vamos conseguir aprovar reformas com as instituições muito fortes", disse.

Presidente da bancada da bala e pré-candidato ao comando da Câmara, o deputado Capitão Augusto (PR-SP), por sua vez, também apontou como fundamental o papel dos parlamentares para votar temas como flexibilização de armas. No último sábado (29), Bolsonaro anunciou que faria mudanças sobre o tema via decreto presidencial, sem aval do Congresso.

Ao chegar ao Congresso, o ministro Onyx, por sua vez, informou que será feita uma reunião ministerial na próxima quinta-feira (3) e ressaltou que o novo governo simboliza desejos de mudança dos brasileiros. "Quando a gente olha para 2013, 2014, 2015, 2016, o que as pessoas queriam? Por que as redes sociais levaram aqueles milhões de brasileiros às ruas? Para viver o momento que vamos viver hoje. O Jair Bolsonaro foi o homem que conseguiu simbolizar todo esse sentimento", disse a jornalistas.

Restrição à imprensa

O trabalho dos jornalistas foi limitado durante todo o dia. O acesso aos convidados foi restrito em áreas onde era liberado nos outros anos de posse presidencial. No Salão Verde da Câmara dos Deputados, por exemplo, foi colocada uma barreira para separar a imprensa.

A entrada a diversos locais, como o comitê de imprensa da Câmara, foi limitada a horários específicos. Algumas áreas do Congresso Nacional em que os jornalistas estavam não tinham acesso a água. Todos os profissionais também foram proibidos de trazer garrafas de água. No Salão Nobre da Câmara, o acesso à água e ao banheiro foi proibido após as 13h.

Também houve limitações à energia elétrica para carregar equipamentos. Não foram disponibilizadas réguas suficientes e seguranças tentaram impedir o uso de equipamentos trazidos pelos jornalistas.

Só foi possível chegar ao Congresso e ao Palácio do Planalto por meio de transporte oferecido pela equipe de transição, feito até 8 horas e meia antes do início das cerimônias. A saída a pé pela Esplanada foi proibida, o que obrigou os jornalistas a voltarem em horários programados, logo após cada etapa da posse.

Blogueiros aliados a Bolsonaro também tiveram acesso aos locais de cobertura jornalística e alguns filmaram repórteres. Na rua, jornalistas foram hostilizados por apoiadores do novo presidente.

No Palácio do Itamaraty, último local das etapas da posse, jornalistas da França e China se rebelaram e deixaram o local, após se negarem a ficar em "cárcere privado".

Em nota, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal repudiou a postura do novo governo. "Importante reforçar que a forma como está sendo tratada a imprensa já revela como a liberdade de expressão será encarada pelo novo governo e tal fato obriga os sindicatos de jornalistas de todos o país a agirem de forma incisiva em defesa da categoria que assegura a livre circulação de ideias", diz o texto.