POLÍTICA
01/01/2019 06:00 -02 | Atualizado 01/01/2019 06:00 -02

Jair Bolsonaro no Planalto: A trajetória do capitão ao poder

Conservador e polêmico, ex-deputado toma posse nesta terça-feira (1º) após vencer eleições com discurso antipetista.

Adriano Machado / Reuters

Em fevereiro de 2014, antes das eleições presidenciais na qual Dilma Rousseff seria reeleita por uma apertada margem, o então deputado federal Jair Bolsonaro fez, por meio dos jornalistas, um apelo à população:

Vamos votar bem nas eleições, não vamos reeleger o PT, é um partido que quer a ditadura do proletariado, que quer calar a imprensa, é um partido que ignora a família, tá ok?

Foi também nessa época que ele pediu ao PP, partido ao qual era filiado, que o indicasse como candidato à Presidência da República. O argumento: era um representante real da direita brasileira.

Dos quase mil comentários no vídeo de 2014, a maioria endossando a candidatura, um parece ter sido ouvido pelo candidato: "Enquanto você persistir suas chances aumentam. Avante à vitória!".

Em 4 anos, Bolsonaro conseguiu se projetar dos corredores da Câmara dos Deputados para todo o País, primeiro via redes sociais, mas depois também com viagens intensificadas entre 2016 e 2017. Se consolidando como a voz "contra tudo isso que está aí", tornou-se "mito".

Nesta terça-feira (1º), o Brasil dá posse ao capitão reformado do Exército. Um homem de soluções simples, com discurso armamentista e que flerta com o autoritarismo. Que coleciona declarações machistas e de apoio à ditadura, mas que, principalmente, soube atrair o sentimento antipetista para conquistar nas urnas o apoio de 57.797.7847 brasileiros (55% dos votos válidos, ou 49,8% de todos os que votaram, contando nulos e brancos).

Trajetória

Nascido em 21 de março de 1955 em Glicério (SP), Bolsonaro viu sua vida mudar quando entrou para a carreira militar. Depois de uma rápida passagem, aos 18 anos, pela Escola Preparatória para Cadetes do Exército, fez concurso para a Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, e se tornou paraquedista.

Registros feitos à época, como o do coronel Carlos Alfredo Pellegrino, no entanto, mostram um militar nem sempre subordinado. "[Ele] Tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos."

Em 1986, Bolsonaro concedeu uma entrevista para a revista Veja, na qual reclamou do salário. Foi advertido e ficou preso 15 dias. A bandeira de defesa das benesses militares foi a que o levou à política. Em 1989, ele foi eleito vereador. Em 1991, deputado federal, posto para o qual seria reeleito 6 vezes.

Na Câmara, defendeu a atuação dos militares na ditadura, a flexibilização do desarmamento, a redução da maioridade penal, medidas de proteção à família tradicional, e falou abertamente contra políticas voltadas para minorias, como cotas, criminalização da homofobia e a lei que tipificou o crime de feminicídio.

Em entrevista à Playboy, em 2011, afirmou que seria incapaz de amar um filho homossexual. "Não vou dar uma de hipócrita aqui. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí", disse.

A família

Na política formal, Bolsonaro conduziu seus 3 filhos mais velhos pelo mesmo ramo. O primeiro a seguir os passos do pai foi Carlos. Aos 17 anos, ele se tornou o vereador mais jovem do Rio de Janeiro à época. Depois de 18 anos, o rapaz que um dia disse que pediria sempre ajuda do pai teve um papel fundamental na eleição presidencial, comandando as redes sociais e a estratégia de comunicação digital de Bolsonaro.

Em 2002, Flávio Bolsonaro — atual senador eleito — se tornou deputado estadual e, em 2014, o caçula Eduardo, foi eleito deputado federal — reeleito em outubro para a próxima legislatura. Os 3 representam as mesmas bandeiras que o pai, com discurso afinado.

HuffPost Brasil
Bolsonaro e os 3 filhos: Carlos, Flávio e Eduardo.

Eles foram gerados no primeiro casamento do novo mandatário do País. Do segundo casamento, nasceu Jair Renan Bolsonaro, 20 anos. Do casamento atual, com Michelle, nasceu Laura, de 8 anos.

A menina, inclusive, se viu envolvida em uma das declarações polêmicas do pai. Em 2017, Bolsonaro disse publicamente que a filha era consequência de uma "fraquejada" depois dos 4 filhos homens. Durante a campanha, tentou desfazer a mensagem machista, e gravou um vídeo no qual se emocionava ao falar que a chegada de Laura mudou sua vida.

Bolsonaro é católico e a atual esposa, Michelle, evangélica, mas os dois frequentam juntos a Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, no Rio.

O estilo

A imagem da filha de Bolsonaro, a única mulher, foi amplamente explorada na reta final da campanha justamente para combater uma das marcas que mais pesa contra o presidente: o estilo. Bolsonaro fala o que quer e sem medo.

Reprodução/Instagram/@JairMessiasBolsonaro
Bolsonaro e a filha Laura, a única mulher.

Foi sem nenhum pudor que por diversas vezes ele deu declarações machistas. Assim como falou das mulheres, fez com os negros e homossexuais. Foi acusado de racismo e disse que estava brincando. "Se você ver meu semblante, foi na brincadeira. Pode ser uma brincadeira infeliz? Pode, mas isso não é racismo."

O semblante de Bolsonaro é, na maioria das vezes, de brincadeira. Tem o riso fácil, mas se estressa rápido. É uma pessoa de poucas exigências, com estilo humilde que chega a esbarrar na falta de decoro.

Toda a ausência de requinte é traduzida na maneira como ele fala com as pessoas e transmite suas ideias. É tido como "gente como a gente", o que contribuiu também com sua popularidade. Como diz Paulo Guedes, guru econômico do novo governo, "Bolsonaro fala feio". "O presidente tem bons princípios. Se ele tem bons princípios, qual problema de ele não se expressar de uma forma politicamente correta?"

Nesse contexto, era esperado que Bolsonaro se esquivasse da imprensa em seu contato com a população. As redes sociais - Twitter, Instagram, Facebook e YouTube - se tornaram as principais plataformas para ouvir o que Bolsonaro quer dizer. Nas redes, não há filtro.

E ele faz questão de se apresentar de chinelo, de camisa de time de futebol, com a mesa bagunçada.

Divulgação/Assessoria
Bolsonaro lavando roupa em Marambaia.

A campanha

Todos os anos de trabalho nas redes sociais foram essenciais para a campanha presidencial. Bolsonaro conseguiu levar seu público para as ruas e o alimentou via mídias digitais - e, nesse caso, contou com o WhatsApp como aliado fundamental. A plataforma digital fez a diferença especialmente pelo fato de Bolsonaro ter sido tirado da campanha de rua por um atentado a faca, em 6 de setembro.

Hospitalizado, o então candidato que vinha arrastando multidões e era principal alvo dos debates presidenciais teve de se recolher. Em contrapartida, ganhou espaço na televisão, com notícias sobre seu estado de saúde.

Stringer . / Reuters
Em 6 de setembro, Bolsonaro foi obrigado a deixar a campanha de rua por ter sofrido um atentado a faca.

Mesmo com pouco tempo de campanha na TV e ausente dos eventos de rua, Bolsonaro cresceu nas pesquisas de intenção de voto e foi para o segundo turno contra o candidato do PT, Fernando Haddad. Materializou-se, então, a perspectiva de que ele era o único capaz de derrotar o PT.

Já com estado melhor de saúde, Bolsonaro optou por não participar dos debates. Seguiu nas redes sociais e no horário eleitoral gratuito de rádio e TV, com programas repletos de ataques ao PT.

Bolsonaro teve dificuldade para encontrar um vice para a chapa. Fez convites ao senador Magno Malta (PR-ES), à deputada estadual eleita Janaina Paschoal (PSL-SP) e fechou com o general Hamilton Mourão (PRTB). Do partido de Levy Fidelix, Mourão prometeu que não será decorativo.

O capitão reformado do Exército contou com apoio da bancada evangélica, da agropecuária e de integrantes da frente pela segurança. Defendeu o presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump, também considerado misógino e racista, adotou estilo semelhante ao dele e prometeu aproximar a economia brasileira dos países simpáticos aos americanos.

Romper com a política econômica do PT também fez parte do discurso, embora enquanto parlamentar tivesse adotado uma postura estadista e colecionado votos semelhantes aos petistas. Para isso, aproximou-se de Paulo Guedes, economista liberal.

A transição

Enxugar as contas, a máquina pública e promover reformas. O próximo governo mal começou e esses 3 pilares já estão em fase de revisão. Enquanto "preparou a casa", Bolsonaro enfrentou algumas das contradições da política. Dos 15 ministérios prometidos, reviu para 18 e fechou em 22.

Teve que enfrentar a mágoa de aliados que não foram alocados em seu governo, como Magno Malta e a bancada evangélica que não se viu representada na composição dos ministérios. Passou ainda pelo constrangimento de nomear políticos envolvidos em escândalos, como Onyx Lorenzoni, o chefe da Casa Civil.

Rafael Carvalho / Governo de Transição
Bolsonaro lidera reunião com bancada do PSL no governo de transição.

A bandeira de combate à corrupção ganhou sustentação com o convite ao juiz responsável pela Lava Jato na primeira instância para o comando do Ministério da Justiça. Sérgio Moro, assim como Paulo Guedes, que comandará a Economia, se tornou um "superministro", acumulando atribuições que cabiam a várias pastas.

Reforma da Previdência, pena de morte, mudança da embaixada de Israel para Jerusalém, destino da Funai, políticas para o meio ambiente foram alguns dos temas áridos que Bolsonaro teve de enfrentar antes mesmo de assumir oficialmente o comando do País — e nem sempre os enfrentou com resoluções.

O que pesa contra ele

Já perto de assumir o comando do País, o presidente foi alvejado com a revelação de que um ex-assessor do filho movimentou de forma suspeita R$ 1,2 milhão.

Foi noticiado ainda que a filha de Queiroz, Nathalia, acumulou cargo no gabinete de deputado de Bolsonaro entre 2016 e 20018, no mesmo período em que ela trabalhava como personal trainer no Rio de Janeiro.

A história lembra a de Val, outra funcionária de Bolsonaro. Enquanto esteve empregada no gabinete do então parlamentar, ela vendia açaí em Angra dos Reis, como mostrou o jornal Folha de S. Paulo.

O episódio foi um dos marcos da campanha eleitoral, assim como a suspeita da compra, por empresários aliados a Bolsonaro, de disparos ilegais no WhatsApp para impulsionar material de campanha e fake news contra Fernando Haddad (PT). O PT chegou a pedir a impugnação da candidatura de Bolsonaro com base em uma reportagem da Folha, sem sucesso.

Na política, o patrimônio de Bolsonaro se multiplicou. Ele e seus 3 filhos são donos de 13 imóveis, avaliados em pelo menos R$ 15 milhões. A renda desproporcional ao salário seria compatível à denúncia de sua ex-esposa de que ele teria ganhos médios de R$ 100 mill, enquanto recebia salário de parlamentar.

Em 2011, Ana Cristina, segunda mulher do capitão reformado do Exército, afirmou ter sofrido ameaça de morte. A questão acabou classificada como de foro íntimo e não chegou a parar na Justiça.

Bolsonaro, entretanto, é réu no STF por apologia ao estupro. Em um bate-boca em 2014 com a deputada Maria do Rosário, ele afirmou que ela "não merecia ser estuprada".

Ditadura

A língua afiada também é marca de Bolsonaro no que se refere à ditadura. "Não houve golpe militar em 1964. Quem declarou vago o cargo do presidente na época foi o Parlamento. Era a regra em vigor." Para o presidente, a História é contada apenas por um viés, "com os militares sendo tido como bandidos de 1964 a 1985."

Em 2016, o então deputado dedicou o voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff ao coronel Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no período em que foram registrados mais de 500 casos de tortura.

Bolsonaro, inclusive, defende a tortura nos dias de hoje. Segundo ele, pau de arara "funciona" e o povo concorda e é favorável a medida. Para ele, essa é uma medida enérgica para solução de crimes.

O que conta a favor dele

Um dos maiores trunfos de Bolsonaro é o apoio popular. A quantidade expressiva de votos e a expectativa positiva do eleitorado têm sido os principais pilares que sustentam suas decisões. Pesquisa Ibope recente encomendada pela CNI mostrou que 3 em cada 4 brasileiros acreditam que o governo dele está no caminho certo.

A sondagem também mostrou que 64% dos entrevistados têm expectativa positiva. O índice é superior ao que antecedeu no primeiro mandato de Dilma (62%) e inferior ao de Lula (67%).

Tamanha expectativa ajudou candidatos que colaram sua imagem em Bolsonaro na campanha. O PSL, que era um nanico até então, após a filiação de Bolsonaro saiu de 1 deputado eleito em 2014 para 52 este ano.

O prognóstico é que ele comece o ano legislativo em fevereiro com uma bancada de 350 parlamentares. A fidelidade pode garantir a aprovação de projetos importantes, defendidos na campanha, como a reforma da Previdência que depende de emenda à Constituição. Para aprovar uma medida como esta é preciso maioria qualificada, ou seja, ao menos 308 dos 513 votos possíveis na Câmara dos Deputados em 2 turnos de votação.